Borboletas da Mata Atlântica: curso revela universo desses insetos com teoria e imersão na floresta do Legado das Águas, em São Paulo

Três dias de aprendizado e imersão na floresta para conhecer as borboletas da Mata Atlântica, no Legado das Águas

A paixão pelas borboletas começou na infância e se fortaleceu quando a bióloga Laura Braga cursava o ensino médio, levando-a à especialização. Ela tem mestrado em biologia animal e doutorado em ecologia e, desde sua iniciação científica, se dedica ao estudo de lagartas, mariposas e borboletas.

Na foto acima, ela está muito bem acompanhada pela Caligo sp., espécie que encontrou numa das trilhas do Legado das Águas, maior reserva privada desse bioma, em Miracatu, interior de São Paulo.

E é lá que a especialista vai ministrar o curso Borboletas da Mata Atlântica – Da teoria à prática, de 15 a 17 de abril. Promovido pelo Legado, seu objetivo é disseminar conhecimento científico sobre esses animais para todos os públicos: leigo, alunos de graduação em biologia, profissionais de outras áreas de ciências biológicas que buscam incrementar o currículo ou entusiastas do tema.

Três dias de aprendizado e imersão na floresta para conhecer as borboletas da Mata Atlântica, no Legado das Águas
A espécie Morpho melenaus

A Dra. Laura explica: “Para o público em geral, o curso possibilita o contato com a ciência cidadã, porque explica a importância e a diversidade das borboletas, assim como a importância da conservação da Mata Atlântica para a sobrevivência das espécies, sem precisar, necessariamente, de conhecimento prévio de biologia”.

E acrescenta: “Por outro lado, para os graduandos em biologia e demais profissionais de áreas afins, é um incremento no currículo, porque história natural, biologia e ecologia de borboletas não são disciplinas abordadas especificamente na grade curricular das instituições de ensino”. 

O grande diferencial para os dois públicos está nas aulas práticas, “que oferecem uma experiência única de imersão na floresta e grandes chances de interação com diferentes espécies de borboletas”.

Realizadas nas trilhas do Legado das Águas (foto abaixo), as atividades práticas ensinam a reconhecer as espécies, preparar iscas atrativas, instruções de como montar coleções entomológicas (aula teórica e prática) – como as que vemos em museus, laboratórios e outros locais que trabalham com conservação –, além de técnicas utilizadas para observar e estudar borboletas.

“Não vamos coletar borboletas, apenas observar e fazer soltura”, avisa a pesquisadora.

A Dra. Laura Braga na exuberante Mata Atlântica

Além da vivência nas trilhas inclusas nos roteiros de ecoturismo da reserva, os participantes ainda farão um passeio de caiaque nas águas do rio Juquiá, que é uma das atividades favoritas dos turistas que visitam o local.

No final deste post, veja a programação e como se inscrever neste curso que, ainda lancará o livro Borboletas do Legado das Águas, que reúne informações sobre a pesquisa realizada na reserva – resultados, metodologia, espécies registradas – e que, mais adiante, será disponibilizado para download no site do Legado. 

Borboletas raras

Este curso foi idealizado a partir do Levantamento da Fauna de Lepidoptera (Borboletas) do Legado das Águas, realizado de 2016 a 2019 e desenvolvido em parceria com a Sustentar – Meio Ambiente, e a equipe composta pelas biólogas Dra. Laura Braga, coordenadora da pesquisa e do curso, e Ma. Janaína Oliveira, além do auxiliar de campo Willer Bontempo

A pesquisa registrou 350 espécies, algumas raras e outras ameaçadas de extinção

Entre os destaques estão duas descobertas: a borboleta Godartiana byses (foto abaixo), em 2017, que jamais havia sido registrada no Estado de São Paulo (contamos aqui), e a Prepona deiphile deiphile, em 2019: espécie ameaçada de extinção, que foi vista apenas duas vezes no Estado antes da descoberta no Legado das Águas.

