Theo Junior e suas máscaras de pedra

máscaras de pedra

Fico imaginando o dia em que não pudermos mais reclamar das pedras no caminho porque elas simplesmente foram cobertas pelo concreto armado. Imagino um leito de rio já sem água, já sem pedra. E rio um muxoxo triste. E esse sentimento cresce num fluxo fraco e sem força. E passo a imaginar caretas e carrancas. E a obra do artista Theo Junior já não me assusta, nem me maltrata. Me conforta. Me faz querer ter uma cara dessas no criado-mudo, ao lado da cama, para espelhar a tristeza, fazer da raiva alguma ação transformadora qualquer que me faça mudar de humor.

E não ser aquela criada muda que aceita quebrar pedra atachada ao chão do conformismo que o pintor francês realista Gustave Courbet mostrou em “Os Quebradores de Pedras”, um dos poucos quadros mais sociais pintados por ele, segundo o crítico Jorge Coli.

COURBET QUEBRADORES DE PEDRA #

Os Quebradores de Pedras”, obra de  Gustave Courbet

“Esta é uma obra formidável do ponto de vista pictórico, mas não vejo ali trabalhadores de um mundo moderno. Trata-se de uma cena rural, com um velho e um jovem, o que traz a ideia de ciclo de vida que tanto fascinava o artista”, afirmou Coli em entrevista ao Jornal da Unicamp. Courbet, lá no século XIX, parece querer mostrar que o jovem quebrador de pedra provavelmente vai continuar fazendo o mesmo trabalho até atingir a idade do mais velho.

Os quadros de Courbet  sempre foram associados à sua militância política, mas o professor Coli encontrou alguns pontos intrigantes. Segundo Coli, a série camponeses de Courbet, muito citada para mostrar o perfil social do pintor, mostra, sim, a família camponesa, mas a abastada. “São essas pessoas que ele representa na série: camponeses em cenas provincianas, nunca trabalhando, membros de sua família, de seu círculo de amizade, mas que não trazem um mínimo de denúncia social”, embora Courbet fosse um militante socialista e amigo próximo de Pierre Proudhon, o anarquista que escreveu “A Filosofia da Miséria” – e também “A Filosofia da Arte”, sobre o próprio Coubert. “A militância e a relação com Proudhon levaram a um vício de interpretação da obra do pintor, que também teria de ser socialista, republicana, subversiva”.  Mas, se a alma é subversiva, socialista, Coli, isso permeia a obra, nem que seja discretamente.  Ou não?

No artigo do Jornal da Unicamp que fala do livro de Coli sobre Courbet, ele ressalta que a obra do pintor apresenta, sim, um perfil militante, mas pela afirmação do artista na sociedade. É um aspecto não observado por outros estudiosos. “Naquele momento de transformação, os artistas passavam a contar menos com os velhos mecenas – como os reis e a Igreja – e o mercado das artes se afirmava como nunca antes”.

Courbet era odiado pelo dramaturgo Alexandre Dumas Filho, autor do romance passional “A Dama das Camélias”. A expressão dele enquanto se enrijecia de ódio não devia ficar muito longe dessa careta aí de cima.  É só ler a citação de Dumas que abre o livro de Coli para perceber a dureza de Dumas: “De que cópula fabulosa de uma lesma e de um pavão, de que antíteses genéticas, de que suor sebáceo pode ter sido gerado essa coisa que se chama senhor Gustave Courbet? Embaixo de que redoma, com a ajuda de qual esterco, em consequência de qual mistura de vinho, de cerveja, de mucos corrosivos e de edema flatulento pôde crescer essa abóbora sonora e peluda, esse ventre estético, encarnação do Eu imbecil e impotente?”.

Que coisa!! Dumas consumia as próprias vísceras com seu ódio por Courbet. Essa sim é a verdadeira cara do dramaturgo para Theo Junior, acho eu.

máscaras de pedra de Alexandre Dumas

A máscara do dramaturgo Alexandre Dumas, na visão do artista Theo Júnior

E isso me intriga.  A careta de Dumas na sua obra, Theo Junior, é uma das poucas com nome. Aliás você é mesmo intrigante. E um mistério. Acho que você é romeno porque vi no seu ralo perfil do facebook que você estudou numa escola na Romênia e mora em Nova Iorque. Nos seus parcos três ou quatro posts descobri que você se preocupa com as pedras usadas para produzir suas esculturas, que eu acho que são pequenas. Não encontrei mais nada… E você não me respondeu as perguntas que fiz na mensagem inbox.

Tá bem! São obras para serem vistas. E o Flickr me preenche. Sei… Você quer deixar as caretas falarem. E elas falam. Falam muito. Vou dizer o que acho, depois não me acuse de nada.  Para mim você fez o Alexandre Dumas (supondo que seja o filho)  porque não aguenta mais alguma ligação qualquer que fazem da sua obra com o tradicional quadro do Courbet. Tem um dedo de raiva dele, aí?

Supondo que seja o Dumas Filho ainda, ele parece bravo mesmo. E você deixa à mostra os vários perfis do escritor filho de uma costureira e do romancista Alexandre Dumas, que o reconheceu legalmente. Naquela época as leis permitiram a Dumas pai afastar a mãe do filho. A agonia de sua mãe  inspirou o filho a escrever sobre personagens trágicos femininos.

máscara de pedra do artista Theo Junior

Ou quem sabe não seja nada disso. Talvez você tenha mesmo é adorado “A Dama das Camélias”, este clássico da dramaturgia mundial que estreou na metade do século XIX e conta a história de uma elegante cortesã francesa, cheia das artimanhas no amor e no sexo.

Não sei. Mas não sobra pedra sobre pedra, ou sólido gelo de água poluída sobre castelo de areia suja ao “sol ozonizante“, para quem olha de frente para as suas esculturas e se deixa levar pela profundidade visual na pedra e profundidade emocional nas feições.

máscara de pedra de Theo Juniior

Máscaras se derretem. Você tem nas mãos o poder de entornar o sólido e palpável no caldeirão líquido e incerto. Você sonha com as caretas, certo? Ou tem certos pesadelos com alienígenas? Certas insônias que ficam entre o martelo e o cinzel. Você só descansa a cabeça quando acha o contorno macio da pedra, quando encontra a brecha que desmancha o uno natural? Quem dera os exploradores da natureza seguissem seu exemplo e usassem os recursos naturais para construir arte em vez de destruir até marte.  E ficar nos causando infartes, falta de ares, mares por causa de falsos estandartes.

máscara de pedra do artista Theo Junior

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Fotos: Theo Junior/Flickr

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além do Arte na Roda, mantém seus escritos poéticos, inspirados em música, no Para de gritar isso seu irresponsável. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado.

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