União Amazônia Viva: iniciativa visa arrecadar R$ 6 milhões para apoiar os povos da floresta no combate à Covid-19

Nunca se viu tantos movimentos solidários para ajudar populações vulneráveis como nesta pandemia da Covid-19. E, como a quantidade de pessoas em risco – devido à desaceleração econômica, falta de alimentos, de moradia, de acesso à higiene, entre outros fatores -, quanto mais gente conhecida e influente unida, melhor!

Nessa esteira, surge a União Amazônia Viva para apoiar os povos e comunidades tradicionaiscom destaque os povos indígenas, bastante vulneráveis devido à sua baixa imunidade e a viverem em lugares isolados e de difícil acesso -, composta por artistas, músicos, professores, cineastas, economistas, sociólogos, comunicadores, entre outros profissionais “que atuam na região há décadas”, como destaca o site.

Entre os apoiadores estão Gisele Bündchen, os cineastas Estêvão Ciavatta e Fernando Meirelles (este assina a campanha), Caetano Veloso, as atrizes Letícia Sabatella, Taís Araújo, Débora Falabella, o fotógrafo Sebastião Salgado (que, recentemente, lançou campanha pelos povos indígenas, como noticiamos aqui), o ex-jogador e ativista Raí, a cantora Gaby Amarantos, o designer e ativista Marcelo Rosenbaum, o economista Armínio Fraga, a socióloga Ilona Szabó (Instituto Igarapé) e Ana Lúcia Villela (Instituto Alana).

Alto Rio Negro, Terra Indígena Yanomami e Baixo Amazonas

Este movimento atua principalmente por meio de doações – a meta inicial (primeira fase) é chegar a R$ 6 milhões e da mobilização de recursos, com o objetivo de que toda ajuda obtida chegue “em escala e velocidade” à região amazônica. Inicialmente, foram priorizadas as regiões do Alto Rio Negro (Amazonas) – em especial o município de São Gabriel da Cachoeira, que abriga 90% da população indígena da região e registra aumento veloz de casos de coronavírus desde abril, a Terra Indígena Yanomâmi (Roraima) e o Baixo Amazonas (Pará) devido à rapidez com que a Covid-19 se espalha, da grande quantidade de infectados e de mortes.

Essa escolha inicial se deve também ao fato de organizações como o Instituto Socioambiental, os Expedicionários da Saúde, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro e o Projeto Saúde e Alegria já atuarem nelas com planos de emergência bem definidos para o enfrentamento da pandemia. Faltam recursos para sua execução, e é exatamente aí que entra a União. Uma parceria perfeita para a gravidade da situação.

A ampliação das ações do movimento já está “desenhada” e dependerá apenas do potencial de arrecadação para ser aplicada.

Doações e parcerias

As sugestões para doação em dinheiro se iniciam com R$ 40. E o site tem versões em português e inglês para captar não só doações nacionais, como internacionais. Até agora, 12h40, de 6/7/2020, a iniciativa arrecadou quase R$ 1,3 milhão.

 Todo valor arrecadado será aplicado na compra de EPIs, equipamentos hospitalares, remoções, testes rápidos, itens de higiene, campanhas informativas e segurança alimentar. Para garantir transparência e segurança na gestão dos recursos, a Sitawi Finanças do Bem, organização financeira com foco em impacto social, aderiu ao projeto, assim como as organizações Agora!, Amazônia Covid Amazonas, Arredondar (que incentiva e facilita doações de pessoas físicas com o incentivo do arredondamento de centavos em todas as compras), Bem-Te-Vi Diversidade, Doare, Instituto Igarapé e Pare Preste Atenção.

Claro que a doação em dinheiro é a principal meta da União Amazônia Viva, mas não a única forma de participar. Empresas podem patrocinar o projeto, fazer doações em dinheiro ou de materiais e alimentos. Parceiros de serviços ou pró-bono são bem vindos. E toda ajuda para disseminar o movimento, também. Quem tiver interesse, pode entrar em contato com a organização da União pelo site.

A União Amazônia Viva também conta com o apoio logístico do projeto Asas da Emergência do Greenpeace, que, por sua vez, recebe apoio da iniciativa Givenget, viabilizando o transporte de equipamentos, materiais e profissionais de saúde.

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A luta dos Yanomami

Os Yanomami vivem na maior Terra Indígena do país – que também abriga a etnia Ye’kwana e os indígenas isolados Moxihatëtea – e sofrem com invasões de garimpeiros desde os anos 70. O primeiro indígena a morrer contaminado por coronavírus foi um adolescente Yanomami, de 15 anos, devido ao contato com esses invasores, que hoje são cerca de 20 mil.

Em junho, lideranças dessas etnias, com apoio do Instituto Socioambiental, lançaram a campanha #ForaGarimpoForaCovidcom petição e vídeo tocante – para pedir ao governo que retire os garimpeiros de suas terras. Não obtiveram resposta, claro.

Na sexta-feira passada, 3/7, Dario Kopenawa (filho do xamã Davi Kopenawa, autor do livro A Queda do Céu) e a deputada federal Joênia Wapichana tiveram audiência breve com Hamilton Mourão, vice-presidente e coordenador do Conselho da Amazônia, para fazer novo apelo. No mesmo dia, o TRF1 acatou pedido do Ministério Público Federal e determinou a retirada de garimpeiros da Terra Indígena Yanomami devido à pandemia. Linda vitória, que precisa ser cobrada por todos nós.

A Justiça determinou que a União, a Funai, o Ibama e o ICMBio apresentem um plano emergencial para proteger os indígenas e expulsar invasores, em cinco dias, a contar da publicação da determinação. Mas é bom considerar que, para o governo – e Mourão disse isso a Davi e Joênia, segundo relatos dos dois nas redes sociais -, existem apenas 3.500 mil garimpeiros nas terras Yanomami. No final deste post, reproduzo o tweet de Dario contando sobre o encontro

O plano emergencial não pode levar em conta o número declarado pelo governo, muito aquém dos registros dos indígenas e das organizações que lá trabalham. Dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), recentemente, reforçam, ainda mais, o crescimento do número de evidências de garimpo ilegal na TI Yanomami a partir de fevereiro de 2020.

E a vitória no TRF1 é apenas uma das etapas da luta dos Yanomami. Ela se refere apenas ao período da pandemia e o governo está nas mãos de um sujeito que incentiva a exploração econômica das terras indígenas a qualquer custo, desde que assumiu o poder.

Portanto, é preciso continuar reivindicando a proteção desses territórios e a demarcação das terras que ainda estão sem esse registro pelo Brasil. Só assim, protegendo os verdadeiros guardiões da floresta, será possível fazer justiça e garantir um futuro digno e saudável para todos os brasileiros.  Em seu tweet, reproduzido abaixo, Dario fala disso também.

Imagem: montagem/divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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