“Uma brisa no meio da tempestade”, diz Ailton Krenak sobre sua premiação com o ‘Juca Pato’, troféu de literatura

“Levei um susto! Estava acessando o Zoom para participar de mais uma das dezenas de lives que faço todos os dias, desde o início da pandemia, quando o telefone tocou. Era o Ricardo Ramos, diretor da União Brasileira de Escritores. Atendi já dizendo que não podia falar e ele rapidamente disse: ‘Você ganhou o Troféu Juca Pato de 2020!’. Levei um choque!”, conta Ailton Krenak, autor de um dos livros mais vendidos de 2019 e 2020: Ideias para Adiar o Fim do Mundo (esgotado no site da editora).

Foi justamente por causa desse livro, lançado em 2019, de formato tão amigável (cabe na bolsa, no bolso…), capa linda e que reúne três palestras suas, que o líder indígena levou o 62º Troféu Juca Pato. No páreo estavam outros nomes potentes como Djamila RibeiroEliane BrumLaurentino Gomes e Maria Valéria Rezende.

Para a edição deste ano, pessoas de todas as regiões do Brasil indicaram 54 autores. Os associados da UBE escolheram cinco finalistas e, por fim, indicaram Krenak como Intelectual do Ano. O prêmio foi criado em 1962 por iniciativa do escritor Marcos Rey.

De acordo com o regulamento, o vencedor deve ser uma personalidade que “tenha publicado livro de repercussão nacional no ano anterior, em qualquer área do conhecimento, e contribuído para o desenvolvimento e prestígio do país, na defesa dos valores democráticos e republicanos“.

Krenak não se entende como escritor, mas, sim, como um contador de histórias e revelou que está muito feliz com o reconhecimento da oralidade pelos escritores da UBE, que lhe concederam esse prêmio.

Conversei com ele hoje, 23/9, num dos intervalos entre lives das quais participa todos os dias. Certamente, ele é o brasileiro que mais frequenta salas de conversa desse gênero.

“Hoje, tenho três lives, mas já cheguei a participar de cinco! Virou uma espécie de situação análoga à escravidão, na qual não existe mais liberdade de escolha e tenho que atender aos chamados”, desabafou, brincando. “Já falei com estudantes da baixada fluminense, com indígenas no Acre, com universitários da Bahia, com o público em geral, de noite, de dia, até em sábados e domingos!”.

Ele declarou que pretende largar essa atividade, que “estourou” com a pandemia, em breve. Também falou de conjuntura, do governo, da mineradora Vale (que todos os dias, de uma em uma hora, toca a buzina do trem quando passa ‘do outro lado’ do Rio Doce levando minério para o porto), do confinamento que nos desmobilizou, e brincou com seu plano de fugir para um paraíso terráqueo, onde não existam lives. Impossível não rir com Krenak.

Bom lembrar ainda que, este ano, ele lançou seu segundo livro, também pela Companhia das Letras: A Vida não é Útil, que reúne cinco textos adaptados de palestras, entrevistas e lives realizadas entre novembro de 2017 e junho de 2020, com organização de Rita Carelli.

Krenak no lançamento do livro ‘Ideias para Adiar o Fim do Mundo’ em Manaus, no início deste ano
Foto: Alberto César Araújo/ Amazônia Real

O que representa o Juca Pato para a sua jornada como autor? E neste momento obscuro do país…

Quando Ricardo me deu a notícia, eu pensei: “Caramba! Como é que eu vou conseguir continuar na live que eu estou fazendo sem estourar de emoção?”. Foi tão chocante!

Pedi desculpas pra ele e desliguei o telefone. Eu acho que nunca alguém foi tão deselegante ao receber a notícia de que ganhou um Juca Pato e ainda por um mensageiro como Ricardo, que dirige a Associação Brasileira de Escritores e foi muito carinhoso e gentil comigo.

Ele me disse que eu havia concorrido no contexto de muita gente brilhante, citando alguns nomes, Djamila, Eliane Brum.. Foram mais de 50 inscritos, depois ficaram só cinco e depois um. Eu nem sabia porque não participei do processo, não estava engajado no processo.

