Somos todos devedores históricos em relação à natureza

Somos todos devedores históricos em relação à natureza

O Brasil é um grande país em muitos sentidos. A começar pelos oito milhões de quilômetros quadrados de nosso território, o quinto maior país do mundo em extensão. Os números de nossa economia apontam para pujantes e variadas atividades, que proporcionam geração de riquezas extraordinárias. Não apenas no campo do agronegócio, hoje uma robusta máquina de geração de divisas e lucro. Somos mais, atuando em setores da indústria que nos colocam em posições de relevância global.     

Avançamos em nossas perspectivas de desenvolvimento quase sempre a partir do respaldo riquíssimo de nosso patrimônio natural, considerado um bem a ser explorado para garantir esses avanços mas, ao mesmo tempo, com um amplo conjunto de cuidados nem sempre atendidos no que se refere a sua manutenção e uso racional. Ao contrário: a história nos posiciona como grandes exploradores da natureza, com ciclos econômicos suportados pelo extrativismo predatório de nossas riquezas, a exemplo da exploração da madeira e da mineração, passando pela ampliação desenfreada de áreas para a implantação de pastagens, plantações agrícolas e silviculturais.

Os centros urbanos onde se concentram a população e as grandes indústrias se beneficiam igualmente da natureza para garantir o consumo de matérias primas e insumos para o dia a dia da população, com um comércio de grande escala que provê a sociedade de bens e serviços.  Este enorme e complexo mecanismo de atividades depende, fundamentalmente, da continuidade da existência de insumos provenientes da natureza, que produz uma infinidade de serviços justamente a partir da existência de ambientes ainda conservados – estes insumos são conhecidos como “serviços ecossistêmicos” e já estão conceitualmente incorporados, mesmo que de forma ainda subliminar, no entendimento genérico de parte de nossa sociedade.

Aumenta de maneira muito considerável a relevância deste tema o advento do fenômeno global das mudanças climáticas, somado a crescente perda da biodiversidade, já extremamente crítica em alguns biomas brasileiros, como a Mata Atlântica, onde vivem mais de 120 milhões de brasileiros.

A grande máquina da natureza, responsável pela manutenção dos negócios e da nossa qualidade de vida, vem paulatinamente sendo assaltada, sem grandes preocupações, com a retirada de parte de suas peças, prejudicando seu funcionamento. Esta condição de enfraquecimento da quantidade e da qualidade das áreas naturais implica diretamente no comprometimento da produção plena e suficiente dos serviços ecossistêmicos. 

Globalmente, a busca pelo equacionamento adequado desses dois problemas (clima e biodiversidade) são considerados de extrema relevância para garantir o futuro e nossa própria existência. O que passa naturalmente pela condição de manter atividades econômicas e a busca contínua pelo bem-estar da população. Essa condição de relevância, no entanto, não é adequadamente explorada internamente no Brasil.

Ao contrário de uma agenda que acompanhe as tendências mais evoluídas já presentes em muitos países, são as grandes atividades econômicas que se articulam em discursos dentro de um padrão muito conhecido, permitindo justificativas para avanços na degradação ambiental a partir do argumento de que se trata de um custo inexorável para os avanços no desenvolvimento. 

São tão fortes estes arranjos de influência da opinião pública, que as contestações presentes até os dias de hoje mantêm-se em grupos minoritários, muitas vezes, designados como elementos indesejáveis e que devem ser repelidos pela sociedade, pelo fato de se posicionarem de forma contrária ao desenvolvimento econômico convencional adotado no país.

A permeabilidade e capacidade de inserção está presente de forma preponderante nos poderes constituídos, onde a regra quase sempre está representada pelo acatamento destas diretrizes, em troca de suporte a campanhas eleitorais e outros favores bastante difundidos em nossa cultura, gerando um atendimento praticamente pleno de seus interesses.

Mesmo com as mudanças cada vez mais críticas de um cenário ambiental que se deteriora a cada dia, com eventos cada vez mais intensos que causam prejuízos, observa-se uma inércia com alto grau de estabilidade, suportada pelo conjunto dos interesses de relevância econômica setorial. Assim, cada frente lutando por seus interesses próprios, atreladas à debilidade de políticas públicas governamentais impedem, com muita eficiência, avanços óbvios que deveriam estar sendo colocados em prática em nosso país com a escala e a amplitude que nem de perto conseguimos atingir atualmente.   

E na toada de que “o problema não é comigo”, sistematicamente, representantes de governos e setores da economia, em especial, os que mais degradam, afirmam que apenas com um compensação internacional haveria espaço para a proteção de áreas naturais no Brasil. Ou seja: depois de mais de 500 anos de espoliação continuada e irresponsável de nosso patrimônio natural temos o disparate de manter uma posição de inatividade e recusa em assumir nossas próprias responsabilidades, que são em prol de nós mesmos fundamentalmente.

Ainda por cima, colocamos a “batata quente” no colo de países que estão preocupados com a condição de proteção de nossos biomas, em função de sua relevância global – que é real e deve ser reconhecida. 

A demonstração de falta de princípios éticos dos que demagogicamente discursam a retórica do “paguem que eu protejo” deveria ser execrada por todos nós. Que país com nossa força e dimensões têm a coragem de pedir esmola para fazer sua lição de cada mais fundamental é a proteção efetiva de seus recursos naturais? Além disso, certamente, a melhor forma de atrair investimentos externos para amparar nossa própria necessidade de proteção do patrimônio natural está em assumirmos nossas responsabilidades de frente e com um entendimento de que esta conta, em última instância é nossa.

Guardadas inúmeras exceções, este é um país com excesso de instâncias de sanguessugas, muito bem organizadas. E muitos dos que não integram estes feudos, comportam-se com uma passividade igualmente imoral.

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Foto: Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real/Creative Commons/Flickr

Clóvis Borges

É diretor-executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), fellow da Ashoka, afiliado à Fundação Avina, membro do Conselho Consultivo do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO) e vice-presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Life. Também é conselheiro do Observatório de Justiça e Conservação (OJC)

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