PUBLICIDADE

Usando múltiplas linguagens e mídias, indígenas narram suas próprias histórias, em exposição no Museu do Amanhã

Com curadoria realizada por indígenas, a exposição Nhande Marandu – Uma história de etnomídia indígena apresenta artistas e comunicadores de etnias diversas, que se apropriam de múltiplas linguagens e mídias para reproduzir suas próprias narrativas, sem os estereótipos impostos pela cultura colonial dominante. 

O título já dá o recado. Nhande Marandu significa ‘Nossa Mensagem’. E etnomídia é um conceito criado pelo comunicador Anápuàka Tupinambá, um dos curadores da exposição, que define a ruptura com a forma ocidental como artistas e a mídia interpretam as histórias dos indígenas.

Assim, a mostra apresenta a autonomia indígena para contar suas próprias histórias por meio da comunicação analógica e digital. Inaugurada hoje, 11/11, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, a exposição vai até 23 de fevereiro.

“A ideia é apresentar ao grande público o conceito da etnomídia indígena (consulte o ‘leia também’, no final deste post), que conhecemos com Anápuàka, quando ele colaborou conosco na criação da experiência VR “Repangéia, em 2019”, conta Yuri Amorim, coordenador do Laboratório de Atividades do Amanhã, da instituição. 

“É uma forma de demarcar que os povos indígenas estão presentes não só na Amazônia, mas também de forma massiva nas cidades, e que esse lugar também lhes pertence, e não os faz menos indígenas. Por isso, escolhemos um curador para cada tipo de linguagem abordada na exposição”. 

Totens na exposição: no da frente, de cima pra baixo, a curadora Sandra Benites, o escritor Daniel Munduruku e a artista Zahy Guajajara; atrás, de cima pra baixo, o curador Anápuaká Tupinambá, o escritor Kaká Werá e a ativista Txai Suruí / Foto: divulgação

Sandra Benites, que integra o Comitê de Ciência e Saberes do Museu do Amanhã, foi a primeira curadora indígena do MASP – Museu de Arte de São Paulo, assinou uma exposição no Museu de Arte do Rio – MAR e, hoje, está à frente da programação do Museu das Culturas Indígenas em São Paulo, “representa o campo museal”, destaca Amorim.

Já Anápuaká Tupinambá representa a parte de áudio da exposição devido à sua experiência pioneira com a Rádio Yandê, a primeira rádio indígena na web do Brasil!. À Takumã Kuikuro coube responder pelo audiovisual e à Trudruá Dorrico, pela produção literária

Processo criativo indigena

Assim, desde a curadoria, passando pela identidade visual da exposição, pela redação e tradução de textos, pela produção audiovisual e sonora e a seleção de múltiplas linguagens, todo o processo criativo é de autoria de profissionais indígenas e revela o que os povos originários já produziram e produzem em temos de comunicação analógica e digital.

De Moana Tupinambá, colagem digital Txucarramae em Mairi
Luta derruba o toco’ – fotografia de Edgar Kaiankô Xakriabá

As obras apresentadas são de autoria de Denilson Baniwa, Ailton Krenak, Zahy Guajajara, Sallisa Rosa, Jaider Esbell (falecido em novembro de 2021), Davi Kopenawa, Uyra Sodoma, Edgar Kaynakô Xakriabá, Gustavo Caboco, Piratá Waurá, Moana Tupinambá, Brisa FlowRenata Tupinambá, Owerá (MC), Brô MCs, Kaká Werá, Isael Makaxali, entre outros artistas e comunicadores (são 46), e compõem um vasto acervo de fotos, videoclipes, filmes, artes visuais, acervos de rádios e livros. 

Jaider Esbell (falecido em 2021), Denilson Baniwa, Moana Tupinambá e Ailton Krenak estão entre os artista e comunicadores indígenas da mostra / Fotos: Agência Opheloa, Rafaela Campos Alves, reprodução e João Kehl

Trilogia amazônica

De acordo com Amorim, Nhande Marandu completa a trilogia de exposições sobre a Amazônia, realizadas em 2022, que começou com Fruturos – Tempos Amazônicos, seguida por Amazônia, de Sebastião Salgado.

Muito perspicaz e atual finalizar a ‘trilogia’ com uma mostra que apresenta os indígenas como “seres da contemporaneidade, produtores de suas próprias narrativas sobre si, que se apropriam de tecnologias, mídias e dispositivos modernos e fazem arte e comunicação da maneira que bem entendem”. 

“Seja um bom ancestral, hoje”

Gostaria de ter conversado com cada curador para compreender melhor o trabalho realizado com esta última mostra do ano – que também será a primeira de 2023 – no Museu do Amanhã. Somente Anápuaká Tupinambá estava acessível para responder algumas perguntas e, ainda assim, por escrito. O resultado é tão bom que decidi reproduzir praticamente na íntegra, como segue.

Anápuaká Tupinambá, curador da exposição e fundador da Rádio Yandê / Foto: Juliano Almeida

Qual o critério principal de seleção das obras?

O critério principal que usei para selecionar os artistas e as obras foi fundamentado pela qualidade e pela personalidade com a qual o artista apresenta a comunicação indígena originária de seus territórios, como interpreta as mensagens de base de suas famílias, suas histórias e memórias por meio de narrativas e linguagens comuns a seu povo, de maneira que pudessem ser amplificadas para todos os povos indígenas e não-indígenas.

