Tartaruga cabeçuda é encontrada morta por documentarista nas águas da praia de Copacabana, no RJ

Assim que, em junho, em plena pandemia, foram liberadas as atividades aquáticas individuais pelo governo do Rio de Janeiro, com todas as medidas básicas de proteção, o biólogo e documentarista Ricardo Gomes, diretor do Instituto Mar Urbano, voltou às expedições na Baía da Guanabara para continuar seu projetos dedicados à preservação dos ecossistemas marinhos costeiros.

Ele mergulha na baía há cerca de 40 anos, 21 dos quais a trabalho. Contamos, aqui no site, sobre a experiência muito produtiva do primeiro mergulho logo após a quarentena.

Em 16/12, Gomes e sua equipe saíram para mais um dia de filmagens com o intuito de registrar raias na baía para o projeto Expedição Raias da Guanabara. Ele foi iniciado logo depois do documentário Baía Urbana (escrevi sobre ele), para o qual o biólogo filmou seis das sete espécies que vivem ali e tornam essa baía a quinta do mundo com maior diversidade de raias (você pode acompanhar um pouco da expedição pelos vídeos nas stories do Instagram do instituto).

Quando navegavam a 800 metros da praia de Copacabana, na entrada da Baía da Guanabara, foram surpreendidos com a presença de uma enorme tartaruga cabeçuda – Caretta caretta -, e rumaram até ela. O mais comum no litoral carioca é encontrar a tartaruga verde.

A priori, Gomes pensou que aquele era um dia de sorte. Afinal, ia poder filmar e fotografar um individuo da espécie naquelas águas, pela primeira vez! No entanto, assim que se aproximaram mais um pouco, reparou que ela estava morta.

“Foi uma das cenas mais tristes que já vi. Ela estava boiando, com os olhos fechados, a cara parecia triste e as nadadeiras estavam encolhidas, numa posição que parecia fetal. Tinha ficado tão animado para fotografá-la porque nunca tinha visto uma cabeçuda viva na Guanabara. Mas não foi dessa vez”, contou entristecido.

Foto: Ricardo Gomes/Instituto Mar Urbano

A primeira ideia que lhe veio à mente foi que ela morreu vítima do lixo plástico que despejamos diariamente em mares e oceanos, todos os dias. Confirmou sua suspeita ao observar o corpo da tartaruga: não havia marcas resultantes de redes de pesca ou de outro tipo. Mas não pode afirmar, nem provar.

“Cheguei a avisar o pessoal do Projeto Aruanã – e a enviar uma foto que fizemos e sua localização – porque nós não fazemos esse tipo de resgate. Mas acho que os avisei um pouco tarde. Perdi o sinal de celular pouco depois da filmagem, então acredito que eles não conseguiram resgata-la. Pela forma rápida como se movimentava, o corpo deve ter seguido em direção a Niterói”, acrescentou.

As causas mais comuns para a morte de tartarugas marinhas são a pesca acidental ou fantasma – “cai na rede” – e a ingestão de lixo plástico. Alias, é bom lembrar que desde a década de 1970 são encontrados vestígios de plástico no trato digestivo de tartarugas e aves marinhas, como destacou o Instituto Mar Urbano em post no Instagram.

Como Gomes não encontrou nenhum ferimento em sua pele e no casco, há 50% de chance de ela ter morrido asfixiada por plástico. “Um animal tão belo, que poderia ser bem mais velha do que eu – seu casco devia ter mais de um metro de comprimento! -, que sobreviveu entre mil ovinhos, quando nasceu, que viveu tanto tempo, sucumbir ao nosso impacto no oceano, é muito triste!”, lamenta.

‘Live’ debaixo d’água

Ricardo Gomes filma a tartaruga cabeçuda morta, na Baía da Guanabara
Reprodução da live, debaixo d’água

O biólogo ainda conta que a experiência foi divulgada por eles em tempo real por meio de uma live subaquática, pelo Instagram.

“É um fato inusitado. Creio que foi a primeira live feita debaixo d’água por uma ONG brasileira!”, ressalta.

“Colocamos meu celular numa caixa estanque e a Paula Ventura, estagiária do Instituto, pulou com ele na água e transmitiu ao vivo, enquanto eu filmava com minha câmera. Teria sido lindo filmar e fotografar a tartaruga viva, mas, infelizmente, ela estava morta. Queríamos compartilhar o que estávamos vivendo para chamar a atenção das pessoas. Encontrar uma cabeçuda morta nas águas da Baía da Guanabara é um sinal de alerta de que os oceanos estão em perigo. E, por consequência, nós também”.

Assista a live no final deste post.

Um oceano livre de plástico

Será ilusão? Fantasia? Levando em conta as 325 mil toneladas/ano ou 890 mil quilos/dia de resíduos descartáveis jogados nos mares e oceanos, talvez seja impossível termos, um dia, os oceanos livres de plástico. Mas é preciso fazer um enorme trabalho de conscientização ambiental para que consigamos reduzir os impactos e nos proteger. “

A live produzida por Gomes e sua equipe – que você pode assistir no final deste post – foi uma pequena e importante contribuição. Em sua Expedição Raias da Guanabara, ele também trata do lixo e mostra as ilhas de sujeira encontrada pelo caminho.

E o documentarista também destaca pesquisas e relatórios que atualizam informações sobre a realidade da poluição marinha na costa brasileira podem ajudar as pessoas a compreender o perigo, como o que foi lançado, esta semana, pela Oceana Brasil, instituição que é sua parceira.

Segundo o estudo Um oceano livre de plástico – Desafios para reduzir a poluição marinha no Brasil – que pode ser baixado gratuitamente – o Brasil é o maior produtor de plástico da América Latina, com 500 bilhões de itens produzidos por ano, o equivalente a 15 mil itens por segundo. Uau! Com um detalhe muito importante: “uma vez criado, o plástico nunca mais sai do planeta”. Já pensou nisso? “Ele se degrada dando origem a microplásticos que são ingeridos por animais e absorvidos pelo solo afetando o meio ambiente e a saúde humana”.

O relatório reúne informações sobre os resíduos descartáveis, conta detalhes do seu percurso até os oceanos, apresenta contextualizações históricas a seu respeito e destaca o consumo de micropartículas de plástico por meio dos alimentos – até da cerveja! E ainda oferece dicas de gestão ambiental e um capítulo inteiro com propostas e soluções para este grande desafio da humanidade.

Isso é pra ontem! É mais que urgente reduzir o consumo e o descarte de resíduos plásticos no mundo. Não existe mais um planeta! E este tem dado sinais de que tudo está demasiadamente insustentável para que possamos continuar vivendo nele.

Agora, assista à live subaquática feita pela equipe do Instituto Mar Urbano:



Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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