Godartiana byses, descoberta em 2017

Mariposas são mais antigas, mas borboletas são mais ‘pop’

A seguir, uma pequena entrevista que fiz com Laura para aplacar minha curiosidade e saber um pouco mais a respeito de borboletas e mariposas, às quais ela tem dedicado sua carreira e estudos – juntamente com as lagartas: 

Quem trabalha com borboletas e mariposas, como você, é entomólogo ou lepidopterologista?

Lepidopterologista porque pode ser tanto um entomólogo como um ecólogo, ou seja, sua formação pode ser em Entomologia ou em Ecologia. 

É um especialista em determinados táxons – borboletas ou mariposas – e principalmente em determinadas famílias desses grupos. O grupo de estudos desse pesquisador são os lepidópteros

Lepidoptera vem de lepis (escamas) e pteron (asas), então este grupo é composto por insetos que têm asas com escamas.

Prepona claudina annetta

Você trabalha com os dois, sempre? Como as mariposas entraram em sua vida?

Sim, porque durante a graduação eu trabalhei mais com borboletas. No mestrado e no pós-doutorado, meu foco de estudo foram as lagartas de borboletas e mariposas. E, no doutorado trabalhei apenas com mariposas. Mais: durante todo o período de estudos, a consultoria que desenvolvi foi com borboletas.

Dentro da ordem dos lepidópteros qual a porcentagem de borboletas em relação as mariposas?

As mariposas representam 70% dos lepidópteros porque são o grupo mais antigo desse tipo de inseto. As borboletas surgiram mais recentemente, na evolução do grupo, há cerca de 80 milhões de anos. Por isso, temos uma diversidade muito maior de mariposas, com famílias e características bem diversas.

Quais as diferenças mais marcantes entre borboletas e mariposas? 

Em geral, as borboletas são diurnas ou crepusculares: algumas voam durante o final da tarde. Geralmente são coloridas e pousam com as asas fechadas. Mas também existem as que não são coloridas e pousam com as asas abertas.

No caso das mariposas, temos espécies noturnas com cores pastel, não tao vivas, mas também existem mariposas diurnas, coloridas, inclusive se parecem muito com borboletas e fazem parte até do anel mimético, que quer dizer que são espécies muito parecidas entre si.

E como identificá-las?

Pelas antenas! As das borboletas são clavadas, ou seja, têm uma dilatação na ponta e há famílias cujas antenas ainda lembram tacos de golfe. 

Os estudiosos têm predileção por um tipo ou outro?

Mesmo sendo mais antigas, em maior número e diversidade, as mariposas são menos estudadas do que as borboletas pelos pesquisadores. 

Turismo científico 

Foto: Luciano Candisani

O curso Borboletas da Mata Atlântica integra o Programa de Turismo Científico do Legado das Águas, que é um exemplo de biodiversidade e conservação. Seu objetivo é fomentar projetos de pesquisa científica de longo prazo na reserva por meio da diversificação das fontes de captação de recursos

Ao mesmo tempo, o programa quer criar um canal de divulgação da ciência com a imersão do ecoturista, que usufrui da estrutura da reserva em meio a floresta, participando de cursos, oficinas, palestras e demais atividades de estudo e educação sobre a Mata Atlântica.

Para Gabriel Gade Mesquita, analista de pesquisa do Legado das Águas e responsável pelo Programa de Turismo Científico, o curso é uma oportunidade de aliar lazer e conhecimento.

“Na Reserva, temos uma boa estrutura com pousada, restaurante, auditório climatizado, estacionamento, área de camping, trilhas suspensas e a exuberante floresta. Infelizmente, no Brasil, há pouquíssimas áreas naturais onde é possível realizar atividades de campo e teóricas e, no final do dia, contar com o conforto e a segurança oferecidos pelo Legado”. 

E finaliza: “O curso de borboletas é fruto de uma das pesquisas com maior destaque e resultados extremamente relevantes, por isso, estamos animados por ser o primeiro deste programa, que alia conhecimento com experiências de imersão e diversão”.

SERVIÇO
Borboletas da Mata Atlântica – Da teoria à prática
Data: 15 a 17 de abril
Local: Base do Legado das Águas, entrada por Miracatu ou Tapiraí.
Programação completa e inscrição: site do Legado.

Fotos: Divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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