Toninha: o menor golfinho da costa brasileira e o mais ameaçado do Atlântico Sul

Toninha: o menor golfinho da costa brasileira e o mais ameaçado do Atlântico Sul

Há pouco mais de um mês, noticiamos aqui, no Conexão Planeta, nesta outra reportagem, que dois filhotes de toninha (Pontoporia blainvillei) foram encontrados mortos na Praia da Joaquina, em Florianópolis, capital catarinense. A necropsia apontou que a possível causa da morte foi asfixia/afogamento. Os animais tinham marcas no rostro, provavelmente causadas pela captura incidental, a chamada bycatch.

A toninha é um golfinho pequeno, o menor da costa brasileira e também, o mais ameaçado de extinção no Atlântico Sul.

Em entrevista recente ao Observatório de Justiça e Conservação, a bióloga Camila Domit, coordenadora do Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná e pesquisadora da Associação Marbrasil, falou mais sobre as principais ameaças à espécie e a importância de projetos pela sua proteção.

Qual é a área de ocorrência da toninha?
No mundo todo, ela só é encontrada no Brasil, no Uruguai e na Argentina. Infelizmente esta espécie é considerada criticamente ameaçada de extinção em nosso país. Sabemos que existem áreas de manejo diferentes, a região de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, são algumas delas. Essas áreas são assim denominadas porque a espécie apresenta algumas variações populacionais em termos de tamanho, período reprodutivo, dieta, forma de agrupamento, e até mesmo questões genéticas, que já separam essas populações.Temos um olhar de preocupação se as próximas gerações ainda encontrarão essa espécie nos nossos mares.

Quais são as principais características da toninha?
Ela é bicudinha, pequenininha, tem a cabeça pequena, o olho bem pequeno e aqui no Paraná, um animal de 1,15 m é um macho adulto, já reprodutivo.

Seu tamanho é o que torna tão difícil fotografar e registrar a espécie (há pouquíssimas fotos disponíveis na internet)?
Sim. É um desafio você conseguir encontrar um animal de 1 metro na água, identificá-lo e fotografá-lo. E para que possamos identificá-los individualmente, eles têm marquinhas na nadadeira dorsal, então a foto tem que ser na nadadeira dorsal. É um trabalho que demanda bastante esforço.

Devido a esta dificuldade, o uso de tecnologias novas, como os drones, tem ajudado a trazer ótimas imagens e conhecer melhor o comportamento da espécie. Os sobrevoos de aeronave e helicóptero também auxiliam os pesquisadores nesta busca pelas toninhas, tanto para fotógrafa-las como para contá-las.

Existe alguma estimativa da atual população de toninhas no Brasil?
No Paraná, São Paulo e Santa Catarina, que é essa área de manejo, são estimados no máximo 10 mil indivíduos, mas temos acompanhado pelos resultados de encalhes dessa espécie, ao longo dessa região, um número maior que 500 indivíduos ao ano. Sabemos que aqueles animais que morrem, encontrados encalhados na praia, não representam toda a mortalidade da espécie, mas algo em torno de 15% a 30% do que realmente morreu. A mortalidade da toninha é muito grande e isso nos leva à uma condição de maior risco.

Há projetos de conservação da espécie?
Há iniciativas de conservação da toninha ao longo de toda a distribuição da espécie no Brasil. Os projetos somam um força tarefa para conhecer a espécie, as ameaças e buscar envolver sociedade e gestores para a sua conservação.

Nós desenvolvemos desde o final de 2018 um projeto pela preservação da espécie para entender os problemas que a afeta e a necessidade de conservação do ecossistema. Esse trabalho é feito com apoio de mais de dez instituições, entre os três estados, abrangendo assim essa região como um todo. O trabalho avalia tanto essa questão dos animais que chegam encalhados nas praias, a razão pela qual eles morreram, mas também realizamos sobrevoos para estimar o tamanho dessa população e onde eles ocorrem.

Usamos um avião especial para conseguir contar esses animais do alto, que é a forma mais fácil de fazer, principalmente abrangendo uma área maior da zona costeira. Também trabalhamos com os pescadores artesanais e industriais, de larga escala, entendendo quais são os conflitos que eles têm com as leis ambientais, com a conservação e proteção de algumas espécies. Queremos entender a cultura da pesca para entender de que maneira a atividade e a toninha podem utilizar os mesmos ambientes, coexistir para reduzir os impactos sobre essa espécie.

Esse projeto veio principalmente pela discussão que a maior mortalidade da toninha é relacionada à captura acidental, considerada hoje a maior ameaça à essa espécie. Apesar de não intencional, essa captura está levando a espécie a um risco grave de extinção. E nisso cabe uma discussão muito intensa, porque temos que garantir também questões sociais e econômicas. Não é possível dentro do projeto termos só um olhar ambiental, então tentamos integrar essa questão de justiça social e ambiental para garantir a conservação dessa espécie.

