Último boto do rio Mekong, no Camboja, morre com uma rede de pesca presa na cauda

Último boto do rio Mekong, no Camboja, morre com uma rede de pesca presa na cauda

Mais uma espécie, que aos poucos, vai desaparecendo do planeta. O último boto conhecido do rio Mekong, no nordeste do Camboja, morreu preso numa rede de pesca, confirmaram autoridades locais.

Também chamado de boto Irrawaddy, no passado a espécie Orcaella brevirostris era observada em áreas no sul e sudeste da Ásia e em três rios: o Ayeyarwady (Mianmar), o Mahakam (Borneo indonésio) e o Mekong.

Em meados de fevereiro, o boto tinha sido avistado com um rede de pesca presa em sua cauda, o que deve ter prejudicado sua capacidade de nadar e encontrar alimentos, o que acabou levando-o à morte.

“Estamos profundamente tristes por perder o último golfinho na região de Cheuteal, adjacente à fronteira da República Democrática Popular do Laos. Apesar de todos os esforços de conservação para salvar esta subpopulação transfronteiriça, os golfinhos do rio Mekong ainda sofrem uma séria pressão de atividades antrópicas, mudança do fluxo de água do Mekong e mudanças climáticas, fazendo com que a população total tenha diminuído gradualmente e o último indivíduo tenha morrido em 15 de fevereiro de 2022”, informou o Departamento de Pesca e Conservação do Camboja.

Segundo o WWF, que participou dos projetos para tentar salvar a espécie, a morte desse indivíduo pode representar a extinção do boto do Rio Mekong em Laos.

“Os números caíram nos últimos anos, devido a várias ameaças, incluindo a construção de barragens hidrelétricas, causando interrupções no fluxo do rio e redução da abundância de peixes, afogamento em redes de emalhar e o uso de práticas de pesca prejudiciais, como a elétrica e ainda, a pesca excessiva”, lamentou Lan Mercado, diretor do WWF Ásia-Pacífico.

Considerado criticamente ameaçado de extinção pela Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), o boto do rio Mekong pode atingir 2,75 metros de comprimento e pesar até 200 kg. Esses animais têm uma testa protuberante, bico curto e 12 a 19 dentes de cada lado de ambas as mandíbulas.

Num censo realizado em 1997, a população estimada do boto Irrawaddy era de 200 indivíduos. Em 2020, esse número caiu para 89.

O boto do rio Mekong é tido como uma animal sagrado para o povo de Khmer e de Laos e a observação desses cetáceos era uma importante fonte de renda para a população local que trabalha com o ecoturismo.

Último boto do rio Mekong, no Camboja, morre com uma rede de pesca presa na cauda

A espécie está à beira da extinção

*Com informações do site EcoWatch e do WWF International

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Foto: Mekong_Irrawaddy_Dolphin_breaching/WWF_Greater_Mekong (abertura) e Stefan Brending/Wikimedia Commons (última)

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.