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Sementes resistentes ao fogo podem ajudar a reflorestar áreas devastadas por incêndios no Cerrado

Semente de mulungu
Foto: Costa PPPR / Wikimedia Commons

Por Simone Machado*

Projeto realizado pela bióloga Giovana Cavenaghi Guimarães, doutoranda da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de São José do Rio Preto (SP), aponta que o cultivo de sementes capazes de resistir ao fogo pode ser uma estratégia promissora e econômica para restaurar áreas devastadas por incêndios.

O estudo inicialmente foca em cinco espécies de sementes nativas do Cerrado brasileiro, como jatobá (Hymenaea courbaril), amendoim-bravo (Pterogyne nitens), mulungu (Erythrina mulungu foto acima) e canafístula (Peltophorum dubium), que possuem mecanismos naturais de adaptação ao calor extremo.

Segundo Giovana, essas plantas sobrevivem em condições adversas, como as altas temperaturas ocasionadas pelas queimadas, tornando suas sementes ideais para a recuperação ambiental após um incêndio. Essas espécies também apresentam maior capacidade de germinação, onde, em média, 99% das sementes evoluem para árvores.

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“A ideia do estudo é entender como ocorre a dormência física dessas espécies, que possibilita elas sobreviverem nessas condições de altas temperaturas e incêndio. Quando essas sementes estão na terra, mesmo que o fogo destrua as que já germinaram, elas resistem às altas temperaturas e germinam após a queimada”, explicou a pesquisadora em entrevista à Mongabay.

A dormência física é um processo natural de algumas espécies que impede a germinação de sementes. Ela é considerada um mecanismo de sobrevivência. No caso das plantas estudadas por Giovana, a exposição à alta temperatura pode quebrar essa dormência física ao causar rachaduras no tegumento (casca), permitindo a entrada de água e a germinação.

Sementes resistentes ao fogo podem ajudar a reflorestar áreas devastadas por incêndios no Cerrado
Incêndio em área de Cerrado no Distrito Federal
Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

Uma solução para um problema crescente

Segundo a pesquisadora, plantar sementes dessas espécies nativas que resistem à passagem do fogo pode ser uma solução para recuperar grandes áreas destruídas por queimadas. Sobretudo no Cerrado, atualmente o bioma brasileiro que mais arde: segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), 46,8% do total de focos de incêndio registrados no país este ano ocorreu ali — quase 50 mil entre janeiro e outubro de 2025.

Vale lembrar que, no Cerrado, o fogo é um mecanismo natural de regeneração da vegetação — daí o fato de que muitas de suas espécies nativas tenham desenvolvido estratégias de resistência ao calor. O aumento das queimadas no bioma, porém, está relacionado à atividade agropecuária.

Para Elisangela Ronconi Rodrigues, doutora em Biologia Vegetal, e que não tem relação com o estudo de Giovana, a tese desenvolvida pela doutoranda pode de fato ajudar a restaurar áreas atingidas por incêndios. No entanto, é preciso enfatizar que o método não serve para todos os locais devastados do Brasil.

“O primeiro passo de uma restauração é fazer o diagnóstico da área e entender as particularidades do local. A dormência física ocorre em sementes de algumas espécies, mas não em todas. Assim, o método é interessante para áreas onde essas sementes têm mais chances de germinarem, como o Cerrado ou locais onde o clima é quente e com secas prolongadas”, diz Elisângela, que também é docente no Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU).

Kenny Tanizaki Fonseca, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador na área de florestas e reflorestamentos, é outro que também acredita no potencial de reflorestamento dessas espécies: “Esse método de usar sementes que possuem dormência física e menor chance de mortandade em áreas de queimada é uma estratégia interessante e de fácil implementação”.

Outro ponto relevante sobre reflorestamento, segundo os especialistas, é que a área a ser restaurada receba uma grande variedade de espécies para garantir a biodiversidade e aumentar a possibilidade de sucesso nessa restauração ecológica.

“Uma área doente, que é atingida por fogo, tem a capacidade de se recuperar naturalmente”, explica Rafael Bitante Fernandes, gerente de restauração florestal da SOS Mata Atlântica. “Mas é claro que, se isso ocorrer com frequência, é importante ajudarmos a natureza fazendo a restauração com a maior variedade de espécies possíveis, para tentar blindar a área. Como cada espécie tem suas particularidades, quanto mais diversidade tivermos num local, maior a chance de sucesso nessa restauração”.

Sementes resistentes ao fogo podem ajudar a reflorestar áreas devastadas por incêndios no Cerrado
Canafístula (Peltophorum dubium) florida no Distrito Federal
Foto: Boris Lessa, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

O método ideal de plantio

A pesquisa de Giovana ainda está em desenvolvimento, e sua tese deve ser publicada nos próximos meses. Mas ela já aponta caminhos para uma estratégia de reflorestamento com base nessas sementes que vem estudado.

Segundo a pesquisadora, o melhor método de plantio é o direto, já que ele é mais barato. Nele, as sementes são colocadas diretamente na terra, manualmente — ou mecanizada, dependendo do tamanho da área. Nessa técnica de semeadura, o solo não é remexido; apenas um pequeno buraco é aberto onde a semente será plantada.

“Com a semeadura direta, a restauração ecológica vai ocorrer de forma natural. Então, sugerimos que isso seja feito com essas sementes que são resistentes ao fogo, assim mesmo que a área seja queimada, elas vão resistir e germinar”, explica ela.

O outro método de reflorestamento usado no país é o plantio por mudas, em que o custo é maior. “Esse processo de criarmos as mudas e depois plantá-las nessas áreas devastadas é mais caro, porque precisamos de mão-de-obra para cultivar as mudas e depois para plantá-las. Diversas pesquisas nacionais já provaram que o plantio direto é uma maneira econômica e que tem bons resultados. Essa técnica é bastante usada na agricultura e podemos também usá-la na restauração ecológica”, diz Giovana.

As sementes estudadas por Giovana são de plantas pioneiras, ou seja, são as primeiras a chegarem em um ambiente degradado e estabelecer a primeira vegetação. Como são resistentes a condições adversas, elas germinam e protegem o solo para que outras espécies surjam ou possam ser plantadas na área em um segundo momento.

* Texto originalmente publicado pela agência Mongabay Brasil em 13/11/2025

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