Então, pra mim, foi como um anúncio da primavera. Como, este ano, ela tem um sentido especial pra todos nós, que estamos vivendo este pandemônio de queimadas, destruição e fuligem, o Juca Pato veio com essa configuração de primavera.

Pra mim, é uma brisa no meio da tempestade.

Em uma palestra em São Paulo, você disse que é autor de livros, sem nunca ter escrito um, é um contador de histórias…

Eu nunca me vi como escritor. Nem de longe, equipado pra concorrer a um tipo de troféu, de prêmio, de reconhecimento no campo da literatura como ela é entendida. Quando a gente fala de literatura está falando de Machado de Assis, de Manuel Bandeira, de Carlos Drummond, de gente que me antecedeu nesse prêmio como Milton Hatoum (2018), Ignácio de Loyola Brandao (2019), e há novos autores escrevendo maravilhosamente.

Eu não me surpreenderia, por exemplo, se o Itamar Vieira Jr., que escreveu Torto Arado, recebesse uma distinção como essa porque ele trabalha a escrita, a literatura. A surpresa, pra mim, é darem prêmio a um sujeito que habita o campo da oralidade. Eu conto histórias, eu não faço parágrafos.

(Krenak participou de uma live com Itamar, recentemente, promovida pelo Sesc/RJ para o programa ‘Arte da Palavra’ e mediada por Sergio Cohn, autor do retrato que ilustra este texto: quem quiser assistir, indico o link aqui)

Essas publicações que saíram nos últimos 20 anos, com assinatura minha, são todas faladas e transcritas. Então, meus livros são falados.

Então, está de parabéns a seleção que a União Brasileira de Escritores fez, destacando a oralidade como uma expressão da literatura, que não se avalia pelo rigor da gramática.

E você tem encantado as pessoas assim, contando histórias, falando do simples…

Ferreira Gullar disse que “a crase não foi feita pra humilhar ninguém”. Os poetas têm essa capacidade de dar sentido às coisas. E, como a crase não foi feita pra humilhar ninguém, eu, com minha oralidade, vou seguindo e contando histórias.

Contando histórias pra ver se a gente adia o fim deste mundo que está indo “pelos canos”.

Então, de certa maneira, me sinto dividindo esta celebração com o campo da oralidade. É plural, vasto. E vou bem acompanhado de todo mundo que atravessou a resistência contando histórias.

Krenak no lançamento do livro ‘Ideias para Adiar o Fim do Mundo’ em Manaus, no início deste ano
Foto: Alberto César Araújo/ Amazônia Real

Você disse que se sente incomodado com tanta live, mas, nesta pandemia, elas mantêm você próximo do público, ajudam a manter viva a oralidade

Abrindo o Festival de Inverno da UFMG, a escritora Conceição Evaristo disse que nós vamos acabar morrendo de tanto fazer live. Ela criou essa expressão. Aquela senhora, dizendo isso, tem um efeito chocante.

Ela disse, também, que nós estamos nos rendendo a uma espécie de moda. Todo mundo faz live! Parafraseando Andy Wahrol – que disse que todo mundo teria seus 15 minutos de fama -, todo mundo vai ter seus minutos de live.

Eu não sei se é uma avacalhação geral ou uma espécie de vasta distribuição de sentido.

Eu me sinto incomodado. Você não sabe para quem está falando. E a nova modalidade agora é o pessoal invadir as lives, você sabia?

Os bolsistas indígenas da Unicamp estavam, outro dia, numa sala, num fórum online, e a sala foi invadida por um monte de fascistas que xingaram, esculhambaram, apontando armas e acabaram com a live. Há cerca de dez dias, eu e a Lilia Schwarcz participávamos de uma aula magna com a Universidade Federal da Bahia. O título da minha conferência era De Mal a Pior, e aconteceram diversas tentativas de entrar na live.

Hackers bolsonominions estão invadindo lives, fóruns online, webinários.

