Tucum: em meio à pandemia, empresa cria estratégias para apoiar comunidades indígenas que produzem artesanato

Nos últimos dias tenho lido notícias sobre a chegada do coronavírus em comunidades indígenas no Brasil. A necessidade de isolamento durante a pandemia é ainda mais urgente para essas populações, que, em muitas regiões, estão submetidas a situações de muita vulnerabilidade social e econômica, o que agrava o risco de mortandade. E sabemos que viroses respiratórias foram historicamente vetores de genocídio indígena no país.

Para se proteger, muitas dessas comunidades se isolaram, fechando o acesso a suas terras e sedes de comercialização de artesanato e outros itens de sua cultura. Essas medidas, como também a proximidade de madeireiros e garimpeiros, podem dificultar sua sustentabilidade econômica.

Essa é uma das grandes preocupações de Amanda Santana, uma das fundadoras da Tucum Brasil, um negócio de impacto que, desde 2012, promove o encontro das pessoas dos centros urbanos com os povos da floresta por meio de sua arte e manifestações estéticas.

Campanha para enfrentar o vírus

Comercializando itens para o corpo e a casa, além de arte e artefatos, a Tucum difunde os saberes ancestrais de dezenas de povos indígenas brasileiros. O trabalho em o selo Origens Brasil, rede que busca dar transparência às cadeias de produtos da floresta e ajudar consumidores a identificar empresas e produtos que valorizam e respeitam as florestas e quem vive delas, em suas práticas comerciais (no ano passado, essa rede foi premiada pela ONU por seu “trabalho inovador que alia comunidades e a floresta em pé”, como o Conexão Planeta noticiou).

“Estamos com uma campanha para ajudar no enfrentamento do coronavírus. Vamos continuar realizando os pagamentos para essas comunidades, mesmo que os itens demorem a chegar para a Tucum. Temos que fazer a roda girar”, afirma Amanda.

“Nossa maior preocupação é como evitar que a COVID-19 chegue aos territórios indígenas. O governo federal não está prestando a assistência devida, as terras estão cheias de invasores, garimpeiros, madeireiros, que são pessoas que podem levar o vírus para as comunidades. E isso pode ser devastador”. E ela acrescenta:

“A gente acredita que manter a economia da floresta ativa de algum modo – continuar a comprar o artesanato e a arte desses povos, mesmo que eles não consigam enviar as encomendas – ajuda em sua sustentabilidade econômica, neste período. Estamos pagando todos e vamos manter as encomendas. Eles as enviarão quando for possível. O momento é de girar a roda e fazer esse recurso chegar lá na ponta”.

Para o consumidor, o site da Tucum oferece descontos progressivos para estimular as compras. São itens como acessórios – colares, pulseiras, brincos – , cestaria, instrumentos musicais, vestimenta, grafismos, cerâmica, bolsas, tecelagem, entre outros.

Valorizando a arte, os saberes e as histórias

A ideia de criar a Tucum Brasil e, assim, contemplar uma ponta importante da cadeia do artesanato e da arte indígena – a comercialização e a consequente geração de renda para as comunidades – surgiu a partir do primeiro contato de Amanda com povos indígenas em 2010, na VIII Feira de Sementes Krahô, realizada dentro da Terra Indígena Krahô, no Tocantins.

Nessa ocasião, conheceu um pouco da produção artesanal dos Krahô e dos Kayapó, entre outras etnias presentes ao evento. Isso gerou uma inquietação sobre como grande parte dos brasileiros sabe muito pouco dos povos originários.

“Criar a Tucum tem muito a ver com a minha experiência pessoal com a Amazônia. Em como eu fui impactada pela minha ignorância. Porque eu não tinha dimensão da diversidade desses povos. Tudo o que eu fiz até hoje foi muito movido pela beleza das coisas, pela arte. E quando eu tive contato com o artesanato que essas comunidades produzem, realmente fiquei muito impactada”.

Amanda começou, então, a pesquisar o mercado, promovendo venda de artesanato indígena em eventos no Rio de Janeiro e visitando lojas que comercializavam esse tipo de produto em São Paulo, Rio de Janeiro e Pará. O que ela percebeu, de bate pronto, foi a desvalorização, por parte dos comerciantes, da carga de saberes que esses produtos trazem. Ao mesmo tempo, encontrou um mercado pouco explorado, interessado nesses produtos e em suas histórias. As duas realidades inspiraram a criação da Tucum Brasil.

Com o companheiro Fernando Niemeyer – cientista social e antropólogo que atua como indigenista desde 2004, trabalhando com diversos povos indígenas da Amazônia – começou a formar estoque dessa produção e logo abriu um ponto de venda no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro.

Tecnologias sociais, comunicação e visibilidade

Fernando é também um dos fundadores da Tucum, e desenvolve tecnologias sociais para a gestão local e comercialização de artesanato junto a comunidades indígenas. É um outro braço do negócio, a Tucum Serviços, que orienta a gestão e a melhoria de produtos e da comunicação, dando visibilidade aos saberes desses povos.

Amanda destaca como um dos cases de sucesso desse movimento o artesanato Parakanã, projeto desenvolvido em parceria com a TNC (The Nature Conservancy) e com a Funai (Fundação Nacional do Índio). Os Parakanã, no processo de desenvolvimento de seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental, elegeram o artesanato como ação prioritária no eixo de Manejo dos Recursos Naturais.

“Em 2019, fizemos o primeiro trabalho com eles, de organização, de apresentação de ferramentas, e agora estamos em fase de acompanhamento. Antes disso, a gente buscava na internet “artesanato Parakanã” e não encontrava nada. Hoje já é fácil encontrar fotos da comunidade, dos produtos, histórias, enfim…”, salienta Amanda.

Impacto multiplicado

Quando a Tucum Serviços é remunerada por esse tipo de trabalho, 10% do valor recebido retorna para a comunidade em compra de artesanato, e esse artesanato se torna capital de giro para a Tucum. “É um modo que a gente encontrou de o nosso serviço impactar duas vezes cada comunidade, tanto na troca que a gente leva como, também, comprando e testando o artesanato no mercado, em especial aquilo que é novo, diferente”, conta a empreendedora.

Antes de começar sua jornada com a Tucum, Amanda trilhou um caminho bem-sucedido que inclui formação e atuação com artes cênicas e estética. O contato com a Amazônia e a criação da empresa lhe parecem um chamado para se colocar a serviço de tudo que faz hoje: “Olho para a minha trajetória e vejo que tudo o que fiz me trouxe para esse lugar. Tudo que eu aprendi foi para estar preparada para tocar esse negócio”.

Foto: Akuku e Analu Kamayurá, artesãs da rede Tucum (Helena Cooper/Divulgacão Tucum)

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

Deixe uma resposta