Ver a ararinha-azul de volta à natureza é o sonho (e a luta) de Lourdes e Damilys Oliveira

Mãe e filha, Lourdes e Damilys Oliveira vivem na propriedade rural da família em plena Caatinga baiana, na divisa dos municípios de Curaçá e Juazeiro, região que ficou conhecida por ser a única morada da ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), ave incrivelmente bela, mas declarada extinta na natureza desde 2001, quando Damilys mal tinha nascido.

O desaparecimento da ave, assim como o processo de destruição da Caatinga, sempre foi motivo de tristeza para Crispiniano Cândido de Oliveira, pai de Lourdes, cujo sonho era que os netos pudessem, um dia, ver a revoada das ararinhas como ele e sua filha haviam visto um dia.

Foi assim que, quando a ONG Save Brasil chegou à região em 2012 – com um projeto para proteger a Caatinga e reintroduzir a ave na natureza -, a família prontamente disponibilizou parte de sua propriedade para criar uma reserva particular para a ararinha-azul, muito antes que a Área de Proteção Ambiental (APA) e o Refúgio de Vida Silvestre (Revis) da Ararinha-Azul fossem, finalmente, criados, em 2018.

Desde então, o envolvimento de mãe e filha com o destino da ararinha só se intensificou, mesmo após o falecimento de Crispiniano, em 2014.

Além de cuidar da reserva, Lourdes tornou-se uma referência sobre conservação na região. Recebe visitantes de várias partes do mundo para mostrar a área preservada e contar a história da ararinha-azul. Recebe aves apreendidas para recuperação e para serem novamente soltas na natureza.

Damilys tornou-se voluntária (hoje, contratada) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e participa dos estudos voltados à reintrodução da espécie, monitorando seu habitat. Ambas esperam ansiosas pelo início da reintrodução dos 52 exemplares, dos 180 que existem em cativeiro no mundo, que chegaram ao país em março deste ano, vindo de um criadouro alemão, e devem ser soltos até 2022.

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(NOTA DO EDITOR: o Conexão Planeta publicou uma série de reportagens a respeito do criador alemão e da reintrodução das ararinhas. Vale a leitura)

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As duas também foram as últimas pessoas a ver e registrar uma ararinha-azul solta na natureza, em 2016 – possivelmente um exemplar fugido do cativeiro. Devido ao trabalho de ambas pela espécie já protagonizaram várias reportagens para veículos de comunicação do mundo todo. E sua história é contada, também, em um livro didático de português.

“Chorei quando soube, imaginando que meus netos, quando estiverem na sétima série, vão ver o trabalho da tia de 21 anos e tudo o que aconteceu na casa da avó deles. É uma grande honra poder contribuir com essa história”, declara Lourdes.

Conheci as duas no final de 2019 quando fazia reportagens para o livro Save Brasil – 15 Histórias de Conservação (Edições TIJD), que destaca pessoas, projetos e aves que marcaram os 15 anos da primeira organização brasileira dedicada à proteção de aves e de seus habitats. É a trajetória dessas ativistas apaixonadas que conto aqui.

De onde vem o interesse da família pela ararinha-azul?

Lourdes – Meus pais biológicos moravam aqui perto, tinham muitos filhos e eram muito pobres. Com dois anos de idade, painho me adotou e vim morar com ele e Iaiá. Cresci, casei, e fui morar em uma fazenda aqui perto e engravidei de Anderson, meu filho mais velho. Até que Iaiá ficou doente e vim morar com painho, com meu marido e os quatro filhos. Cuidei dele e ele cuidou da minha família.

Meu pai era muito conservador da natureza. Aqui ninguém caçava, não pegava passarinho – ele nunca deixou. Sempre dizia que gostaria de ter uma área de conservação. Ele amava as ararinhas e havia muitas por aqui quando eu era criança. Painho não se conformava que seus netos não teriam a mesma oportunidade.

Como surgiu a reserva ‘Cercado da Ararinha’?