Quanto mais importante é a atividade no campo da cultura e da arte, mais eles ficam agitados para tentar sabotar o encontro. As universidades, por exemplo, anunciam a live, o fórum, com antecedência e eles ficam à espreita pra invadir. Por isso que, agora, quem organiza está evitando usar qualquer plataforma, porque algumas não têm nenhuma proteção contra esses ataques.

A intenção é criar pandemônio, como diz a Conceição Evaristo. Antes da pandemia já havia um pandemônio e tem piorado.

Você pensa em parar de participar de lives, então…

Eu não sou blogueiro, youtuber, não quero isso! Me desculpe a expressão muito gasta, mas eu já tô velho pra isso. Não vou inaugurar agora, aos 67 anos, uma nova onda. Tenho outras prioridades.

Não sou candidato a nada, como dizia o Aldir Blanc. Não fui nem candidato ao Juca Pato, mas este ano, o Pato sou eu (risos). “Esse pato sou eu!’ (canta). Não tem uma canção assim? “Esse pato sou eu” é menos pretensioso do que dizer “esse cara, sou eu!”.

(Krenak fica em silêncio e, em seguida, me pergunta…)

Você escutou um buzinaço? O trem da Vale passa buzinando aqui, do outro lado do rio, de hora em hora.

(comentei que já ouvi o barulho em algumas lives das quais ele participou; ele sempre comenta quando o trem passa; é muito triste de ouvir).

Então, talvez uma coisa boa que as minhas lives têm me dado é a oportunidade de contar como essa corporação, que destruiu o Rio Doce, não parou, até agora, o buzinaço dela.

Cada vez que ela buzina, ela está se auto-afirmando, diz que está levando as nossas montanhas embora. E que, apesar do Carlos Drummond de Andrade ter morrido denunciando a Vale, ela ainda vai consumir muitas vidas até parar.

Tinha uma pedra no meio do caminho. Tinha. A Vale tá levando ela embora há 70 anos, está arrastando ela daqui. Desmontando as montanhas, colocando-as em cima das composições e levando pro Porto de Tubarão. De lá, elas entram em contêineres e vão pra qualquer lugar do mundo. E, no lugar da montanha, vai ficar um buraco.

O pico do Cauê, que aparece na obra do Drummond, hoje é um buraco. O buraco do Cauê.

Então, posso dizer que a live tem essa potência: fazer chegar a ouvidos moucos o pouco do nosso estado de flagelo. Mas nem por isso invalido a frase da Conceição Evaristo de que a gente vai acabar morrendo de fazer lives.

Sábado, domingo, de dia, de noite, ninguém consegue viver uma coisa dessa! Eu vou pedir baixa, em algum momento. Eu tenho um quintal pra cuidar, eu tenho família, meus parentes todos já enjoaram disso. Tô levando uma censura doméstica.

Em algum momento, vou sair de férias. Vou deixar um aviso: “Krenak foi para Tangolomango”. Você conhece? É um paraíso na Terra. É um paraíso terráqueo. Mas você não entrega esse lugar pra ninguém, se não, o pessoal vai pra lá antes e, quando eu chegar lá, já vai estar cheio de lives (risos).

Estamos nos acostumando a nos indignar com tanta violência? Está faltando ação?

Estamos todos paralisados pelo medo. As pessoas foram encantonadas com a ameaça de uma pandemia que mata e mostra os corpos. E os enterra em vala comum. Eu vi retroescavadeiras enterrando centenas de corpos sem identificação em Manaus.

Quando as organizações indigenas denunciaram que o governo estava subnotificando o número de mortos em Manaus foi porque eles diziam que a metade das pessoas que eram jogadas. nas valas eram indígenas que não tinham reconhecimento de sua etnia. Eles eram considerados indigentes. E eu os alertei para que não deixassem que essas pessoas desaparecessem. “Vai atrás, no IML, e exija, pelo menos, um número de cada um que está sendo enterrado assim”. Porque, do contrário, a gente vai ter que escavar o chão, daqui 500 anos, pra encontrar os restos mortais jogados na vala comum.

