Startup transforma gafanhotos no Quênia em proteína para ração e biofertilizante

Em janeiro do ano passado, as lavouras da Etiópia, do Quênia e da Somália foram atacadas por uma das maiores infestações de gafanhotos do deserto (Schistocerca gregaria) dos últimos 25 anos, como noticiamos aqui. Mas desde 2019 o continente vem sendo atacada por esse inseto voraz.

Considerada a praga migratória mais antiga da humanidade, essa espécie – em nuvem tão gigantesca – é capaz de devorar, em um só dia, uma quantidade absurda de comida que poderia alimentar cerca de 90 milhões de pessoas.

Foto: Sven Torfinn/divulgação/FAO

A causa desse raro fenômeno? As alterações climáticas provocadas pela ação humana contra a natureza.

Na época, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) fez mais um alerta para a necessidade de se combater essa praga – a mais antiga no continente africano -, pois lá vivem 19 milhões de pessoas, e boa parte delas passa fome.

A solução – ou parte dela – pode estar no trabalho desenvolvido pela startup africana, a The Bug Picture, cuja missão é ajudar a combater os desafios ambientais na África Oriental, na qual, de acordo com as previsões, a população dobrará até 2050.

“Somos uma empresa de agricultura regenerativa que está revolucionando a maneira como as pessoas veem a proteína à base de insetos para criar uma fonte de proteína produzida localmente, com preço competitivo e ambientalmente sustentável para a agricultura”, explicam os membros da startup em seu site, e acrescentam:

“Somos africanos, apaixonados pela África e trazendo uma abordagem africana para um problema global”.

E dizem mais: como a demanda por carne – em menos de 30 anos – vai mais que dobrar, é preciso encontrar “soluções de alimentos e rações para o futuro, usando menos recursos naturais sem destruir nosso planeta no processo”.

Agricultura regenerativa

O termo foi cunhado pelo americano Robert Rodale, que se valeu de teorias da ecologia para estudar processos de regeneração nos sistemas agrícolas ao longo do tempo. Ele defendia a possibilidade de se produzir ao mesmo tempo em que se recupera o solo.

Rodale propôs a regeneração e a manutenção do sistema de produção alimentar, incluindo comunidades rurais e consumidores no processo, levando em conta todos os aspectos: econômicos, ecológicos, éticos e de igualdade social.

Seu conceito é a base de diversos projetos pelo mundo, entre eles o da The Bug Picture. “Acreditamos que nutrição, educação e empregos, em harmonia com o meio ambiente, são os pilares fundamentais para elevar nosso povo a novos níveis de autossuficiência e prosperidade.

Gafanhotos viram proteína e fertilizante

Sabemos que a demanda por insumos agrícolas acessíveis e de alta qualidade está muito além da oferta, e que produtos químicos ou a intensificação das safras não resolverão esse desafio.

Diante desse quadro e com base no conceito da agricultura regenerativa, em 2019 a The Bug Picture encontrou uma maneira de transformar gafanhotos em proteína alimentar para ração de animais e também em biofertilizante.

O projeto recebeu o nome de Desert Locusts as a Crop (Gafanhotos do Deserto como cultura, em tradução livre) e financiamento da Danida – Agência Dinamarquesa para o Desenvolvimento. E também conta com a participação essencial das comunidades locais.

Os moradores de diversas regiões no Quênia fazem a “colheita” de gafanhotos – sempre durante a noite, enquanto os bichos estão mais vulneráveis: pousados nas árvores, e recebem por isso. Laura Stanford, fundadora da startup, explica:

“Estamos tentando criar esperança numa situação de desespero e procurando ajudar as comunidades a alterarem sua perspectiva e enxergarem estes insetos como uma cultura sazonal, que pode ser colhida e vendida, transformada em dinheiro”.

Assim, enquanto a produção de proteína tradicional para alimentar os animais destrói florestas (com soja) e as populações de peixes (para fabricar a farinha de peixe), a The Bug Picture aproveita a quantidade surreal de insetos (lixo orgânico) – resultado de um desequilíbrio – e os converte em proteína alternativa para alimentar animais e em um fertilizante que não causa qualquer impacto no solo.

Tudo produzido localmente e por um preço competitivo.

Um sistema perfeito

Para a The Bug Picture, os insetos são a solução para muitos dos problemas que acometem o continente africano. E seus integrantes pensam grande. “É uma solução que precisa ser compartilhada!”.

O objetivo de Laura e de sua equipe é ajudar a melhorar os meios de subsistência, transformando a relação com o desperdício e garantindo qualidade de insumos para agricultores em toda a região.

“Acreditamos que, por meio do poder dos insetos, podemos aumentar a sustentabilidade nas cadeias de suprimentos agrícolas, criar empregos locais e melhorar a autossuficiência nutricional de nosso povo na região“.

Eles sonham e ver redes de produção de insetos, produtores de grande escala fornecendo às indústrias de ração animal e grandes fazendas, e as famílias de pequena escala, utilizando-se do biofertilizante para cuidar de seu jardim e de suas hortas, vendendo seu excedente aos fazendeiros locais”. Um sistema perfeito.

A equipe da The Bug Picture está focada na África porque atua lá. Mas claro que sua tecnologia pode atravessar fronteiras porque, muito em função das alterações climáticas também, gafanhotos não são exclusividade desse continente.

No ano passado, em junho, depois da infestação nos países africanos, a Índia e o Paquistão também sofreram com esses insetos. Aqui, na América do Sul, uma nuvem de gafanhotos saiu do Paraguai, avançou pela Argentina e ameaçou as lavouras do Brasil. Com um detalhe: a solução que se ofereceu para conter a infestação por aqui, foi borrifar veneno, que poderia matar os gafanhotos, as lavouras e intoxicar pessoas, com sequelas bastante graves, como conhecemos..

Viva a The Bug Picture! Que seu trabalho se desenvolva e flua pelo mundo!

Foto: Kappo Kalyn/Pixabay

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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