Tráfico de animais silvestres aumenta ameaça de novas pandemias e expansão para comércio digital impõe risco ainda maior à humanidade

Tráfico de animais silvestres aumenta ameaça de novas pandemias e expansão para comércio digital impõe risco ainda maior à humanidade

Foi por acidente, literalmente, “graças” à picada da naja sofrida por um estudante de Brasília que criava de forma ilegal a serpente em casa, uma espécie originária da Ásia, que a polícia descobriu diversas outras cobras, muitas delas exóticas, escondidas no Distrito Federal. O episódio é apenas mais um que envolve uma rede global de tráfico de animais silvestres.

Há poucos dias o Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC, na sigla em inglês) lançou um novo relatório sobre “Criminalidade da Vida Selvagem”.

O levantamento enfatiza que o comércio de animais selvagens não coloca em risco apenas o meio ambiente e a biodiversidade do planeta, mas também, a saúde dos seres humanos.

“Quando os animais selvagens são caçados e retirados de seu habitat natural, mortos cruelmente e vendidos, aumenta o potencial de transmissão de doenças zoonóticas – causadas por patógenos que se espalham de animais para seres humanos -, como é o caso do vírus SARS-CoV-2, responsável pela pandemia da COVID-19”, afirma o relatório.

O documento alerta que as doenças zoonóticas representam 75% de todas as infecções emergentes no mundo e que as espécies traficadas para consumo humano escapam a qualquer controle sanitário e por isso, apresentam riscos ainda maiores de contaminação.

Um exemplo disso é o pangolim, apontado como o possível transmissor do novo coronavírus. Por causa de suas escamas usadas pela medicina tradicional da Ásia, em países como China e Vietnã, ele é o animal mais traficado do planeta. Entre 2014 e 2018, as apreensões de escamas de pangolim aumentaram em dez vezes. No mês passado, inclusive, após pressões internacionais e a deflagração da pandemai de COVID-19, a China retirou as escamas da lista de ‘ingredientes’ permitidos para uso em medicamentos.

“As redes transnacionais de crime organizado estão colhendo os lucros do tráfico contra a vida selvagem, mas são os pobres que pagam o preço”, destaca Ghada Waly, diretora executiva do UNODC. “Para proteger as pessoas e o planeta, não podemos nos dar ao luxo de ignorar os crimes contra a vida selvagem. É essencial que governos adotem a legislação necessária e desenvolvam ações coordenadas para combater os delitos de natureza selvagem”.

Tráfico de animais silvestres aumenta ameaça de novas pandemias e expansão para comércio digital impõe risco ainda maior à humanidade

Pangolim, o animal mais traficado do mundo

Internet propicia o crescimento do tráfico de animais

De acordo com o novo relatório da agência da ONU, 6 mil espécies foram capturadas entre 1999 e 2019 – mamíferos, corais, aves, peixes e cobras, como o caso da naja que foi parar em Brasília.

O levantamento aponta que nenhuma espécie é responsável por mais de 5% das apreensões, nenhum país foi identificado como fonte de mais de 9% do número total de remessas apreendidas e que traficantes de 150 nacionalidades foram identificados, ou seja, o comércio de vida selvagem é um problema global.

Todavia, o que se tem certeza é que o comércio online aumentou ainda mais as transações de compras ilegais de animais silvestres. Assim como outros mercados, o tráfico de vida selvagem se expandiu para a esfera digital.

“As vendas de certos produtos, como répteis vivos e produtos de ossos de tigre, foram transferidas para plataformas online e aplicativos de mensagens criptografadas, já que os traficantes encontraram novas maneiras de se conectar com potenciais compradores. Esse comércio é particularmente difícil de se combater devido à falta de transparência, estruturas regulatórias inconsistentes e capacidade limitada de aplicação da lei”, ressaltam os especialistas que assinam o documento.

Tráfico de animais silvestres aumenta ameaça de novas pandemias e expansão para comércio digital impõe risco ainda maior à humanidade

A naja apreendida em Brasília e que se encontra atualmente
no zoológico da cidade

Declínio do comércio de marfim e chifres de rinocerontes

Pelo menos há uma boa notícia no relatório do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime. Entre 2016 e 2018, estima-se que o tráfico de marfim e chifre de rinoceronte movimentou valores em torno de US$ 400 milhões e US $ 230 milhões, respectivamente.

Entretanto, notou-se uma queda na demanda por esses “produtos” originários da África. Talvez um dos motivos seja que alguns países têm tomado medidas mais duras contra esses crimes.

Mostramos no ano passado, em outra reportagem, que numa decisão histórica, em um tribunal da África do Sul, três caçadores foram condenados a 25 anos de prisão por terem abatido mais de 50 rinocerontes entre os anos de 2013 e 2016 (leia mais aqui).

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Fotos: domínio público/pixabay (tigre), Frendi Apen Irawan/Creative Commons/Wikimedia (pangolim), divulgação Zoológico de Brasília/Ivan Mattos (naja)

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Um comentário em “Tráfico de animais silvestres aumenta ameaça de novas pandemias e expansão para comércio digital impõe risco ainda maior à humanidade

  • 15 de julho de 2020 em 11:24 AM
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    Animais, quando não estão sendo caçados por esporte, estão sendo explorados por dinheiro, traficados, vendidos, perseguidos, enjaulados e sacrificados em rituais pseudos religiosos. A relação Homo Sapiens versus Outras Espécies tem sido, ao longo dos milênios, esse inferno para eles que atesta o grau de inferioridade para nós, criaturas que de julgam, mas nada têm de superiores. Não surpreende, pois, que esta pandemia tenha se originado do consumo de animais exóticos, como lagartos, pangolins, morcegos e sapos além dos “mais usuais ” cães e gatos, prática estranhavel para nós, mas absolutamente corriqueira em alguns países asiáticos. Quem sabe, se comprovada essa desconfiança, humanos comecem a colocar suas barbas de molho quando forem chupar seus ossos costumeiros, dos animais liberados para o consumo, que as pessoas tanto amam fumegando no espeto, porque ainda incapazes de ama-los como companheiros de viagem e amigos do peito nesse mundão de Deus.

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