Vidhi Jain, ativista indiana, acredita que é preciso desaprender para poder criar

Vidhi Jain acredita que a sabedoria é aprendida na prática, comunitariamente e na convivência, principalmente, com as avós. Defende que o sistema educacional inibe a criatividade e a vontade de aprender. Por isso, criou há 21 anos, com seu marido Manish Jain, o projeto Shikshatar, que define como um movimento de desaprendizagem.

Nele, pessoas de todas as idades ensinam e aprendem conforme seus talentos, interesses e necessidades. Dividem conhecimentos sobre arte, música, dança, gastronomia, tecnologia. “Queremos que as pessoas pensem sobre alimentação, modos de cura, geração zero de resíduos e reflitam sobre o que é uma vida boa”, diz.

A comida é central na atuação de Vidhi, adepta do slow food, da produção orgânica e local e de que todos saibam produzir e cozinhar suas refeições. Para tanto, também participa de redes ao redor do mundo voltadas para esse tema e viaja promovendo a filosofia do Shikshatar.

“Na sociedade moderna, precisamos questionar o que estamos vivendo e entender que não há apenas um jeito de viver. Mas não adianta eu sair pelo mundo falando apenas de comida ou sobre educação na escola, se está tudo integrado: agricultura, estilo de vida, aquecimento global, a questão das mulheres”, contou para o blog Mulheres Ativistas, do Conexão Planeta, quando esteve em Sao Paulo, entre outubro e novembro, para participar de uma série de encontros relacionados à desaprendizagem e à alimentação.

Qual a origem do seu desconforto com o sistema formal de educação?

Tive uma vida privilegiada de classe média em cidades. Nasci em Nova Deli, a capital da Índia, mas meu pai era um policial com cargo burocrático no governo e, por isso, viajamos e moramos em vários locais do país. Mas também passava muito tempo junto à natureza e, apesar de sempre ter frequentado a escola, não era muito fã.

Meus pais disseram que, quando acabasse os estudos, poderia fazer o que quisesse, então, voltei a Deli para cursar Sociologia. Mas não me conectava com o curso, não via praticidade. Terminei apenas para ter o diploma. Meu verdadeiro aprendizado foi convivendo e organizando eventos com amigos fora da universidade.

Decidi que queria atuar com crianças com necessidades especiais, com múltiplas desabilidades. Após dois anos de treinamento, comecei a trabalhar em áreas rurais em Deli. Entendi que todo ser humano é especial e tem seus dons. Nessa época, estava muito próxima do sistema educacional e de agências de financiamento, e passei a ter vários questionamentos sobre a necessidade de ir à escola para aprender e o pensamento de que, quem não vai, tem menos valor.

Vi, na prática, em minhas visitas às vilas, que não era assim. Conheci pessoas mais conectadas à natureza, abertas e muito criativas. Percebi que a escola tirou muito da minha criatividade e me tornou uma parasita do sistema: uma pessoa que só pega recursos, uma consumidora, que não cria nada na vida.

Como começou a atuar para mudar essa situação?

Há 22 anos, conheci meu marido, Manish, e tínhamos o sonho em comum de criar um sistema de educação fora da escola. Estávamos decididos a desaprender a educação que recebemos. Combinamos, antes de nos casarmos, que nossos filhos não iriam para a escola. Queríamos criar uma comunidade de pessoas que quisessem aprender de jeitos diferentes e, por isso, fundamos, há 21 anos, o projeto Shikshantar.

O que defendemos é que todos tenham a chance de expressar seus talentos e, para tanto, o aprendizado deve ser prático e conectado com questões profundas da nossa própria vida. Além disso, que se aprenda cometendo erros e sendo encorajado a experimentar. E que esse é um processo coletivo.

Nosso princípio é um ditado africano que diz “é preciso uma vila para criar uma criança”. Temos que promover ecossistemas de aprendizagem para todos, desde crianças de dois anos até idosos de 90. É um objetivo para a vida toda, para trabalhar seus sonhos e paixões.

No que consiste, na prática, o projeto Shikshantar?

Shikshantar é um movimento vivo, profundamente ligado à nossa vida e como queremos viver. Como estamos no sistema de desaprendizagem, precisamos criar outros sistemas de aprender. Como estamos na cidade, queremos que as pessoas pensem sobre alimentação, modos de cura, geração zero de resíduos e reflitam sobre o que é uma vida boa.

Temos um centro muito bonito, que fica na cidade de Udaipur, no Rajastão. O coração da filosofia é que todo ser humano é inteligente e criativo, e está sempre tentando aprender. Trabalhamos com pessoas de todas as idades, em projetos que envolvem comida, slow food, filmes, dança, cura. Todos os dias são diferentes e tudo é criado em comunidade.

Mas também temos um projeto em Udaipur, Cidade do Aprendizado, no qual atuamos na cidade toda com uma rede de aprendizado que evolve curadores, artistas, fazendeiros e todos que queiram aprender na prática uns com os outros. Para tanto, mapeamos atividades e pessoas que estão lá para compartilhar conhecimentos para projetos dos sonhos. Queremos formar empreendedores na cidade. Com isso, muitas pessoas estão criando cafés, galerias de arte, locais de curas alternativas, desenvolvendo produtos orgânicos. Artesões locais estão investindo em projetos de upcycling.

A alimentação tem papel crucial nesse projeto e é uma área na qual você se dedica particularmente. Por que?

