Sempre se acreditou que aves machos cantavam mais. Até que mulheres cientistas começaram a estudar os pássaros…

Sempre se acreditou que apenas aves machos cantavam mais. Até que mulheres cientistas começaram a estudar os pássaros...

A ciência sempre foi dominada pelos homens. A grande maioria dos pesquisadores, no mundo inteiro, pertencia ao sexo masculino. As poucas mulheres que enfrentavam o desafio de se impor e trabalhar nessa área eram vistas com olhares desconfiados. Foi o caso por exemplo, de Marie Curie, a cientista e física polonesa naturalizada francesa, pioneira nos estudos sobre a radioatividade. Foi a primeira mulher a ser admitida como professora na Universidade de Paris e também, a primeira mulher a receber um prêmio Nobel (e não apenas uma, mais duas vezes).

Mas nos dias de hoje tudo mudou. Cada vez mais as mulheres se destacam no meio acadêmico e dão importantes contribuições para suas áreas de conhecimento. E revelam que, por causa do domínio masculino no passado, talvez alguns estudos podem ter sido norteados de forma incorreta.

É o que constatou um grupo de cientistas americana/os ao analisar os dados sobre as pesquisas feitas nos últimos séculos sobre os cantos dos pássaros, que geralmente utilizam este comportamento para atrair as fêmeas durante o período de acasalamento. No caso das aves fêmeas que cantavam, era algo sempre tido como raro ou atípico.

Em um artigo científico divulgado recentemente na publicação Animal Behaviour, os pequisadores relatam como historicamente, o canto das aves foi estudado principalmente como uma característica masculina, todavia, a partir do momento que mulheres cientistas começaram a se debruçar sobre o tema, descobriu-se que tanto machos como fêmeas cantam e não há uma prevalência de gêneros.

O grupo de pesquisadores do Departamento de Biologia da Universidade de Maryland avaliou artigos científicos sobre o comportamento vocal de aves fêmeas nos últimos 20 anos.

“Encontramos forte associação entre o tópico de pesquisa e o sexo do autor. Os autores principais de artigos sobre canto de aves fêmeas são significativamente mais propensos a serem mulheres: elas representam 68% deles. Nosso estudo sugere que as mulheres dão uma contribuição maior para o campo emergente do canto dos pássaros femininos. Essa discrepância demonstra a importância da diversidade na abordagem de áreas da ciência até então pouco estudadas. O aumento da diversidade na ciência pode levar a novas abordagens para estudar o comportamento, a ecologia e a conservação”, afirmam os autores do estudo.

Conversamos com uma das pesquisadoras envolvidas no levantamento, a bióloga Evangeline Rose, e ela nos deu mais detalhes sobre os resultados obtidos e explica porque acredita que mais mulheres precisam ser promovidas a cargos de liderança sênior, para que possam ter voz sobre decisões importantes relacionadas a pesquisas, financiamentos e projetos estudantis.

Por que vocês decidiram estudar este assunto?
Nosso grupo de pesquisa tem se interessado pelo canto das aves fêmeas há algum tempo. Nosso foco é ​​em como o canto feminino muda nossa compreensão de como o canto dos pássaros evoluiu em ambos os sexos. No entanto, notamos que a maioria dos estudos lançados sobre canções femininas foram, em sua maioria, escritos por mulheres. Decidimos ver se essa era uma tendência real e alertar sobre como aumentar a diversidade de cientistas pode ajudar a aumentar a diversidade das perguntas que fazemos.

Para a ciência, apenas pássaros machos cantavam ou ‘principalmente’ pássaros machos?
Esta é uma grande pergunta! Os pássaros machos e fêmeas sempre cantaram. Embora em algumas espécies (especialmente naquelas de regiões temperadas do Hemisfério Norte), somente os machos são capazes de cantar. Os pesquisadores sabem há muito tempo que as fêmeas em algumas espécies podem cantar, mas era um fenômeno pouco estudado até mais recentemente.

Quais foram as principais descobertas com o estudo?
Descobrimos que as mulheres pesquisadoras eram mais propensas a serem autoras de artigos sobre o canto das aves. Também descobrimos que mais mulheres eram autoras e mais artigos foram publicados sobre canto feminino nos últimos 20 anos (2000-2020) do que nos 20 anos anteriores (1980-2000).

A descoberta foi uma surpresa entre seus colegas?
Não acho que essa descoberta foi uma surpresa para quem estuda o canto feminino. Mas acho que este artigo fomentou muitas e positivas discussões sobre o aumento da diversidade de cientistas mulheres na ciência.

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Foto: domínio público/pixabay

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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