Um fungo converte resíduos em aromas de frutas

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Que Shakespeare não nos ouça nesta livre “reinterpretação” da fala de seu Hamlet, mas há mais potencial entre o lixo e as prateleiras do que poderia sonhar nossa sabedoria! E um dos princípios da bem vinda economia circular é justamente esse: transformar o potencial escondido nos resíduos em produtos ou insumos, de modo a reduzir o descarte, tornar a reciclagem contínua e baixar custos de produção.

As três vantagens estão embutidas na tecnologia de obtenção de aromas naturais frutados a partir de resíduos de fábricas de cerveja e de farinha de mandioca, desenvolvida há quatro anos pela química de alimentos Daniele Souza de Carvalho, em sua tese de doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), sob orientação de Glaucia Maria Pastore. Utilizando fungos do gênero Neurospora, ela obteve aromas de abacaxi e morango a partir de bagaço de malte (resíduo da indústria cervejeira) e manipueira (efluente de mandioca com alta carga orgânica).

Os aromas são considerados naturais e podem ser usados em leite fermentado, iogurtes e outros produtos alimentícios. Também são empregados na aromatização de ração animal.

Outra vantagem da tecnologia desenvolvida é encurtar o processo convencional de produção dos aromas: das 72 a 96 horas anteriores para 48 horas. Nas primeiras 24 horas, o fungo Neurospora fica num meio convencional de cultura e depois é adicionado ao resíduo – seja bagaço de malte ou manipueira. Em mais 24 horas de fermentação é produzido um composto chamado hexanoato de etila, que exala o aroma frutado. Além de abacaxi e morango, o mesmo composto pode assumir as características de banana, maçã e pêssego.

Os fungos Neurospora são muito usados como modelos em estudos de Biologia e Genética por serem rápidos de reproduzir e fáceis de cultivar, proliferando com insumos mínimos (sais, água e um substrato de gelatina, por exemplo). Quando vistos ao microscópio, apresentam um formato circular, com os esporos distribuídos radialmente. E uma das espécies – Neurospora intermedia – é utilizada na produção de um alimento tradicional na Indonésia, conhecido como oncom vermelho, feito à base da torta de alimentos prensados para obtenção de óleo, como amendoim e coco.

No caso da tecnologia desenvolvida por Daniele, o fungo foi obtido a partir de massa de mandioca, processada no Maranhão. Já os resíduos foram disponibilizados por agroindústrias de São Paulo. A pesquisa contou com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e resultou num pedido de patente junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

A adoção de uma tecnologia como essa, pela indústria alimentícia, tornaria todo o processo mais racional e barato; favoreceria o uso de aromas naturais em lugar dos sintéticos e contribuiria para colocar em prática o conceito de economia circular, que tão bem pode fazer ao país nesse momento de crise generalizada.

Foto: Creative Commons Wikimedia (fungos Neurospora usados na produção de oncom vermelho)

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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