Uma das mais respeitadas sociedades de conservação ambiental dos EUA muda de nome devido a passado escravagista de fundador

Uma das mais respeitadas organizações de conservação ambiental dos Estados Unidos muda de nome devido a passado escravagista de seu fundador

 A Audubon Naturalist Society (ANS) foi criada em 1879 com o propósito, inicial, de proteger espécies de aves ameaçadas pela caça ilegal nos Estados Unidos. Seu fundador, John James Audubon, era um apaixonado por pássaros e ficou muito famoso por suas pesquisas e ilustrações de aves. Todavia, o americano, que nasceu no Haiti, era contra a abolição da escravatura. E não apenas isso, mas comprou escravos e também escreveu artigos em que afirmava que os brancos eram superiores aos negros e indígenas. Agora, 124 após sua fundação, a sociedade anuncia que mudará de nome.

“Podemos reconhecer que a arte de John James Audubon foi um catalisador para a conservação das aves em nosso país e que a comunidade Audubon conquistou muito no século passado. Mas também sabemos que os nomes são importantes e podem causar danos e estresse a muitos membros de nossa comunidade”, informou a entidade em um comunicado oficial.

A associação esclarece ainda que sua missão e visão não mudaram. Todavia, ficou claro que isso nunca será totalmente possível com o nome atual.

“Manter o nome Audubon sem levar em conta a dor que ele infligiu aos negros e outras pessoas de cor é um desserviço à nossa comunidade. Mudaremos nosso nome para um que reflita melhor a crescente e rica diversidade da região que servimos e envie uma mensagem clara agora e no futuro: a natureza precisa de todos nós. Precisamos de todos na mesa para combater as mudanças climáticas, proteger a água limpa, preservar nossos preciosos espaços verdes e educar a próxima geração de administradores da natureza”, diz a nota.

Nos próximos meses, a associação irá ouvir seus membros e a comunidade local para chegar a um consenso sobre o novo nome. A Audubon Naturalist Society é proprietária de diversos santuários de vida selvagem nos estados de Maryland, Virgínia e também, na capital dos Estados Unidos, Washington D.C.

Há um movimento global, em diversas partes do mundo, para se fazer uma reparação histórica em relação aos negros e povos indígenas. Escrevi recentemente sobre um parque da Califórnia que foi renomeado para “Sue-meg” e perdeu o nome de um explorador branco, acusado de matar um menino da etnia Yurok. Já na Cidade do México, a prefeitura anunciou que substituirá estátua de Cristóvão Colombo por um monumento às mulheres indígenas.

Na própria região de Washington D.C., após 88 anos, o principal time de futebol americano deixou de usar a imagem de um indígena como mascote e o nome “Redskins”, por perpetuar o racismo aos povos nativos no país (leia mais aqui).

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Imagens: domínio público/wikimedia commons

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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