Txai Suruí recebe prêmio Leão de Ouro no maior festival de publicidade do mundo, o ‘Cannes Lions’, pelo filme ‘Árvore Refugiada’

No primeiro dia do mais importante festival de criatividade do mundo – Cannes Lions, realizado em Cannes, na Riviera Francesa -, 20 de junho, o Brasil se destacou: ganhou 13 troféus, entre eles o único Leão de Ouro, na categoria Outdoor, para o filme ‘Árvore Refugiada’, de 2021. 

O curta-metragem ainda levou um troféu de prata e outro de bronze, na mesma categoria. Foi a peça brasileira que mais trouxe ‘Leões’ pra casa.

Encomendado pela ONG Climate Reality (fundada pelo ativista e ex-vice-presidente dos EUA, Al Gore) para a agência brasileira África, o curta-metragem mostra um jatobá de seis metros que viaja da Amazônia à Brasília para pedir asilo à embaixada da Noruega.

Este é um momento bastante delicado e especial para receber essa distinção visto que a Amazônia ganhou grande projeção internacional, nos últimos 15 dias, com o assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips.

Por isso, foi muito acertada a decisão da agência de convidar a jovem líder indígena Txai Suruí para representar o Brasil na cerimônia. A ativista levou um cartaz, que abriu no palco, para convocar o mercado publicitário maciçamente presente ao evento para que ajude a salvar a Amazônia.

Vale destacar ainda que 20 de junho é o Dia do Refugiado, data instituída pela ONU em 2000 para marcar o aniversário da Convenção de Genebra de 1951, que atualizou o conceito de refugiado: “é qualquer ser vivo perseguido e tem sua segurança ou vida ameaçadas em seu país de origem”. 

Foto: reprodução do Facebook
Foto: reprodução do Facebook

“Txai Suruí representou o Brasil na cerimônia, ao receber o prêmio e clamar pela proteção da Amazônia”, contou a líder indígena Sonia Guajajara, em seu Instagram.“O único Leão de Ouro ganho até agora no primeiro dia de Cannes Lions é do Brasil! Viva o Jatobá! Mostramos a luta da natureza e a ação dos povos indígenas da floresta para a proteção do meio ambiente”, comemorou ela no Twitter.

cineasta Estevão Ciavata, da Pindorama Filmes, parceiro da obra, também se manifestou nas redes sociais:

“O Jatobá Refugiado é um pedido de asilo oficial para uma árvore nativa da Amazônia em grande risco de extinção. Esse reconhecimento acontece em um momento extremamente frágil para a Amazônia, que vem perdendo cada vez mais a guerra contra o desmatamento e o crime organizado”.

Campanha e petição 

A campanha, da qual o filme faz parte, foi lançada no Dia da Árvore de 2021 e contou com protesto organizado pela APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e teve aparticipação da líder indígena Sonia Guajajara, que encontrou o jatobá na porta da embaixada e leu um manifesto (contei aqui).

Sonia Guajajara e o jatobá em frente à embaixada da Noruega / Foto: Divulgação

Vimos por meio desta clamar por ajuda. Mais do que isso, clamar por socorro. A Noruega foi o primeiro e único país no mundo a se comprometer com o fim do desmatamento em seu território. 100% das suas florestas estão preservadas. O que, para muitos é utopia, para nós é inspiração. Inspiração para solicitar esse pedido. Um pedido referente a um habitante nascido na Amazônia. Hoje, a Amazônia se tornou uma zona de guerra: 90% do desmatamento é ilegal. Reparem, um número totalmente oposto ao da Noruega. Queremos que este habitante viva e não sobreviva. Este é um pedido de refúgio!  Sim, a primeira árvore a realizar esse pedido na história. Mas não é só pra ela. É para cada árvore, é por toda a Amazônia”.

Carregada de simbolismo, a ação divulgou uma petição que continua valendo e foi realizada em 2021. no dia em que Bolsonaro discursou na abertura da Assembleia Geral da ONU e mentiu sobre tudo que disse – foram cerca de 25 mentiras em 12 minutos!* -, também sobre a Amazônia e os povos indígenas

O jatobá em frente à embaixada da Noruega, em Brasília /Foto: divulgação

O presidente brasileiro defende a exploração econômica e predatória da floresta amazônica – pela mineração, o agronegócio, estradas, hidrelétricas, extração de madeira… – e não esconde suas intenções desde quando ainda era um desprezível deputado federal.

Em Nova York, chegou a dizer que esse é o desejo dos indígenas também. E indagou: “Qual país do mundo tem uma política de preservação ambiental como a nossa?” (leia o texto que publicamos sobre o discurso). Um mentiroso contumaz, dissimulado.

A embaixada aceitou dar asilo ao jatobá e ele foi plantado em seu terreno no mesmo dia.

Jatobá foi acolhido pela embaixada da Noruega e plantado no jardim de sua sede, em Brasília / Foto: Greenpeace Brasil

Sagrada e quase extinta

Originalmente, o jatobá (Hymenaea courbaril) é uma árvore nativa do Brasil, antes facilmente encontrada na Amazônia e, também na Mata Atlântica, no Pantanal e no Cerrado.

Faz tempo que a árvore considerada sagrada pelos indígenas – e que é fundamental para a sobrevivência dos animais e de outros espécies de arvores – está sob dupla ameaça de extinção: além de sofrer com a exploração de madeira durante muitos anos, aquelas que habitam áreas protegidas também sofrem com desmatamentos e queimadas constantes.

A seguir, assista ao curta metragem:

Foto (destaque): Celina Filgueiras/APIB

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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