A pandemia veio, ameaçou, fez as pessoas ficarem em casa, desmontou a capacidade de mobilização das pessoas, esvaziou as ruas e abriu a cena pras fakenews, as ameaças, os vômitos correrem soltos pelas praças.

É difícil imaginar uma capacidade de reação, além da indignação.

A gente vai fazer o que? Vai lá fora, pegar o vírus e morrer? Ou a gente vai dizer como o boçal que, quem pega isso, é molenga? A indignação presa num apartamento dá úlcera, AVC! Você imagina o tanto de gente que está presa em apartamento, tendo úlcera e outras síndromes? As pessoas estão explodindo. Qual a reação que a gente vai querer que as pessoas tenham? Que saiam pras ruas, dêem porrada, quebrem tudo?

Quem deveria ter uma atitude cidadã, agora, digna neste momento, é aquela corja de gente que ocupa o Congresso com nome de deputados e senadores, e que ficam parecendo um bando de tontos. Chantageados pelo Executivo, pelo STF. Os poderes da República estão todos podres, brigando uns com os outros. E, nós, sociedade, vamos fazer o que?

A gente está ameaçado pelo Estado. O Estado está destruindo a estrutura do país. O Estado está botando fogo no Pantanal, fogo na Amazônia, e ainda diz que índios e caboclos é que estão ateando fogo. Entramos numa espécie de discurso de doido. O manicômio geral.

Como cidadãs, as pessoas podem pressionar os parlamentares, e podem atuar mais em vez de só reclamar, não?

Agora, você falou de uma questão importante: se o indivíduo não se sente cidadão, pra ele tanto faz. Mas nós estamos falando, aqui, sobre gente que está interessada na possibilidade de funcionamento dessa sociedade que envolve escola, educação, exercício da vida civil, andar, circular, tudo que está suspenso.

Sobra muito pouco sentido de cidadania quando todo mundo fica confinado. Mesmo as pessoas que se encontram numa situação econômica melhor e poderiam ajudar a resolver alguns problemas, também estão apavoradas porque não sabem o que vão fazer amanhã.

Sinceramente, eu acho que o que está acontecendo é tão surpreendentemente ruim que a gente estacionou no ruim. Então, não consigo cobrar de ninguém nada além do que eu já faço. Eu tô vendo como é difícil o que eu posso fazer. Então, eu não cobro nada de ninguém.

Desejo, apenas, que as pessoas fiquem vivas. Fique vivo! É o meu desejo. Diante de tantos amigos, parentes mortos, quero que as pessoas fiquem vivas.

Nesse cenário, como continuar vivo e bem? Me parece que suas palavras têm sido um alento, por isso tanta procura

Na verdade, é um aperto imaginar que, no meio de tanto tumulto, você seja convocado como uma voz de sentido. Um alento. Mas imagine: você viver numa situação como essa numa pequena comunidade que te toma como um conselheiro, um facilitador, tudo bem.

Agora, quando é uma situação num país deste tamanho, aí te chamam para falar numa universidade do Pará, do Amapá, na escola do Acre, na escola da Baixada Fluminense, mais os colegas da literatura te chamando, vira uma convocatória extravagante para uma pessoa só. Isso eu tô sentindo não só com a live. A responsabilidade, a energia que você tem que botar nisso é muito grande.

Eu me envolvo com o que faço de uma maneira intensa. Fazer três lives por dia, pra mim, já é uma violência. E eu quero sair disso.

Essa é a questão: eu acabo me rendendo a esse tipo de afeto, de apelo. “As crianças da nossa escola te adoram! os indigenas do Acre e do Pará querem te ouvir! Os professores tão abandonados querem te escutar!”.

Gosto muito de escutar tudo o que os mestres já falaram, mas eu não vou vestir essa túnica.

Então, viva a oralidade! Viva o Juca Pato! Viva a primavera! Viva eu! Viva tu! Viva o rabo do tatu!

Foto: Sergio Cohn (destaque)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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