Tecnologia garante continuidade de projeto de certificação com mulheres em Apuí, no Amazonas

Em Apuí, município localizado no sul do estado do Amazonas, agricultoras e jovens que cultivam café agroflorestal recebem tablets e conseguem acessar videoaulas sobre mecanismos de controle social para certificação orgânica participativa.

A estratégia é realizada pelo Idesam (Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia), e é possível graças ao projeto Mercado Verdes e Consumo Sustentável, da Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ), em parceria com o MAPA e com o apoio do Consórcio Eco Consulting/Ipam.

Na agricultura familiar, as mulheres são presença constante e, muitas vezes, estratégica. E um dos dilemas mais complexos é garantir o interesse das gerações mais novas em dar continuidade ao trabalho, fazendo com que esses jovens visualizem boas oportunidades para se manterem em suas cidades de origem.

Mirando esses dois públicos no município de Apuí, foram produzidas as videoaulas para que o projeto de ampliação da certificação orgânica continuasse efetivo, mesmo com o isolamento social imposto pela pandemia.

O trabalho do Idesam com agricultoras e agricultores de Apuí vem de muito tempo, e graças à assistência técnica rural à comunidade foi possível recuperar cafezais esquecidos desde a década de 1980 nas propriedades e perceber que, graças ao cultivo em agrofloresta, sombreado, o café, da espécie robusta, ganhava em qualidade e sabor.

Hoje, o Café Apuí Agroflorestal já é produzido por dezenas de famílias, e várias delas já estão integradas ao processo de certificação orgânica participativa desde 2018. “Com oito anos de existência, em 2018 o projeto atingiu a certificação orgânica, porém necessita de investimentos para se consolidar e expandir sua escala produtiva, a fim de acessar o mercado de cafés especiais e garantir um ciclo positivo e sustentável de crescimento ao empreendimento”, destaca Marina Yasbek, coordenadora de projetos que atua diretamente com produtores de Apuí e instrutora das videoaulas disponibilizadas.

A certificação orgânica participativa requer boa organização social para garantir, com segurança, a conformidade orgânica dos produtos. A autogestão e o trabalho em grupo ainda são desafios, o que levou à estratégia de elaborar as videoaulas direcionadas ao grupo.

A formação digital vai contribuir com a expectativa de conseguir certificar como orgânicos, até o fim de 2020, todos os produtores do café. Para Marina, acessar o Selo Orgânico Brasil na modalidade participativa, além de viável economicamente, pode envolver jovens e mulheres nas atividades de registro. E mantém também a coesão do grupo na produção do café.

Certificar mais itens das propriedades produtivas gera mais oportunidade de crescimento econômico e social para mais famílias.

“Preparamos material didático bacana, ferramentas para aplicar e monitorar a propriedade, um plano de manejo organizado, tudo para que as mulheres se empoderem nessa cadeia produtiva. Tivemos que nos reinventar para estar com elas mesmo sem a presença física e não interromper a extensão rural. As coisas não param no campo, a produção continua e as cooperativas precisam acessar os programas. Em Apuí, a produção do café vai bem, estão colhendo já,” explica Marina.

Introdução ao mundo da certificação participativa

Embora os cinco vídeos estejam focados na produção do café em Apuí, Marina garante que quem está familiarizado com a agricultura familiar de algum modo consegue entender e se introduzir no mundo da certificação participativa.

“É o primeiro projeto no Brasil desse tipo. Assistindo aos vídeos se aprende bastante sobre esse tipo de certificação, e esse material é também uma metodologia de empoderamento feminino”, pondera.

O processo de certificação orgânica brasileira prevê duas modalidades: uma que é realizada por terceiros, via auditoria, e que tem um custo alto para os agricultores familiares, e uma outra, que é a certificação participativa, que tem o mesmo status do primeiro tipo, mas é mais justa com os produtores familiares.

Formalmente nominado Sistema Participativo de Garantia (SPG), esse tipo de certificação é originalmente brasileiro, e tem como um dos principais objetivos dar acesso a um maior número de consumidores e agricultores aos alimentos orgânicos.

Os produtores familiares se organizam em grupos e participam de reuniões e vistas às propriedades para troca de experiência, garantindo assim a qualidade dos alimentos e respondendo juntos por qualquer irregularidade.

A certificação participativa do Café Apuí Agroflorestal vem sendo obtida em parceria com a Rede Maniva de Agroecologia, único OPAC (Organismo Participativo de Avaliação de Conformidade) da região norte do Brasil. Na prática, a OPAC Maniva funciona como uma espécie de certificadora coletiva, que conta com a participação de produtores agrícolas, técnicos e pessoas que coletivamente, atestam que o café é orgânico.

Para saber mais sobre o café

Na foto que ilustra este texto está Dona Maria Bernadete, que veio do Pará há quase 30 anos e foi uma das primeiras a se integrar ao projeto do Café Apuí Agroflorestal. Ela estava ansiosa por aprender a cuidar do café em sua propriedade.

“Meus vizinhos sempre me sugeriam acabar com o café. Eu respondia que não, que ia deixar o café ali e um dia eu ia aprender a mexer com ele. Um dia eu vi um convite debaixo da minha porta, do Idesam, falando que iam ajudar a gente a cuidar do café. E eu fui ver o que era”, diz ela.

“Aqui sempre deu café, mas pouco. Todo ano eu tirava 60 latões, às vezes eu vendia para comprar um outro café. Hoje não, eu tomo o meu café. Sei como ele é tratado, é orgânico, é uma alegria. Acordo e já sigo para cuidar do meu café. E agora tem ano que já tirei 200 latões”.

Para saber mais sobre o Café Apuí Agroflorestal, acompanhe suas redes sociais: Instagram e Facebook. E aproveite para assistir, agora, ao episódio introdutório da série de videoaulas:

Foto: Henrique Saunier/Idesam

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

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