TransCerrado: dois cientistas e um especialista em navegação marítima percorrem o bioma de bike para promover sua preservação

Eles são três apaixonados por ciclismo e se uniram em prol da preservação do Cerrado brasileiro. Paulo Moutinho (à esquerda, na foto) é PhD, cientista sênior, ecologista e cofundador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). Em 2017, fez uma longa jornada de bicicleta, com outros dois parceiros, por 1.100 km do trecho não asfaltado da Rodovia Transamazônica para chamar a atenção para os problemas socioambientais da região. Paul Lefebvre (à direita) é pesquisador associado do Woods Hole Research Center, nos EUA, é especialista em Sistemas de Informação Geográfica e engenheiro de instrumentação de pesquisa de campo, que trabalha na Amazônia desde 1993. Ciclista de longa data, é veterano de muitas viagens de bike, incluindo uma travessia sem suporte da América do Norte. Por último, Márcio Bittencourt (centro, na foto), técnico em telecomunicações e especialista em navegação marítima, que, nos últimos três anos, tem participado como voluntário na estruturação, implementação e sinalização de trilhas de longo curso que ligam unidades de conservação no Centro-Oeste.

Vale destacar que a foto acima foi feita no lindo Caminho de Cora Coralina, como eles contam no Instagram: “Cora Coralina, nossa poetisa e contista nascida na cidade de Goiás, tem um caminho todo dedicado a ela. Um percurso com 300 km, feito em grande parte em meio a natureza, relembra as viagens realizadas nos séculos XVIII e XIX. Ele passa por oito cidades históricas, oito povoados e três unidades de conservação”. Muito legal, né?

Desde 15 de outubro – e até o próximo dia 25 – cruzam o bioma para falar de preservação, práticas de agricultura sustentável e ecoturismo, numa aventura de 800 km (veja a rota no mapa abaixo), que começou em Goiás Velho e vai até Alto Paraíso, no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.

O objetivo da expedição é “mostrar paisagens e riquezas da fauna e da flora emaranhadas no Cerrado”, contando histórias e experiências que encontram pelo caminho, em especial, iniciativas sustentáveis de conservação do meio ambiente, que revelam o potencial do turismo ecológico e da produção agrícola.

Se quiser acompanhar esta viagem é só seguir o site TransCerrado: Pedalando pela Preservação e pelo Desenvolvimento Sustentável, onde eles publicam uma seleção de relatos, videos e fotos, e suas redes sociais: Twitter (@transcerrado) e Instagram (@bike_transcerrado). O projeto foi produzido pelo IPAM – Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, com o apoio da GIZ – Agência Alemã de Cooperação Internacional.

Por que o Cerrado?

Aqui, a expedição Transcerrado estava no sexto dia

Por que eles escolheram o Cerrado se os dois cientistas que integram o grupo são pesquisadores da Amazônia, ou seja, dedicam suas vidas – ou parte delas – à maior floresta tropical do mundo?

A riqueza natural do país não está concentrada apenas na Amazônia, obviamente. O Brasil é muito diverso. E cientistas são curiosos por natureza – em todos os sentidos. Além disso, o Cerrado brasileiro é a savana mais biodiversa do mundo. Lá existem cerca de 10 mil espécies de plantas, das quais 44% são exclusivas do bioma. No que tange à fauna riquíssima, abriga 250 espécies de mamíferos, 856 espécies de aves, 800 espécies de peixes, 262 espécies de répteis e 204 espécies de anfíbios. Creio que estes dados já seriam suficientes para responder à questão, mas tem mais.

Já ouviu as expressões berço das águas ou caixa d’água do Brasil? Então, o Cerrado também é conhecido assim porque abriga oito das doze regiões hidrográficas brasileiras e abastece seis das oito grandes bacias hidrográficas do país: amazônica, Araguaia/Tocantins, Atlântico Norte/Nordeste, São Francisco, Atlântico Leste e Paraná/Paraguai. Mas ainda tem mais! É na região do Cerrado que estão três dos principais aquíferos do país: Bambuí, Urucuia e Guarani.

Só que, mesmo com toda essa biodiversidade, o bioma tem apenas 8,7% da sua vegetação nativa oficialmente protegida em unidades de conservação! E o MapBiomasProjeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo do Brasil mantido por uma rede colaborativa de especialistas – revela que, nos últimos 34 anos, ele perdeu 29 milhões de hectares de vegetação nativa, ou seja, um terço de tudo o que foi desmatado no Brasil nesse período.

Em janeiro, fevereiro e marco deste ano, 95% dos desmatamentos que ocorreram no bioma foram ilegais. Atualmente, o Cerrado tem 56% da sua área coberta por vegetação nativa e 40% voltada para atividades agropecuárias, ou agronegócio.

Não é pra menos, tanto impacto. Tem muita gente vivendo e produzindo no Cerrado. Bastante lembrar que, durante os incêndios florestais pelo país, o Cerrado foi uma das regiões mais atingidas, registrando 22.892 focos.

Mais visibilidade para o bioma mais ameaçado

Área degradada pelo fogo no caminho para o Pico dos Pirineus.
Em setembro deste ano, o Cerrado foi o bioma mais afetado pelas queimadas.
De acordo com dados do Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais,
foram registrados 22.982 focos somente no mês passado.

Ele está presente em 11 estados – Bahia, Goiás, Minas Gerais, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Piauí, Rondônia, São Paulo, Tocantins, além do Distrito Federal –, e ocupa 24% de todo o território nacional, o que representa cerca de 80 milhões de hectares. Nele, vivem cerca de 25 milhões de pessoas, sendo a maioria de povos indígenas, quilombolas, integrantes de comunidades tradicionais e agricultores familiares.

Dizer que, hoje, este é o bioma mais ameaçado no Brasil pode soar como absurdo, já que todos estão ameaçados pelo projeto desenvolvimentista do governo. Mas é um fato, sim. E é por tudo isso que não faltam motivos para que Moutinho, Lefebvre e Bittencourt o tenham escolhido para esta primeira expedição.

“Queremos dar mais visibilidade ao bioma, mostrar a importância da preservação da savana mais biodiversa do mundo e difundir o ecoturismo como potencial atividade econômica complementar à agricultura praticada na região”, explica Moutinho, do IPAM. “É possível incorporar boas práticas no campo, como recuperação de pastos e restauração florestal, incluindo a regularização fundiária, para melhorar a produção. Esse pensamento, aliado à valorização da paisagem, são fundamentais para se criar uma nova forma de desenvolvimento para o Cerrado”.

Agora, assista ao vídeo gravado pelos integrantes da expedição Transcerrado antes de partirem:

Fotos: Reprodução Instagram

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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