Sem turistas, devido à pandemia do coronavírus, mergulhadores se unem a cientistas para restaurar a Grande Barreira de Corais da Austrália

Desde que foi decretada a pandemia pela OMS – Organização Mundial de Saúde e, por consequência, o isolamento social, os deslocamentos estão proibidos para evitar a disseminação ainda mais veloz do coronavírus. Nesse cenário, como já vimos em outras reportagens aqui e pela imprensa, os pontos turísticos ganharam tranquilidade e a natureza parece se restabelecer. Na região da Grande Barreira de Corais, na Austrália, não é diferente. Mas, em vez de lamentarem a falta de turistas, agentes e mergulhadores se uniram a cientistas para ajudar a restaurar os recifes, há muito tempo em risco de extinção.

Eles criaram um berçário em uma parte da barreira e estão plantando novos corais em recifes dessecados (isto é, fundindo um coral vivo a um antigo para revivê-lo) ao longo de sua extensão.

A operadora de mergulho Passions of Paradise (uma empresa familiar), com sede em Cairns, Queensland, por exemplo, “doou um catamarã de última geração (Passions III) e combustível para uma missão de plantio de coral no recife de Hastings“, contou seu diretor executivo Scott Garden, ao site Karryon. Em épocas normais de turismo, oferece pacotes de turismo para explorar cerca de 26 pontos na barreira.

Nessa missão, quatro funcionários da empresa trabalham ao lado do cientista Dr. David Dugget (à esquerda), da Universidade de Tecnologia de Sydney, que lidera o Coral Nurture Program (Programa de Nutrição de Corais, em tradução livre), e está fazendo pesquisas de resiliência. “Devido aos desafios logísticos de propagação e plantação de corais, proteger o coral existente e fazer tudo o que for possível para apoiar o crescimento e o assentamento larval são os primeiros passos vitais”, explicou o pesquisador em seu Twitter, em 3/12/2019.

O programa foi idealizado em 2018 para integrar operadores de turismo, mergulhadores e turistas em ações significativas não só para aumentar a cobertura de coral vivo, mas também para manter essa cobertura preservada. É financiado pelo Desafio de Abundância de Coral, que é um projeto do Governo da Austrália.

Na coordenação, estão quatro pesquisadores: Dugget, Ema Camp, John Edmondson e Lorna Howlett. Esta ressalta que o programa conta com o apoio de outras quatro empresas que também atuam nos recifes de Cairns e de Port Douglas: Wavelength, Ocean Freedom, Sailaway e Quicksilver. “É a primeira vez na Grande Barreira que os operadores turísticos trabalham ao lado de pesquisadores, inclusive para fazer o trabalho de clipagem dos corais (foto abaixo), que é a pedra-chave do programa”.

Independente da parceria com o Coral Nurture Program, cada uma dessas operadoras realiza atividades adicionais de conservação, sustentabilidade, pesquisa, educação ou participação comunitária.

Minimizar impactos, plantar novos corais e remover predadores

O trabalho realizado pelo Coral Nurture Program, não se limita a minimizar o impacto do turismo ou a plantar novos corais, mas também remover predadores dos corais, como estrelas-do-mar da Coroa de Espinhos e dos caracóis de Drupella. O plantio também segue algumas determinações como, por exemplo, plantar onde a cobertura foi afetada – por ações físicas como tempestades ou o crescimento excessivo, que pode quebrar os corais – para aumentar a abundância de corais; ou plantar em locais com boa cobertura para maximizar o potencial de crescimento.

“Ajudamos a equipe do Dr. David Suggett, da Universidade de Tecnologia de Sydney, que está realizando pesquisas de resiliência em um de nossos 26 locais”, contou Scott Garden, CEO da Passions of Paradise. “Eu tenho trabalhado com o biólogo marinho e coordenador de sustentabilidade ambiental da nossa empresa, Russell Hosp (que é um dos principais guias turísticos do recife, ao lado de Kirsty Whitman), no local na maioria das semanas, registrando dados para o projeto e estabelecendo um viveiro de corais”. No ano passado, o Coral Nurture Program plantou mais de mil peças de coral no recife de Hastings.

Nos últimos anos, a Grande Barreira de Corais tem sofrido com o branqueamento em massa, causado pelo aquecimento das temperaturas dos oceanos e à pressão nesse ambiente. A operadora Passions of Paradise planeja reiniciar os trabalhos de plantio assim que as ordens locais de abrigo forem liberadas na área, permitindo que os mergulhadores visitem outras partes do recife e ajudem nos esforços de conservação.

Esta parceria, que reúne uma organização de conservação, cientistas, operadoras e mergulhadores pela recuperação e preservação da natureza, resume a forma como precisamos lidar com a vida e os negócios depois que esta pandemia mundial passar. Fomos impedidos , “na marra”, de continuar predando o meio ambiente pelo prazer de usufruir.

Existe prazer – muito maior, inclusive – em respeitar e cuidar do que o planeta nos oferece de tão belo, mas que é finito, caso não compreendamos sua linguagem e dinâmica.

Vale acompanhar o Coral Nurture Program pelas redes sociais: Facebook, Instagram e Twitter.

Fotos: Divulgação/Coral Nurture Program

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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