Tem como não gostar destes pisantes?

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Na semana passada, acompanhei debate sobre a indústria da moda e seus impactos socioambientais durante a 5ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental. Chiara Gadaleta Klajmic (EcoEra), Fernanda Simon (Fashion Revolution Brasil) e Paulina Chamorro, mediadora do debate, chegaram usando tênis da mesma marca e falaram um pouco sobre ela ao longo do debate.

A marca é a Vert. E o que ela tem a ver com economia solidária? A cadeia produtiva.

Particularmente fã desses confortáveis pisantes em meu dia a dia, pesquisei a história dos tênis da Vert. Criada em 2004 pela dupla de amigos franceses François-Ghislain Morillion e Sébastien Kopp com o nome Veja, a marca sempre teve os dois pés no Brasil. A borracha vem da Amazônia, envolvendo associações com mais de 70 seringueiros. O algodão, certificado, é produzido por 700 famílias no Nordeste. Os fios e os tecidos são feitos no estado de São Paulo. O couro é curtido com tanino vegetal de acácia, no sul do Brasil. E a parte do estilo é feita em Paris.

Vendida em Paris e outras cidades europeias, no início de sua trajetória, a marca chegou ao Brasil em 2013 com o nome Vert – o nome Veja já estava registrado de todas as formas possíveis. Não por “aquela revista”, mas pela empresa que fabrica produtos de limpeza com esse nome.

A inspiração para o negócio veio de uma viagem. Os amigos passaram o ano de 2003 correndo o mundo para conhecer experiências de sustentabilidade de grandes empresas. China, Índia, África do Sul e Brasil faziam parte desse tour. Conheceram a Amazônia e se encantaram.

tem-como-nao-gostar-destes-pisantes-vert-seringueiros“Queríamos fazer algo relacionado com esse bioma, com esse princípio: usar a floresta para não derrubá-la. Se a pessoa vive bem da floresta, ela não a derruba; se não vive bem, a pessoa corta árvores, bota gado e acabou. A gente não acredita no lado romântico da ecologia (…). Por exemplo: se você consegue vender o seu algodão orgânico com preço melhor do que o do algodão convencional, aí sim você vai se interessar em plantar o orgânico. Fizemos isso com a borracha, em comércio justo com uma associação de seringueiros – assim a gente corta os intermediários e eles ganham mais. E esse é um mercado que paga bem para os seringueiros e que, inclusive, valoriza o fato de a borracha vir da Amazônia…”, declarou François-Ghislain Morillion em entrevista para a jornalista Lilian Pace (na foto acima, produtores de borracha em encontro na Reserva Chico Mendes).

A Amazônia é o único lugar no mundo onde as seringueiras crescem em estado selvagem. As solas dos tênis da Vert são feitas de borracha vinda da reserva extrativista Chico Mendes, que abrange sete cidades do Estado do Acre. O preço pago pelo látex é justo e valoriza o trabalho dos seringueiros. Eles produzem uma Folha Defumada Líquida (FDL) – processo desenvolvido pela Universidade de Brasília – o que permite que os produtores transformem o látex em folhas de borracha sem uma fase industrial intermediária. Esse material é, então, enviado para a fábrica, para a moldagem das solas. Assim, vendendo um produto semiprocessado, os seringueiros recebem uma melhor remuneração.

O algodão dos tênis da Vert é comprado de cinco associações de pequenos produtores do Nordeste e cultivado em consórcio com outras culturas como milho, feijão, fava e gergelim. O preço pago aos produtores, segundo informação da marca, é 65% superior ao preço de mercado. Esse algodão não tem insumo químico, o solo está preservado e não há prática de monocultura. Além disso, a Vert firma contratos de compra de longo prazo, com preço garantido para a safra.

E ainda tem mais. No site da Vert eles contam… o que ainda não conseguem fazer! Sob o título Longe da perfeição, informam que os cadarços não são de algodão orgânico; que a espuma é sintética e feita à base de petróleo; que a sola dos tênis contém entre 30 e 40% de borracha nativa (para dar resistência, conforto e flexibilidade ainda é preciso usar outros componentes); que os metais dos ilhóses de metal não têm sua origem controlada; que ainda não há um plano de reciclagem para os tênis.

E para completar, li a seguinte declaração de François-Ghislain Morillion no site do Projeto Draft: “Sabemos que não vamos mudar a face do planeta: é pouco algodão, pouca borracha. Mas acreditamos muito que podemos inspirar outras pessoas, repassar o bastão a quem vem, e isso para nós é a coisa mais rica deste negócio”.

Agora, me responde: Tem como não gostar desses pisantes?

Fotos: Divulgação

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

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