Tunga e os portais da impermanência

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Sei lá qual é a sua crença, mas vou presumir que você acredita que, quando alguém morre, a alma tenha que passar por uma espécie de portal, para uma outra dimensão, um outro plano ou qualquer coisa parecida com isso. Se você não acredita, pensemos na metáfora da passagem como a entrada num outro contexto, numa outra formatação ou outro projeto de pensamento…  E aprecie as obras do pernambucano Tunga, que nessas alturas já deve estar tranquilo do lado de lá, sem enfrentar congestionamento, ar poluído, alimento cheio de agrotóxico e hormônio, com gosto de nada, e tantos outros absurdos antinaturais.

Essas coisas que, anestesiados, preferimos nem discutir. Deixamos, simplesmente, que abusada e delicadamente, nos empurrem goela abaixo, como é peculiar aos submissos que não veem saída e nem têm muita consciência do mal que sofrem na caminhada rumo ao que consideram viver.

Poderia ser um caminho mais fértil. Algo que levasse a um portal “Rumo ao caminho molhado”, que Tunga idealizou.  Há um jardim em volta dele.  Tanto lá quanto cá, cristais de rocha. Os sólidos cristais que são gelo eterno, como gostavam de pensar na antiguidade. Não derretem nunca e  atravessam civilizações – dos egípcios aos xamãs -, sendo utilizados como a porta para cura e proteção. Cristais que carregam a tecnologia de ponta e são primordiais em instrumentos cirúrgicos.  Que podem virar joia, decoração, prontos para derreter os corações que consomem natureza de longe.

Os portais de Tunga, que, eu gostaria, nos pusessem em rotas de consumos de outras ideias, também tem vidro fundido. Vidro que bem poderia, penso, ter se derretido em solos queimados pela temperatura da impaciência em esperar a natureza reagir depois de colheita abundante.  Que poderia ser elemento primordial em portais para transparecer mais boa vontade e decisão ao olhar o lado de lá, onde estão aqueles que não são realmente beneficiados pelos negócios lucrativos que atraem lucro, mais lucro e só. Atração fatal essa.

Quem sabe se essa lógica ficasse presa aos ímãs dos portais de Tunga. Fosse paralisada e isolada, deixando de ameaçar o futuro do planeta. Ameaça tão clara que já é presente, mas, ainda assim, poucos se dão conta, apesar das mudanças de clima, apesar das doenças, apesar da destruição.  Apesar, amigos, de tantos pesares que nos fazem querer sumir em qualquer portal.

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Na entrada dos portais parecem existir balanças, sugerindo que almas precisam ser pesadas. Mas, na balança que funciona com braços para movimentar marionetes, o equilíbrio vem a duras penas nessa nossa triste dança de bonecos animados pela vontade alheia que puxa uma massa. Ímãs de ídolos e celebridades que levam essa maçaroca complexa de conexões e fios para o caminho do desembaraço pasteurizado.

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É preciso encontrar um pente ordenador, um portal para o penteado perfeito, um discurso mais bonito, enquanto a cabeleira é modelada em cabeças tão ausentes de corpo e significado. Quanta importância a esses salões de bobagens, enquanto nos transformamos em insignificâncias mudas escalpeladas para não desejar mudança.

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Um brinde à química! À da natureza. Essa que tem o poder de transformar semente em alimento. Que a alquimia se faça e, sei lá, a agrofloresta e permacultura passem a ser palavras tão conhecidas como fertilizante e agrotóxico. E a recuperação de solos, por meio de técnicas antigas de povos tradicionais, reunindo as culturas agrícolas com as culturas florestais, seja um porta escancarada para a transformação do padrão agrícola. Que esse pessoal que luta por isso não precise carregar tanta pedra montanha acima para ela rolar novamente montanha abaixo.

Sísifo, nesse caso, bem poderia ser só coisa de mitologia grega. Bom ou ruim,  há conceitos que dificilmente se desfazem. Coisas, pertences e pedaços também. Unhas, cabelos. Tanta aparência…  Não tem esmalte, nem penteado que permaneçam quando desenterrarem  nossos restos mortais. Essas portinhas não atingem nenhuma dimensão que valha viver ou morrer.

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Obras: Rumo ao caminho molhado, Psicopompo, Lezart, Cooking Cristal, Troféu.

Fotos: site oficial Tunga

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além do Arte na Roda, mantém seus escritos poéticos, inspirados em música, no Para de gritar isso seu irresponsável. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado.

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