‘Tenho orgulho de ser ICMBio’: em vídeo, servidores ambientais respondem a ataques de Bolsonaro

'Tenho orgulho de ser ICMBio': em vídeo, servidores  ambientais respondem a ataques de Bolsonaro

Na semana passada, Bolsonaro foi à São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, para inaugurar uma pequena ponte construída pelo Exército, que atravessa terras indígenas na região. De lá, transmitiu sua live semanal e, pra não variar, proferiu declarações estapafúrdias e ofensivas.

Para justificar, mais uma vez, a indicação da cloroquina para tratar covid-19 – mas sem citar o medicamento – ele inventou a existência de uma etnia indígena e disse que seus integrantes contaram sobre sua experiência com a doença: foram contaminados pelo coronavírus e se curaram com ervas “sem comprovação científica”.

Em, seguida, o presidente atacou ao ICMBio.

“Os índios detestam a pressão do ICMBio, mas tem quem goste da pressão do ICMBio. Eu não vou falar de que lado eu fico, né? Fico do lado daquele pessoal que não é muito chegado no ICMBio, que fique bem claro aí, tá?”, disse, com sua dicção invariavelmente ruim.

Desde que assumiu o governo, Bolsonaro tem tentado acabar com os órgãos de fiscalização e controle do desmatamento ligados ao Ministério do Meio AmbienteIbama e o ICMBio, com a colaboração preciosa de Ricardo Salles, ministro do meio ambiente.

Ele nunca escondeu essa intenção, como revelam algumas de suas ações, que divulgamos, aqui, no site: proibiu a comunicação direta entre imprensa, Ibama e ICMBio; colocou militares em cargos-chave dos dois órgãos; substituiu funcionários de carreira e especialistas em meio ambiente por policiais militares no ICMBio e proibiu servidores do iCMBio de publicarem textos e artigos científicos sem autorização prévia.

Resposta

Para mostrar seu repúdio a mais esta agressão, no dia seguinte, 28 de maio, servidores decidiram produzir um vídeo simples com depoimentos. Foi assim que, por meio de sua assessoria de comunicação, a Ascema Nacional* coordenou essa produção.

“Em poucas poucas horas recebemos mais de uma centena de contribuições. O vídeo ficou excelente!”, destaca Pablo Saldo, diretor adjunto da organização.

“Queríamos dar uma resposta de pronto à fala de Bolsonaro, que ataca rotineiramente os órgãos ambientais e seus servidores, prática também comum do ministro Ricardo Salles. E acreditamos que fomos bastante exitosos. A adesão à esta campanha tem sido muito boa. Sempre que nos manifestamos, a sociedade apoia, o que confirma que estamos no caminho certo. Em dois dias, o vídeo já é o mais assistido no nosso canal do YouTube, com mais de cinco mil visualizações. Isso é fruto de uma corrente de compartilhamentos nas redes sociais”.

Uma corrente que espalhou e continua espalhando as hashtags #EuTenhoOrgulhoDeSerICMBIO #OrgulhoDeSerICMBio #EuGostoDoPessoalDoICMBio e #TenhoOrgulhoDosServidoresDoICMBio. Você pode assistir ao vídeo no final deste post.

Resistência

Pablo Saldo explica que a Ascema e as diversas entidades locais filiadas têm procurado auxiliar os servidores ambientais de todas as formas possíveis, “dando voz a seus anseios, literalmente, além de suporte afetivo, mas também apoio jurídico e, algumas vezes, financeiro, visto que vários colegas têm sido perseguidos por este governo através de processos administrativos e demissões que, em alguns casos, conseguimos reverter”.

E acrescenta: “Muitos servidores são ‘postos na geladeira’, sem atribuições definidas, uma vez que importantíssimas políticas públicas, outrora vigentes, foram abandonadas. Também não são poucos os caso de assédio institucional, em que os dirigentes dos órgãos pressionam para que o servidores de carreira dobrem-se à vontade destes, a despeito das normas e dos regulamentos do exercício da profissão”.

Neste cenário, é admirável que esses profissionais, que precisam driblar diariamente a pressão que vem do próprio governo, consigam manter firme seu propósito de proteger a natureza, às vezes em condições tão desfavoráveis. Saldo explica:

“Em geral, somos muito apaixonados pelo que fazemos. Nos vemos imbuídos de uma nobre missão: a proteção do meio ambiente e do serviço público. Acreditamos numa sociedade sustentável e o Estado deve ser o agente imprescindível para regular as assimetrias de poder entre os atores envolvidos na disputa pelos recursos naturais. Daí se origina a gestão ambiental pública, o artigo 225 da Constituição e todo o arcabouço legal que regulamenta nossa profissão”.

Ele salienta que o presidente é declaradamente contra a proteção do meio ambienta, mas demonstra “particular ódio” pelo ICMBio devido ao fato de ter sido autuado por pescar em área proibida.

“Desde então, tentou cassar nosso porte de arma e, agora, quer substituir os fiscais ambientais por policiais militares. Se elegeu prometendo a extinção do Ministério do Meio Ambiente, o que não conseguiu efetivar dada a importância da pasta, mas entregou-a a um advogado da área ruralista já processado por irregularidades ambientais e que está sendo investigado por prováveis crimes gravíssimos como a liberação de cargas ilegais de madeiras para o exterior. Acreditamos que só sairemos desta situação com a saída de ambos dos cargos que ocupam”, finaliza.

Conversei com servidores que aderiram à campanha da Ascema e compartilharam o vídeo e/ou declarações sobre o orgulho que sentem de sua profissão em seus perfis nas redes sociais.

Com certeza, seus depoimentos traduziriam ainda mais a força e a união entre eles, mas todos preferiram não participar desta matéria com receio de retaliações. A que ponto chegamos!

Então, agora, assista ao vídeo – que contou com a participação de servidores, ex-servidores, amigos e parentes – e ajude a espalhar esta campanha:

*Ascema é a Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente que representa os servidores ativos, inativos e pensionistas da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (CEMA) e do Plano Especial de Cargos do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e do Ibama, lotados no Ibama, no Instituto Chico Mendes (ICMBio) e no MMA.

Foto: Reprodução vídeo

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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