É preciso abrir diálogos com vários atores sociais, principalmente, pescadores tradicionais de pequena escala, que são aqueles que têm uma dependência dos recursos nas zonas mais rasas onde ocorre a toninha e desenvolver uma proposta de boas práticas, de adequação da legislação pesqueira atual, ou encontrar soluções participativas e compartilhadas, que permitam a sobrevivência da toninha no nosso ecossistema costeiro.

Registro aéreo de um grupo de toninhas

Quais são as áreas mais importantes para a toninha em nosso litoral?
Entre a Ilha do Mel, a Ilha das Peças e a Ilha das Palmas, a região chamada de desembocadura norte do complexo estuarino de Paranaguá, no Paraná, que faz parte da Grande Reserva, é uma das áreas prioritárias para a toninha na costa brasileira. Outro lugar que é possível ver essa espécie em estuário, é na Baía da Babitonga, em Santa Catarina. Tirando essas duas regiões, no Brasil nós só vemos a espécie na zona costeira, em áreas abertas, entre as primeiras isóbatas, ou seja, as primeiras profundidades da zona costeira, até mais ou menos 30 metros de profundidade.

Essa espécie não usa áreas profundas, mas rasas, e exatamente por isso tem uma sobreposição tão grande com as ações humanas, tanto da pesca, como essa problemática com o lixo plástico e a poluição invisível dos contaminantes químicos e os microplásticos. Há alguns trabalhos já mostrando, por exemplo, uma concentração de compostos químicos tóxicos oriundos de protetores solares na fauna, os quais o Brasil tem permitido o uso. Não fazemos ideia dos efeitos deletérios e subletais que não levam a morte, mas podem causar problemas muito maiores. Temos visto esses compostos nos tecidos das toninhas, então elas têm nos demonstrado, que há uma alta concentração ao longo da cadeia alimentar nesses predadores.

A toninha não é um predador de topo, mas é um predador e tem uma alta concentração desses compostos, e de outros como mercúrio, cádmio, chumbo, zinco, metais pesados, elementos traços, compostos orgânicos que também têm levado a debilitação da saúde da toninha, então é importante trazer essa conexão do animal com a saúde humana. A toninha é um mamífero, tem uma relação de amamentação do filhote, um sistema imunológico muito parecido com o nosso sistema imune, são mamíferos como nós e também estão passando por problemas de saúde por conta da degradação do ecossistema.

Quais desafios vocês têm encontrado na conservação dessa espécie e o que nós podemos fazer para preservar não só a toninha, mas outras espécies tão ameaçadas?
Importante colocação. Como pesquisadora, a minha ferramenta é a pesquisa, a ciência e trazer a melhor informação possível para que as decisões sejam tomadas com uma base forte. Mas eu também sou cidadã e como todos, a primeira coisa, é saber a origem do pescado que consumimos. Consciência com o nosso consumo é o principal ponto para ajudar a fortalecer e a valorizar aquelas pescarias que capturam espécies no período certo, no tamanho certo, com redes certas. Várias instituições têm buscado construir manuais de boas práticas para o consumo de pescado, disponíveis na internet.

A segunda coisa é comprar o peixe diretamente de quem produz, buscar essas pessoas que valorizam o ecossistema marinho. Essa cadeia produtiva positiva da conservação tem que ser fortalecida, senão buscamos conservação de um lado, e compramos um peixe, por exemplo, que foi capturado de maneira ilegal. Buscarmos consumir alimentos produzidos de maneira orgânica e sustentável são mecanismos bem simples, que todos nós podemos buscar, e que valoriza cadeias produtivas mais sustentáveis.

Outro passo é voltar na discussão de cobrar dos nossos governantes questões como esgoto. É necessário lembrar que a contaminação no ambiente marinho vem principalmente pelo esgoto ou pela falta do tratamento do mesmo. Buscarmos e cobrarmos questões de saneamento básico e do descarte correto de fármacos. Coisas simples que nós podemos fazer, como buscar inovações tecnológicas para destinação desses materiais, que possam de alguma forma trazer uma valorização ou compensação econômica para o pescador que toma esse cuidado. Pequenas práticas que podem definitivamente mudar o mundo.

 
 
 
 
 
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Foto: divulgação R3 Animal (abertura) e Federico Sucunza/GEMARS/Funbio (foto aérea)

Observatório de Justiça & Conservação

O Observatório de Justiça e Conservação (OJC) é uma iniciativa apartidária e colaborativa que trabalha fiscalizando ações e inações do poder público no que se refere à prática da corrupção e de incoerências legais em assuntos relativos à conservação da biodiversidade, prioritariamente no Sul do Brasil, dentre os quais se destacam, a Floresta com Araucária

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