Lourdes – Acompanhávamos o Projeto Ararinha Azul com muita esperança, mas ele acabou em 2001, quando o último exemplar selvagem de ararinha-azul desapareceu. Até que, em 2013, soube que haveria uma reunião para falar sobre a ararinha e fui até lá saber do que se tratava.

Conheci a equipe da Save Brasil, que falava da importância de manter áreas de conservação na Caatinga (habitat da ave) para que, no futuro, ela pudesse ser reintroduzida na natureza.

Quando acabou a reunião, chamei os representantes em particular e disse que, se eles queriam uma reserva, meu pai tinha uma área para doar. Desde então, não nos desligamos mais da SAVE Brasil.

Painho assinou contrato de concessão da área de 28 hectares e a organização comprou o material para cercar a reserva, que ficou conhecida como Cercado da Ararinha. Quando meu pai faleceu, em 2014, continuei a manter o local.

O que aconteceu desde então?

Lourdes – Desde que a área foi cercada, evitando a invasão de cabras e bodes, a mata vem se recuperando. Agora, quando o riacho intermitente Barra Grande, que margeia a reserva, enche de água na época das chuvas, já não destrói tudo como acontecia antes. A quantidade de aves e outros animais nativos tem aumentado. A Save também fez um projeto para que plantássemos palma para alimentar os bodes, para que os bichos não invadam a Caatinga.

Depois disso, foi criada a APA e a Revis da Ararinha-azul e o ICMBio assumiu o projeto. Para mim, virou uma causa. Acolho as pessoas da região e as que vêm de fora para conhecer a área, faço peças de crochês de ararinha e outras aves da região, para que as pessoas conheçam e tenham uma lembrança.

Antigamente, crianças da idade do meu neto, hoje com oito anos, usavam baladeira (estilingue) para matar pássaros. Hoje, eles sabem que não podem prender e matar. Meninos da redondeza trazem pássaros doentes para eu cuidar e o Instituto de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) e o Ibama já trouxeram periquitos testa-azul apreendidos para eu cuidar.

Ficaram 1,5 ano presos até se recuperarem e foram soltos. Um deles, porém, não foi embora e me segue para onde vou. É livre, mas não sai daqui de jeito nenhum. Me sinto uma mãe para a natureza e para as próximas gerações.

Vocês foram as últimas pessoas a verem uma ararinha-azul solta na natureza, em 2016. Como foi a experiência?

Damilys – Meu avô doou parte da propriedade da família para que seus netos pudessem ver a ararinha na natureza. É incrível que ela tenha reaparecido logo depois que ele faleceu, para sua filha e sua neta. Nunca tinha visto uma ararinha, mas sabia diferenciar pelo que aprendi com o projeto.

Uma semana antes, teve uma grande fiscalização do Ibama na região de Curaçá e Juazeiro, bem rígida, entrando nas casas e soltando pássaros das gaiolas. Acreditamos que ela foi solta para não ser encontrada pelos fiscais.

Era final da tarde, em 18 de julho de 2016. Estávamos eu, mãe e pai na roça ao lado de casa plantando palma. Eu estava ouvindo música no celular, mas pai e mãe ouviram o ‘cró’, que acreditaram ser de um gavião. No início da noite chegou meu primo Naldo, nosso vizinho, com a esposa e o filho, e contaram ter visto uma ararinha-azul no chão de casa. Como a ave voou quando chegaram perto, Naldo foi até a várzea perto da reserva, onde há vários pés de caraibeira, árvore predileta da ararinha, e voltou a escutá-la. Por isso veio nos contar.

Concluímos que, se estava lá, ia passar a noite, pois dormem em árvores. Entramos em contato com a Save Brasil e nos pediram para tentar fazer um registro, em foto ou vídeo.  Eu e mãe colocamos o celular para despertar às 3h30, mas acordamos antes. Vestimos roupas de frio e fomos para a caraibeira. Às 5h50 o sol começou a clarear; cantou papagaio, maracanã e nada de ararinha. Às seis horas já estávamos desanimadas e resolvemos ir embora.

