Zara é acusada de explorar sofrimento de palestinos na Faixa de Gaza, em campanha publicitária, e sofre boicote

A empresa espanhola de vestuário Inditex, dona da marca mundialmente conhecida Zara, de fast-fashion, nega a intenção, mas foi impossível não associar as primeiras imagens da campanha publicitária – divulgadas na semana passada nas redes sociais e lojas -, às cenas brutais de palestinos mortos pelo governo de Israel na Faixa de Gaza desde 7 de outubro. 

Nesse dia, o grupo terrorista Hamas derrubou bloqueio e invadiu Israel, matando moradores de kibutz e participantes de festival de música e sequestrando cerca de 200 pessoas, entre jovens, idosos e crianças. “Em sua defesa”, Israel iniciou bombardeios contra os civis da Faixa de Gaza.  

O cenário das fotos da Zara parece um local em ruínas, com manequins mutilados e objetos destruídos ou embrulhados em plástico ou lençol. Uma das imagens mais polêmicas mostra a modelo norte-americana Kristen McMenamy segurando um manequim envolto num lençol branco (acima), que pode remeter facilmente às cenas de palestinos mortos envoltos em mortalhas, como é comum na tradição funerária islâmica.

E os ativistas ainda chamaram a atenção para uma placa de compensado branca que faz parte do cenário de todas as imagens e se parece com o mapa da Faixa de Gaza.

Em outra cena, McMenamy aparece dentro de uma caixa de madeira (acima), que ativistas e seguidores nas redes sociais consideram muito parecida com caixões que circulam em Gaza.

E, assim, a marca foi acusada de desrespeitar os palestinos e seu sofrimento devido aos ataques empreendidos por Israel a seu território, que já matou 18 mil pessoas, a maioria crianças, sem falar das que estão desaparecidas sob os escombros.

Num post, usuário comparou o anúncio da Zara a uma foto de uma vítima fatal (ao lado).  

A conta da Zara no Instagram foi invadida por dezenas de milhares de comentários críticos, muitos acompanhados pela bandeira palestina, enquanto a hashtag #BoycottZara ficou entre as trending topics do X (ex-Twitter).

Um comentário dizia: “Marketing sobre um #genocídio […]. Nossa dor não está à venda. Que vergonha, @zara!”. Outro: “Muito além de nojo”. E outro ainda: “Usar o genocídio do povo da Palestina para a sua campanha? Nunca mais comprarei nada da Zara. Isso é absolutamente cruel, sem coração e mau. Zombando de mais de 20 mil mortes de palestinos para uma maldita campanha??”. 

As fotos que causaram revolta foram retiradas das redes da marca, mas a Inditex declarou à Reuters que não se trata de uma reação da empresa aos ataques de ativistas e, sim, parte “do procedimento normal de atualização de conteúdo”.

Também destaca que a nova coleção foi concebida em julho e fotografada em setembro, portanto, antes do ataque do Hamas e do revide de Israel desde 7 de outubro.

Racismo, xenofobia e nacionalismo

O motivo de tanta polêmica talvez resida, também, no fato de que esta não é a primeira vez em que a Zara demonstra apoio ou neutralidade em relação a posturas pró-Israel, antes mesmo desta “guerra” ser iniciada. Há, pelo menos, dois episódios que vale destacar aqui.

Em 2021, no Instagram, a chefe do departamento feminino da Zara, Vanessa Perilman, atacou o modelo palestino Qaher Harhash, que publica conteúdos pró-Palestina e procura elucidar o conflito entre Israel e Palestina. Naquela ocasião, ele havia comentado sobre a morte de mais de 240 palestinos e 12 israelenses, resultante de mais um ataque de Israel à Faixa de Gaza.

Depois de declarar “nunca deixarei de defender Israel”, ela completou: “Talvez se o seu povo fosse educado, não explodiria hospitais e escolas que Israel ajudou a pagar em Gaza. Os israelenses não ensinam as crianças a odiar nem a atirar pedras nos soldados como o seu povo faz”. E ainda comentou que, se o modelo “saísse do armário” em qualquer país muçulmano, seria apedrejado até a morte.

Harhash copiou a mensagem publicada por Perilman e divulgou em seu perfil, viralizando. Seus seguidores inundaram a mensagem de comentários contra a estilista e de boicote à gigante do fast-fashion.

Com a repercussão, a designer se viu obrigada a deletar suas mensagens e pediu desculpas públicas. A Zara, por sua vez, divulgou nota dizendo que não aceita “nenhum desrespeito à cultura, religião, nacionalidade, crença ou raça”, que é uma empresa diversa, que não tolera discriminação de nenhum tipo e está comprometida em garantir um “ambiente igualitário e inclusivo como parte dos valores da empresa”. 

Em seguida, cobrada por uma posição mais efetiva contra Perilman, a Inditex disse que a questão havia sido resolvida entre Vanessa e Qaher. Para o modelo, a Zara “decidiu não fazer nada a respeito”. 

No segundo caso, registrado em outubro de 2022, palestinos decidiram boicotar a rede Zara depois que Joey Schwebel, de dupla nacionalidade canadense-israelense, presidente da linha produzida em Israel, recebeu a visita de um membro do Otzma Yehudit, partido nacionalista de extrema-direita, Itamar Ben Gvir, devido à sua campanha para as eleições de novembro.

Nas redes sociais, vídeos mostravam roupas palestinas queimando numa loja de retalho e apelavam aos “companheiros palestinos, boicotem esta empresa racista!”.

Ben Gvir foi visto, em vídeo, em 13 de outubro à noite, empunhando uma pistola no bairro ocupado de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, e instando colonos e a polícia a disparar contra palestinos que atiram pedras às forças de ocupação. Ele também é conhecido por elogiar o colono extremista Baruch Goldstein, que massacrou 29 palestinos na Mesquita Ibrahimi em 1994.

Foto (destaque): divulgação/Zara

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Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.