Taberna da Amazônia realiza campanha de financiamento coletivo para escapar da crise provocada pelo coronavírus

Em uma das edições da Feira Jardim Secreto, no bairro do Bixiga, aqui em São Paulo – sobre a qual já escrevi no Conexão Planeta – conheci a Taberna da Amazônia. A ideia da iniciativa é simples: conectar a Amazônia com quem vive no sudeste do país por meio dos deliciosos sabores de lá. Uma ponte para promover o encontro entre o consumidor e os produtos da sociobiodiversidade amazônica.

Parece extemporâneo falar disso em meio a essa pandemia, mas não é. Na ponta de lá, na Amazônia, quem produz esses alimentos são comunidades, agricultores familiares e pessoas que muitas vezes têm dificuldade de escoar sua produção. Comprar da Taberna, portanto, significa valorizar a produção dos pequenos, gerar renda para eles e promover o comércio justo.

Nem preciso dizer que com o isolamento necessariamente imposto pela pandemia do coronavírus, a Taberna está praticamente parada, sem a possibilidade de participar de feiras e afetada também por dificuldades logísticas. E, por essa razão, Anne Karoline Mello abriu um financiamento coletivo para conseguir atravessar esse período e pagar as contas. Como recompensa a quem participar da campanha, a Taberna oferece charmosos paneiros (pequenos cestos) com diversos itens comercializados por ela ou vales-compras, todos entregues futuramente, tão logo a pandemia nos der fôlego. O financiamento está aberto até 30 de abril.

Retorno às raízes e apoio às comunidades e aos pequenos produtores

Conheci a Anne, criadora da Taberna da Amazônia, no fim de 2019. Designer, ela deu aulas durante um tempo, estudou e trabalhou com ecodesign, pesquisa de materiais, fez pós-graduação em gestão ambiental, trabalhou com o órgão de fomento estadual de pesquisa do estado do Amazonas e cursou mestrado em design e sustentabilidade no Rio de Janeiro.

Nascida em Manaus, ela teve várias experiências antes de retornar às suas origens, a Amazônia. E o modo que ela encontrou para dar retorno, tendo em vista as relações tecidas no Rio, onde vive e criou a Taberna, foi estabelecer uma ponte entre o sudeste e os pequenos produtores amazônicos.

O começo foi limitado à venda de castanhas produzidas pelo pai, como também de biscoitos de castanha para amigos. Logo veio o trabalho com a Junta Local, sobre a qual também escrevi aqui, no Conexão Planeta. Aos poucos, com a aceitação e o interesse do público, foi ampliando os produtos oferecidos, passou a participar de feiras e até teve por um tempo uma loja física no Rio.

Hoje, a Taberna da Amazônia funciona de modo nômade, participando de feiras e eventos, e oferece biscoitos de castanha, bombons de cupuaçu, castanha, chocolate com cacau nativo da floresta, jujuba de cupuaçu com mangarataia, cachaça de jambu, tucupi, geleias, tapioca, pimentas e farinhas, entre muitas outras delícias produzidas por comunidades amazônicas. São 65 itens produzidos por pequenos produtores rurais, cooperativas e jovens empreendedores de diversos pontos da região Norte.

“Cresci numa família que tem uma conexão muito forte com o interior do estado do Amazonas. Minha família por parte de pai é proveniente do Purus, sempre trabalhou com extração e comércio de produtos in natura, eu cresci vendo esse processo. Achava tudo aquilo muito grandioso, mas aquela realidade não parecia adequada para mim, porque tinha nascido na cidade de Manaus, estudava, queria sair, conhecer o mundo. Saí, estudei e, nessa volta, depois de fazer todo um estudo de meio ambiente e lidar com públicos diversos, fui entendendo a integração do que eu tinha feito com o reconhecimento do valor de onde eu nasci e o que o meus pais fazem. Foi bem grandioso, ainda é um processo e, ao mesmo tempo, percebo que minha missão é essa. A Taberna é parte disso”, conta Anne.

Atualmente, ela participa do Programa de Aceleração da Plataforma Parceiros pela Amazônia, customizado especialmente para empreendedores amazônicos. Sua expectativa é que a Taberna saia mais fortalecida e potente desse ciclo, inclusive com a possibilidade de comercialização online.

Enquanto isso, na impossibilidade de um encontro mais caloroso em feiras e eventos, é possível ajudar na campanha de financiamento coletivo para que o negócio atravesse esse período da pandemia e se fortaleça para o retorno.

Foto: Divulgação/Taberna da Amazônia

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

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