Andamos uns 15 metros e mãe disse que escutou a ararinha, e eu também ouvi o ‘cró’, que é único e inconfundível: mais grosso que o da maracanã e mais delicado que o do papagaio. Retornamos à árvore e depois de uns 15 minutos vi um galho se mexer e comecei a filmar. Ela voou e consegui fazer o vídeo de nove segundos. Tínhamos certeza de que era uma ararinha-azul, embora estivesse com a cauda estragada, indício de que deveria ter escapado de uma gaiola.

Lourdes – O filme feito pela Damilys foi divulgado mundialmente nas redes sociais da Save e da BirdLife e a notícia saiu em jornais do mundo inteiro. Depois disso, pesquisadores estiveram por aqui para procurar a ararinha, mas não foi encontrada. Foi suficiente, porém, para o ICMBio assumir o projeto de reintrodução da ararinha na natureza.

Damilys, então, se envolveu com o projeto?

Damilys – Quando a reserva foi criada, eu tinha 13 anos e nunca havia visto uma ararinha-azul na vida. Na época, o projeto passou a ser bem ativo em Curaçá, com educação ambiental, e comecei a participar de atividades. Em 2016, o ICMBio abriu o voluntariado para a preparação da reintrodução das ararinhas-azuis, que viriam de criadores, e me candidatei.

Fiz vários cursos: ascensão vertical, que é rapel em árvore, monitoramento por radiotelemetria, audiovisual, ilustração científica, entre outros. A partir daí, comecei a fazer monitoramento das maracanãs verdadeiras, espécie da mesma família e com hábitos parecidos com os da ararinha-azul, para ajudar na sua reintrodução. Elas comem as mesmas coisas, dormem nas mesmas árvores e também vivem sempre com o mesmo parceiro.

Eu e mais duas amigas passamos a fazer pesquisas biológicas, acompanhando os casais desde quando começam a colocar ovos no ninho. Pegamos os ovos, pesamos, observamos quando nascem os filhotes, colocamos anilhas e colares, pesamos e fazemos exame de sangue.

Quando os filhotes voam, seguimos os que têm colar com telemetria, mapeando para onde vão, nas fazendas e comunidades de Curaçá e Juazeiro. Íamos de moto até conseguir um carro. São mais de 40 km por dia.

Chegamos a ser contratadas como bolsistas para pesquisar a biologia reprodutiva das maracanãs, mas, quando este governo começou, os recursos foram cortados. Como havia acabado o ensino médio, comecei a trabalhar em uma loja, mas continuei a fazer o monitoramento, novamente como voluntária.

O que aconteceu com a chegada das ararinhas destinadas à soltura?

Damilys – As 52 ararinhas-azuis chegaram em 3 de março de 2020 e estão no viveiro preparado especialmente para o processo de adaptação. A soltura deve acontecer até 2022.

Só as vi de longe, pois não podem ter contato com humanos para não se acostumarem com pessoas. Com isso, o ICMBio abriu seleção para brigadista, concorri e passei. Saí da loja e agora estou contratada por dois anos para atuar nas duas áreas de conservação, onde continuo monitorando as maracanãs para ajudar na adaptação das ararinhas.

Estou muito realizada, contratada em um emprego na área em que quero trabalhar e no lugar em que moro. Mas o reconhecimento de todo o nosso esforço será mesmo quando as ararinhas forem soltas. O que mais espero é poder cursar Biologia e seguir com meu trabalho de monitoramento, mas voltado às ararinhas-azuis.

Lourdes – Continuamos a cuidar do Cercado da Ararinha e a reserva está à espera das ararinhas. Estamos a um passo de ter nosso sonho de vê-las soltas na natureza realizado.

Edição: Mônica Nunes

Maura Campanili

Jornalista e geógrafa, foi repórter e editora de cidades e meio ambiente na Agência Estado e na revista Terra da Gente. Trabalhou em ONGs como a SOS Mata Atlântica, Instituto Socioambiental e Rede de ONGs da Mata Atlântica. É autora e editora de livros e publicações socioambientais e autora do blog ‘Paulistanasp’ no qual fala de temas que lhe são caros: meio ambiente, a metrópole paulistana, literatura e feminismo.

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