Um dos princípios da comunicação étnica indígena brasileira é contar a história, a memória, a forma social, política e cultural de suas Nações Indígenas. Foi esse o parâmetro que usei para a minha seleção principal, para escolher quem iria contar histórias presentes de uma centralidade que projeta um futuro.

Qual a mensagem principal da exposição? 

O que desejo com esta exposição, junto com os artistas e comunicadores étnicos é, principalmente, contar a história da comunicação indígena, das etnias indígenas, desse conceito criado por mim – etnomídia – e que, hoje, impulsiona não só o setor da comunicação indígena brasileira, mas t’ambém o mercado do entretenimento em geral. Isso por meio do registro de memórias futuras em um plano estratégico que, até os últimos 10 anos, não se dava atenção, tanto pelas bases como pelas organizações indígenas.

Queremos trazer para nós o protagonismo, a autonomia da construção de histórias, memórias, comunicações, fatos, narrativas e, principalmente, poder aplicar – na educação, na arte, na comunicação e na história – todas as memórias ancestrais vindas da origem dos povos indígenas, como protagonistas da suas próprias histórias, sendo um bom ancestral hoje. 

O que representa a exposição no cenário atual do Brasil?

A representação da exposição, neste momento do país, é atemporal porque, em geral, tudo que nós trazemos vem de outros tempos políticos sociais que sempre foram indiferentes, invisibilizando os povos indígenas. Agora, nós trazemos à tona com um olhar mais profundo, sem hipocrisia. Dizemos que nós existimos! 

A hipocrisia que foi criada sobre a imagem dos povos originários do Brasil, de que não seríamos capazes de atuar, ser responsáveis por gerir as nossas próprias vidas, nós mostramos através da arte, da comunicação, que simplificaram todos os ambientes sociais, culturais, políticos. 

Nem a política partidária indígena tinha esse espaço e, a partir da economia indígena, nós construímos flechas mais potentes, arcos mais resistentes, que lançaram, bem mais distante, as nossas palavras escritas, pintadas, faladas e apropriadas às novas tecnologias. Isso como meio de chegar a um fim e poder fazer entregas para os não-indígenas, principalmente para a população brasileira que acredita ainda que indígena de 1500 é o indígena de 2022. 

Queremos mostrar que o indígena do século 16 não existe mais: o que existe agora é o indígena do século 21, que prospecta meios de chegar ao século 22 com um bioma melhor, com um planeta melhor, com uma terra melhor, com pessoas futuras melhores e, de alguma forma, repararmos o holocausto indígena fomentado desde 1500 até os dias atuais.

Queremos, de alguma forma, ter um país melhor para pessoas melhores, com uma população diversa e que entende que, no Brasil, há mais de 300 povos indígenas, mais de 274 línguas indígenas.

Hoje, mais de 1 milhão de pessoas indígenas são a base e a sustentação deste país: na memória, na história e na garantia de que todos são brasileiros por causa dos povos originários desse país.

Por conta do erro de um português, que se perdeu, hoje nós temos um país que não respeita as diferenças culturais e sociais, mas vamos chegar a um ponto no qual, tanto indígenas como negros, descendentes de europeus, pessoas orientais e muitas outras diversidades poderão conviver com muito amor. E eu deixo, aqui, uma mensagem: “Seja um bom ancestral, hoje”.

Expo + festival de música 

A mostra Nhande Marandu integra, de 11 a 13 de novembro, a programação do Festival Revide! Movimentos Para Imaginar Amanhãs

Artemisa Xakriabá, Djuena Tikuna, Kaê Guajajara e Kate participam do Festival Revide / Fotos: Barreto Retratos, Diego Janatã, Larissa Machado e Tony Santos

No sábado, será realizada uma roda de conversa mediada pela ativista indígena Artemisa Xakriabá, com a participação da rapper indígena Katú Mirim e Anápuàka Tupinambá, fundador da primeira rádio indígena do Brasil – Yandê. 

A programação do festival inclui também shows com a cantora Djuena Tikuna, que dividirá o palco com Larissa Luz e o bloco afro Ilú Obá de Min; a cantora Kaê Guajajara, que se apresentará ao lado de Rincon SapiênciaBrisa Flow e, ainda, uma performance com a artista visual Sallisa Rosa.

Zahy Guajajara e Salissa Rosa em performance na floresta / Reprodução de vídeo

_______________

Foto (destaque): Paulo Dessana

Leia também:
Etnomídia, uma ferramenta para a comunicação dos povos originários

Morre Jaider Esbell, um dos maiores artistas indígenas brasileiros, principal destaque da Bienal de São Paulo
O artista Denilson Baniwa e a cantora Djuena Tikuna levam a cultura indígena da Amazônia a galerias e palcos pelo mundo

Comentários
guest

0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments
Notícias Relacionadas
Sobre o autor
PUBLICIDADE
Receba notícias por e-mail

Digite seu endereço eletrônico abaixo para receber notificações das novas publicações do Conexão Planeta.

  • PUBLICIDADE

    Mais lidas

    PUBLICIDADE