Quando minha filha Kanku nasceu, há 18 anos, passei a questionar que comíamos tudo com muito veneno, vindo de longe, nada era fresco. Daí veio minha preocupação em termos alimentos baseados na economia local, voltar à produção de comida e cura a partir de sistemas mais holísticos de vida.

Para tanto, passamos muito tempo com curadores, avós e avôs, líderes das cidades, fazendo conexão com produtores que fornecem alimento para a cidade. Descobrimos que todos têm que ser capazes de produzir e preparar sua comida. Todos os que passam pelo Shikshantar aprendem isso.

Como pessoas que moram em grandes cidades, como as da Índia ou do Brasil, podem produzir sua própria comida?

A questão é ter algum contato com isso, para que possa entender o processo. Ajudamos os moradores da cidade a plantarem nos tetos, nas sacadas, mesmo que sejam jardim de ervas ou plantas medicinais. Ensinamos que é possível fazer isso com pouco espaço e pouca água. Também locais abandonados das cidades podem se transformar em locais de produção de alimentos, como aconteceu no Viveiro Escola com Mulheres do GAU, que conheci em São Paulo. Onde existia um lixão, agora há um viveiro e um local de aprendizado e convivência para a comunidade.

Há dez anos, criamos o Halchel Café, no qual, todos os sábados, as pessoas cozinham juntas, usam grãos locais e o que está na estação. É um lugar onde todos partilham seus dons, cozinhando, cantando, dançando. Cada um paga o que deseja e o que pode. Hoje, há vários cafés como esse na cidade, funcionando em sistema de slow food, para incentivar as pessoas a preparar a própria comida.

Você e Manish mantiveram a promessa de não enviar Kanku à escola formal. Que vantagens acredita que essa decisão trouxe para ela?

A maior vantagem é que ela é livre para escolher o que quer aprender e a maior parte do seu aprendizado é prático, não a partir de livros impostos. Ela também tem tempo para aprender o que lhe interessa, seja trabalhar em uma padaria, fotografar, fazer filmes, arte em rena. Também passa bastante tempo com suas avós, o que acho importante.

Ela também é mais sociável que a maior parte das crianças e jovens que ela conhece, e tem amigos de todas as idades, com quem interage. Está aprendendo com situações verdadeiras da vida questões relacionadas a sensibilidade, cuidado e compaixão. Se volto para minha infância, vejo que não tinha tempo para isso.

Mas não queremos que isso se limite à nossa filha. Apoiamos mais de 10 mil crianças na Índia, não apenas as que querem deixar a escola formal, mas as que querem dar uma parada para desenhar o próprio caminho. E não apenas crianças, mas qualquer pessoa que queira fazer algo diferente da sua vida.

Há movimentos no Brasil que defendem que as crianças não frequentem a escola, mas alguns são ligados a questões religiosas. Querem impedir que seus filhos tenham contato com conteúdos científicos. O que você acha disso?

Acredito que, na sociedade moderna, precisamos questionar o que estamos vivendo e que não há apenas um jeito de viver. Mas precisamos conhecer várias realidades. Desafiaria essas pessoas a se abrir para outras realidades, não apenas fora da escola. Nossa luta não é apenas para desafiar o que está sendo feito, não queremos que as crianças sejam mantidas em casa, mas que o mundo seja aberto para elas.

Vivemos em um mundo que funciona em rede, no qual muitos estão questionando o desenvolvimento, a educação. Problemas enfrentados na Índia, também acontecem no Brasil ou nos Estados Unidos. Estamos associados a movimentos e redes ao redor do mundo que estão sempre redefinindo o que é sucesso na vida e fazendo um balanço entre o que é local e o que é global.

Não adianta eu sair pelo mundo falando de comida ou sobre educação na escola, se está tudo integrado: agricultura, estilo de vida, aquecimento global, a questão das mulheres. O problema não é a criança ir ou não à escola, mas que não fique em uma caixa.

Hoje o modelo é destrutivo, precisamos deixar de ver tudo de maneira compartimentada. As avós não tinham sua vida dividida em biologia, línguas, matemática. Uma vida fragmentada não é natural.

Como vê a situação da mulher nessas questões?

A educação é a porta para as mulheres se empoderarem, mas até isso precisa ser questionado, pois não se resume a ir para a escola. Hoje, o sistema educacional só produz escravas do status quo, definido pela economia. As mulheres das cidades estão felizes, tendo que cuidar da casa, do trabalho, da economia? Tudo que temos e vivemos é pressionado pelo sistema patriarcal. A ideia do feminismo precisa levar isso em consideração, não pode ser visto separadamente dos problemas do mundo. Há avós muito mais empoderadas do que eu, que fui para a escola.

Propomos uma educação para formar pessoas criativas, compassivas, mas não vejo as pessoas saindo da escola prontas para essas questões. A educação deveria ser mais “avoizada”, conectada com as raízes, com as avós. Precisamos de vários tipos de educação, não apenas a da escola.

Foto: Maria Zulmira de Souza (foto realizada no Espaço Zym, onde Vidhi ficou hospedada e participou de alguns encontros relacionados a desaprendizagem)

Edição: Mônica Nunes

Maura Campanili

Jornalista e geógrafa, foi repórter e editora de cidades e meio ambiente na Agência Estado e na revista Terra da Gente. Trabalhou em ONGs como a SOS Mata Atlântica, Instituto Socioambiental e Rede de ONGs da Mata Atlântica. É autora e editora de livros e publicações socioambientais e autora do blog ‘Paulistanasp’ no qual fala de temas que lhe são caros: meio ambiente, a metrópole paulistana, literatura e feminismo.

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