TiNis: é tempo de criar sementes

Nos últimos anos, um número maior de pesquisas tem comprovado o que intuitivamente muitos de nós já sabemos: a relação com a natureza nos traz bem-estar e gera benefícios cognitivos, físicos, emocionais, sociais e espirituais, sobretudo nas crianças.

Atualmente, em torno de 84% da população brasileira vive em cidades (IBGE, 2010) e 47% não se sente segura na cidade em que moram (IBGE, 2010).

O contexto urbano, com seu crescimento desordenado, a desigualdade social, índices de violência e uma paisagem cada vez menos verde são alguns dos fatores que têm levado as crianças a crescerem em um contexto de confinamento. Situação essa, ainda mais severa nos últimos tempos devido à pandemia da Covid-19

Poder sentir o calor do sol e a brisa do vento direto na pele, correr e brincar ao ar livre, criando as mais diversas aventuras junto aos elementos naturais, não pode ser um privilégio, é um direito.

Até porque, para além do desenvolvimento saudável de nossas crianças, passar tempo com a natureza também é bom para nós, para o desenvolvimento de nossa sociedade e, por consequência, é bom também para as outras formas de vida. 

Pesquisas comprovam que crianças que têm experiências positivas e significativas com e na natureza tornam-se pessoas mais propensas a agir de forma a cuidar da Terra.

Mas sobre qual concepção de natureza estamos falando?  

Muito do que nos trouxe até o atual contexto socioambiental global está vinculado à concepção que temos sobre natureza. Enquanto continuarmos compreendendo a natureza como recurso, objeto, propriedade ou até mesmo mercadoria, vai ser muito difícil transformarmos nossos comportamentos e hábitos para com o mundo natural.

A boa notícia é que não precisamos ir muito longe para reconhecer outros entendimentos sobre natureza. 

Na verdade, essa é uma sabedoria com a qual nascemos sabendo e, por diversas razões, este vínculo não é nutrido e acabamos nos esquecendo. Para nos recordar, podemos buscar inspirações nos povos originários e em sua maneira intrínseca de se relacionar com a vida a partir da interdependência. 

Com uma simplicidade profunda e repleta de significados, os indígenas nos relembram que somos todos filhas e filhos da Terra, a Mãe Terra, o berço de onde tudo nasce. A fonte de sabedoria e sacralidade, onde antes mesmo de se construir uma relação de respeito com a natureza, aprende-se a reverenciá-la.

TiNis, a Terra das Crianças

Foi essa reverência que Joaquín Leguía, peruano e fundador da ANIA (Asociación por la Niñez y su Ambiente) despertou em si.

Ele estava com quatro anos quando seus pais se separaram. Sua mãe saía bastante e, por ser um período de convulsão social no Peru, as crianças ficavam bastante confinadas.

Nessa época, ele morava em uma casa com jardim que tinha, anexo, um terreno mais ‘selvagem’. Joaquín relata que foi seu irmão, que tem condições especiais, e esse quintal que o criaram e que o tornaram quem ele é.

Tempos depois, em contato com os indígenas da região andino-amazônica, Joaquín entendeu que estes chamavam essa relação de criação recíproca, onde ao mesmo em tempo que cuidamos da Natureza ela também nos cria e nos ensina.

Convicto de que todas as crianças têm direito de crescer em contato com a Natureza, ele criou o projeto que agora chega ao Brasil por meio do Instituto Alana: TiNis, a Terra das Crianças (tradução de Tierra de Niñas y Niños).

A natureza como mestra

Foto: Reprodução Instagram TiNis

As TiNis nos possibilitam criar um pedacinho de Natureza perto da gente por meio da arte do plantio. Proporcionando uma relação frequente com as plantas e, aos poucos, ancorando esse resgate ancestral de que a Natureza é sábia e que somos todos interdependentes e estamos conectados na grande teia da vida.

O convite das TiNis é abrir espaço para a sacralidade da vida sem interpretações de intermediários. É a oportunidade de explorar o mistério de estar na forma humana tendo a Natureza como a grande mestra.

Por isso, as TiNis são uma oportunidade para que todas as crianças, independente de classe socioeconômica ou contexto cultural, possam nutrir o vínculo emocional com a natureza.

Ao mesmo tempo que a mensagem das TiNis é profunda e transformadora, sua prática é muito simples. Para começar, basta que haja espaço para três vasos ou meio metro quadrado de canteiro, de modo que haja pelo menos três horas de sol ou de claridade intensa. 

Acompanhar de perto o desenvolvimento das plantas faz nascer em nós o senso de responsabilidade e percebemos a potência que é ser um cocriador da vida.

Para isso, nas TiNis: Terra das Crianças, tudo o que é cultivado deve ser ofertado para a própria criança, para sua família ou amigos e para a Natureza. Essas são as três partes da TiNi.

Com o intuito de romper com a ideia de que a Natureza está para nos servir, as três partes vem nos ensinar que além daquilo que comemos ou gostamos, também cultivamos para ofertar aos outros e fazer o bem à própria Natureza.

Plantamos para atrair polinizadores, plantamos para verdejar os ambientes, plantamos alimento, medicina, cultivamos algo para compartilhar com os demais e para transformar e embelezar a paisagem. Plantamos para criar vida e sermos criados por ela em uma relação de troca constante.

No Brasil, com Gisele Bündchen

O projeto nasce no Brasil no contexto de pandemia para que as famílias consigam cultivar mais Natureza dentro de suas casas.

Em breve, será ofertada uma jornada formativa aos educadores como um caminho para possibilitar esse contato com a Natureza também no ambiente escolar.

Você pode conhecer mais sobre o projeto acompanhando a série que Gisele Bündchen está publicando em seu perfil no Instagram. Abaixo, você pode ver o primeiro post.

Você também pode baixar o nosso Guia para Pequenos Criadores de TiNis em nosso site. Mãos à terra!

Fotos: Divulgação/TiNis-Alana, Gisele Bündchen/Reprodução Facebook

Laís Fleury e Mônica Passarinho

Laís Fleury é cofundadora da Associação Vaga Lume, reconhecida como empreendedora social pela Ashoka desde 2003. Coordena o programa Criança e Natureza do Instituto Alana desde 2015, e é membro do Conselho de Líderes da International School Ground Alliance (ISGA). Mônica Passarinho é bióloga pela UnB, permacultora, educadora para sustentabilidade e consultora com foco em aprendizagens com a Natureza e processos participativos. Tem Certificação em MetaIntegral, Sociocracia e Permaculture: Design Course

Deixe uma resposta