Sydney Possuelo, um dos maiores indigenistas do Brasil, devolve ao governo a ‘Medalha do Mérito Indigenista’, recebida em 1987

Para o etnógrafo e sertanista* Sydney Possuelo, a condecoração de Bolsonaro com a Medalha do Mérito Indigenista pelo Ministro da Justiça, Anderson Torres – que também foi agraciado – (contamos aqui), foi uma grande ofensa a todos que receberam tal honraria desde sua criação, em 1972.

Para declarar sua indignação, ontem, Possuelo esteve no Ministério da Justiça e devolveu ao governo a medalha recebida em 1987, acompanhada de pin, broche e diploma (que completam o conjunto) e uma carta dirigida ao autor da façanha

Ao jornalista Sergio Valente, do UOL, disse que a condecoração “perdeu a razão de ser”, por isso tomou tal decisão.

Sidney Possuelo, em frente ao Ministério da Justiça, antes de devolver a Medalha do Mérito Indigenista / Foto: arquivo pessoal

“Essa medalha, entregue a quem foi, transforma o tirano em herói. Porque essa medalha distingue aqueles que, de alguma forma, direta ou indiretamente auxiliaram os povos indígenas na demarcação de terras, na saúde, na educação. E ela é totalmente imprópria e é uma forma não apenas de banalizar a medalha, é mais do que isso, é degradar a medalha”, declarou à coluna.

Com essa decisão, Possuelo deixa registrada na história do Brasil sua revolta, compartilhada por muitos brasileiros. 

As fotos de sua carta, com o carimbo de recebimento do referido ministério (no final deste texto) e do momento da entrega (que ilustra este post) se espalharam rapidamente pelas redes sociais como um alento, um aceno de dignidade neste cenário distópico que vivemos com Bolsonaro.

Possuelo é uma das maiores autoridades do país sobre os povos indígenas e um defensor aguerrido de suas causas. Em 1991, liderou – a pedido de Jarbas Passarinho, que ocupava o mesmo cargo de Torres no governo Collor – a demarcação das terras dos Yanomami.

Por sua trajetória brilhante, não fazia mesmo sentido tolerar tamanho escárnio. Sua decisão foi um presente ao Brasil e aos povos originários que vêm sendo massacrados desde a invasão dos portugueses e, encontraram neste presidente, um de seus piores inimigos.

Em sua carta – que você pode ler na íntegra, mais abaixo – ele relembrou uma declaração abominável do então deputado federal Jair Bolsonaro, em abril de 1998, durante sessão na Câmara dos Deputados, na qual celebrou a competência da cavalaria norte-americana em relação ao destino que deram aos indígenas:

“… a cavalaria brasileira foi muito incompetente! Competente, sim, foi a cavalaria norte-americana, que dizimou seus índios no passado e, hoje em dia, não tem esse problema no país”.

Quem duvida da veracidade de tal declaração, pode consultar o documento que registra todo o conteúdo dessa sessão – a fala dele está na página 33 – e a checagem feita pela revista Piauí, em 2018, durante a campanha presidencial. 

Vale destacar, aqui, que, no mesmo dia da condecoração, a APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil declarou seu repúdio e que já estava contestando a decisão na Justiça (contamos aqui). Em suas redes sociais, a organização apresentou o modelo de medalha mais condizente com a trajetória e falta de princípios de Bolsonaro. Vale conhecer.

Darcy Ribeiro, Raoni, Juruna e… Romero Jucá

Possuelo e Raoni, (que recebeu a mesma medalha em 2017) durante campanha pela indicação do cacique para o Prêmio Nobel da Paz/ Foto: reprodução Facebook

Contradições fazem parte da vida política em qualquer país democrático. Não seria diferente por aqui. E ainda marcam a história da concessão da Medalha do Mérito Indigenista nos 35 anos de existência.

A honraria foi concedida a indígenas e indigenistas ilustres, como Possuelo, Darcy Ribeiro (2014), os caciques Juruna (2014) e Raoni (2017), a antropóloga Carmem Junqueira (1987) e Dom Pedro Casaldáliga (2014), que ajudou a fundar o Conselho Indígena Missionário.

