Tecnologia para o bem: um direito de todas as crianças, durante a quarentena e fora dela

Até o meio de março, a abordagem sobre o uso do ambiente digital em minha família era bastante cautelosa. Meus filhos, de 11 e 7 anos, tinham acesso muito moderado a ele, tanto em termos de horas em frente às telas, quanto sobre tipos de uso – basicamente filmes e séries. Eles frequentam uma escola que utiliza(va) pouco o ambiente digital em suas práticas pedagógicas, e as telas não fazem parte do repertório de suas atividades em momentos de ócio.

Nossa aposta era em duas frentes: mostrar que o cerne da vida humana está em vivências e aprendizados offline, e ajudá-los a construir um amplo repertório de experiências que passam pelo corpo e pelos sentidos. E, simultaneamente, mediar sua relação com o ambiente digital de forma construtiva, problematizando os desafios e analisando como suas ferramentas podem nos ajudar a ter boas experiências.

Então, chegou a quarentena. De um dia para o outro, ficamos confinados em casa, mas não de férias. Começamos a receber roteiros de estudos por e-mail, recheados de vídeos e links. Todo nosso contato social presencial acabou.

Desenterramos um laptop aposentado, que foi instalado na escrivaninha da mais velha. E assistimos a relação de nossos filhos com o ambiente digital mudar: dedinhos antes acostumados a brincar com sementes e terra e escrever com lápis, rapidamente aprenderam a teclar. Funções em aplicativos, plataformas e aparelhos antes desconhecidos, logo foram dominados. Encontrar com amigos para brincar passou a ser sinônimo de longas chamadas de vídeo. Ir ao circo, assistir a um show e, até, a uma peça de teatro, passou a significar acessar uma tela.

E me dei conta de que minha ansiedade sobre “tempo de tela” tinha mudado. Acostumada a avaliar criteriosamente cada um desses momentos antes da quarentena, me peguei rindo feliz vendo meu filho menor brincar, durante mais de uma hora, com seu amigo do outro lado da chamada. Antes cuidadosa ao colocar meu smartphone em suas mãozinhas, agora, relaxada, o vejo buscá-lo sozinho para tirar uma foto de uma mariposa na varanda, mandar emojis para o recém-criado grupo da família, ou assistir uma live de contação de histórias.

Percebi, na prática, que “tempo de tela” é realmente uma forma simplista de resumir um desafio muito mais amplo: viver plenamente a infância no ambiente digital. Confinados em casa, longe fisicamente dos amigos e da família e ansiando por trocas e contato, descobrimos sobre o que o “tempo de tela” realmente deve ser: algo com sentido e intenção e que faça bem. 

Simultaneamente, cresceu em mim um novo tipo de ansiedade, causada pela constatação de que a quarentena ampliou e escancarou os impactos da desigualdade econômica e social na vida de meninos e meninas, em múltiplas dimensões, inclusive em sua relação com o ambiente digital. 

Nestes tempos em que o acesso às telas é uma das poucas alternativas disponíveis às crianças, podendo significar conexão, diversão, aprendizado e até atividade física, para muitos a conectividade é intermitente ou de baixa qualidade.

A escola não dá conta de preparar e enviar roteiros de estudos e manter a interação e o acompanhamento à distância; há exposição a conteúdos publicitários, violentos, falsos, discriminatórios e perigosos; há desrespeito à privacidade e à identidade online; há falta de espaço e oportunidades para brincar, criar, ler, desenhar, jogar, entre inúmeras possibilidades de encontros significativos consigo e com o outro.

E, acima de tudo, há o fato de que as crianças e jovens, assim como todos nós, estão imersos em um ambiente caracterizado fundamentalmente por produtos, plataformas e aplicativos cujo modelo de negócios é o de comercializar experiências, pois esses produtos lucram ao nos manter curtindo, clicando e assistindo. O resultado é um sistema que cria dependência, desinformação e conteúdo que escandaliza e polariza

Não há respostas fáceis e receitas prontas nesse que é um dos grandes desafios da atualidade: como construir uma relação segura, saudável, criativa e ética com o ambiente digital.

A quarentena vivida ao lado de duas crianças está me ajudando a perceber o valor de estratégias que considero fundamentais no plano do indivíduo: a construção de um sólido repertório de interesses, habilidades e rotinas offline e uma mediação parental baseada no diálogo, na escuta e na reflexão com as crianças sobre os desafios e as oportunidades do ambiente digital e da forma como elas se apropriam das tecnologias.

Ninguém sabe como sairemos do isolamento imposto pela COVID-19 e como será nossa relação com o ambiente digital depois dessa imersão nas telas. Alguns apostam em jovens com maior apreciação pelas experiências offline, em detrimento das digitais. Mas é possível imaginar um cenário de aprofundamento das ameaças existentes atualmente. 

O fato é que todas as meninas e meninos têm o direito de desenvolver uma relação com o ambiente digital onde prevaleçam boas experiências – conexões significativas, aprendizados com sentido, diversão saudável – e onde sua privacidade e capacidade de desconectar sejam respeitadas.

Uma relação na qual a tecnologia esteja a serviço dos direitos e do melhor interesse da criança. E, ao contrário do que pode parecer durante essas semanas de quarentena, quando a maioria está confinada em casa com sua família, esta é uma responsabilidade compartilhada por todos: estado, escolas, sociedade e empresas de tecnologia. 

Para contribuir com esta reflexão no momento que estamos vivendo, o Instituto Alana lançou uma série de vídeos com depoimentos de seus especialistas, abordando as algumas das principais questões que preocupam as famílias nas relações das crianças com as telas. Vale acompanhar.

Foto: Deyan Georgiev

Maria Isabel Amando de Barros

Engenheira Florestal e mestre em Conservação de Ecossistemas pela ESALQ/USP, sempre trabalhou com educação e conservação da natureza. É cofundadora da OutwardBound Brasil e atuou na gestão e manejo de unidades de conservação na Fundação Florestal do Estado de São Paulo. Depois do nascimento da Raquel e do Beni passou a estudar a relação entre a infância e a natureza no mundo contemporâneo. Desde 2015, trabalha como pesquisadora do programa Criança e Natureza do Instituto Alana.

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