Em alguns casos, a condecoração aconteceu depois da morte do homenageado.

Mas a medalha também foi oferecida por figuras desprezíveis como Romero Jucá, ex-senador que presidiu a Funai de maio de 1986 a setembro de 1988. E veja só: a concessão se deu em 1987, mesmo ano em que Possuelo foi reconhecido com ela pela grandeza de seu trabalho. 

No tempo em que esteve à frente da Funai, o político conquistou a fama de ‘o maior inimigo dos indígenas’ porque apoiava o garimpo ilegal, em especial nas terras dos Yanomami (leia a reportagem O maior inimigo dos Yanomami, da organização Repórter Brasil, para entender melhor a dimensão criminosa de seu mandato).

Em 1988, sabe-se lá porquê, Jucá ainda recebeu a Medalha de Mérito Ecológico de Brasília. Está tudo registrado em sua página no site do Senado

A seguir, reproduzo a carta de Sidney Possuelo. Boa leitura!

A carta, na íntegra

“Senhor Ministro,

Com imensa surpresa e natural espanto, tomei conhecimento de que o senhor Jair Bolsonaro foi condecorado com a Medalha do Mérito Indigenista.

Ao longo de toda a história da humanidade, os povos autóctones tornaram-se vitimas de toda sorte de atrocidades cometidas por representantes de sociedades que se acreditam civilizadas e tementes a uma potestade superior. 

Os povos originários do continente americano – do Alasca à Patagônia – tiveram os territórios, onde milenarmente viviam, invadidos e drasticamente reduzidos. E, em nome de interesses sempre menores, condenados à morte. 

Quando deputado federal, o senhor Jair Bolsonaro, em breve e leviana manifestação na Câmara dos Deputados, afirmou que “a cavalaria brasileira foi muito incompetente. Competente, sim, foi a cavalaria norte-americana, que dizimou sues índios no passado , hoje em dia, não tem esse problema no país”.

Ofendeu, o senhor Jair Bolsonaro, ao vocalizar sua crença e seus desejos, a memoria do Marechal Rondon e, por extensão, do Exercito brasileiro.

Dediquei minha vida ao trabalho de defender os direitos humanos de uma parcela da humanidade que vive em outro tempo histórico, mas que compartilha com a sociedade envolvente o mesmo tempo cronológico. 

Há 35 anos, vivi a honra de receber a medalha do Mérito Indigenista. E, como é de público conhecimento, delegou-me, em 1991, o coronel Jarbas Passarinho, então ministro da Justiça, a tarefa de demarcar, em nome do governo brasileiro, a Terra Indígena Yanomami. Meus companheiros e eu, da Fundação Nacional do Índio – Funai, a cumprimos. E disso nos orgulhamos.

Entendo, senhor ministro, que a concessão do Mérito Indigenista ao senhor Jair Bolsonaro é um flagrante, descomunal, ostentiva contradição em relação a tudo que vivi e a todas as convicções cultivadas por homens da estatura dos irmãos Villas-Boas.

Por essas razões, senhor ministro, devolvo ao governo brasileiro, por seu intermédio, a honraria que, no meu juízo de valores, perdeu toda a razão pela qual, em 1972, foi criada pelo Presidente da República. 

Sydney Ferreira Possuelo
Sertanista
 

P.S.: Acompanha a presente mensagem, o estojo contendo Medalha do Mérito Indigenista , Pin, Broche e cópia do diploma“.

A carta de Sidney Possuelo com o carimbo de recebimento do Ministério da Justiça / Foto: arquvo pessoal

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*A palavra sertanista surgiu para designar exploradores, que visavam a conquista de riquezas, como os bandeirantes. Mas ganhou novo significado com a adoção da palavra no contexto indigenista. O sertanista indigenista tem, como propósito principal, a garantia da sobrevivência dos povos indígenas, entre eles, os isolados, como sempre fez Sidney Possuelo.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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