Sea Shepherd reúne músicos de punk e metal em nova banda para alertar sobre a contaminação dos oceanos com metais pesados

Rodrigo Lima, do Dead Fish, Juninho Sangiorgio, dos Ratos de Porão, Iara Bertolaccini, ex-Blastfemme, e Dirk Verbeuren, da Megadeth, integram a 'Heavy Metals Band' em defesa dos oceanos, e estreiam com a música 'Ciclo Metal' nas plataformas de streaming e no YouTube

A convite da Sea Shepherd Brasil, os músicos Rodrigo Lima, vocalista da banda Dead FishJuninho Sangiorgio, baixista dos Ratos de PorãoIara Bertolaccini, ex-guitarrista da Blastfemme, e Dirk Verbeuren, baterista da Megadeth, se uniram e criaram a Heavy Metals Band para apoiar sua campanha #TireOPeixeDoSeuPrato em defesa dos oceanos.

Os quatro integrantes da nova banda são referência em seus estilos, mas há um detalhe que chama a atenção e que reforça a parceria com a Sea Shepherd. Todos seguem uma espécie de código de ética do punk rock, em que a conduta pessoal é tão importante quanto a profissional: nenhum deles come carne, são veganos ou vegetarianos e ativistas da causa animal.  

“Uma banda de heavy metal, chamada Heavy Metals, cantando sobre os heavy metals encontrados nos peixes?”, pergunta a organização.

Juninho explica: “Não fazemos julgamento de valor, mas apontamos para como afetamos o planeta com nossas escolhas. Poluir os mares com químicos, agrotóxicos, esgoto e metais pesados é prejudicial para todo mundo. Idem para a caça predatória. A mensagem é um alerta para todos”.

Na estreia, a banda lançou a música Ciclo Metal, que alerta quem se alimenta de peixes e outros animais marinhos sobre os riscos de contaminação de “metais pesados”, que nada têm a ver com o universo do rock ‘n’ roll

Em português e inglês (Metal Chain), a nova canção está disponível nas plataformas de streaming e o videoclipe no YouTube da Sea Shepherd (assista ao vídeoclipe no final deste post; a letra completa está reproduzida em seguida).

A organização ainda produziu um ebook esclarecedor, que vale muito baixar: Comer peixe faz mal para você e para o oceano.

“O que colocamos no oceano afeta a vida marinha e a nós mesmos”

A campanha da Sea Shepherd foi idealizada com base em estudos científicos realizados no Brasil, “que revelam que 100% das espécies de peixes pesquisadas tinham algum metal pesado em seu organismo. Entre os encontrados nos mares estão o mercúrio, o arsênio, o chumbo e o bário, que que se misturam à água e às algas marinhas. Elas são consumidas por pequenos animais, que se tornam alimento para animais maiores e, assim, vão acumulando essas substâncias até chegarem à mesa do ser humano”, destaca o ebook que citei acima.

Atum (em perigo de extinção), salmão (criado em fazendas aquáticas) e o tubarão, que no Brasil (o maior consumidor da espécie no mundo) é vendido como cação, estão entre os mais perigosos.

Diversos são os estudos (entre eles, este publicado pela National Library of Medicineque relacionam a ingestão de peixes – e, consequentemente, de metais pesados – com o aumento do risco de câncer e de outras complicações que afetam os sistemas nervoso, endócrino e reprodutivo. 

“À medida que mergulhamos, literalmente, mais fundo na consciência ambiental, entendemos que, não apenas as águas estão ficando doentes com a poluição, mas nós, como humanidade, também. O que colocamos no oceano afeta toda a vida marinha e, também, a nós mesmos”, explica Nathalie Gil, presidente da organização.

Por tudo isso, a campanha da Sea Shepherd sentencia que não procede a ideia de que é saudável se alimentar de peixe. “Tire o peixe do seu prato!”, diz o slogan. Melhor, ainda, seria: não coloque peixe no seu prato, deixe-o em paz no mar!

Celebração

Nas redes sociais, o vegano Rodrigo Lima celebrou a nova banda e a campanha da Sea Shepherd:

“Que seja mais uma forma de refletirmos sobre como estamos tratando o planeta, os animais e os seres humanos, em tempos de capitalismo tardio, decadentemente voraz e covarde. Que o veganismo seja parte dessa luta imensa pela libertação de todos os seres vivos deste planeta”.

Ele é um exemplo vivo de como os oceanos e a humanidade correm perigo. Teve problemas graves de saúde devido a mergulhos realizados em praias do Espírito Santo. No álbum, é ele quem canta a versão em inglês, “com sotaque brasileiro” porque “dá mais identidade à canção”. 

E Juninho comenta o vídeoclipe: “Transmitir essa mensagem com recurso audiovisual é uma maneira de atingir pessoas que talvez nunca tivessem acesso a esse tipo de conscientização. Esperamos que a banda possa fazer com que as pessoas repensem esse consumo, ou se conectem com outro tipo de iniciativa de proteção do oceano. O mar não foi feito apenas para gerar vida para as pessoas comerem, tem todo um ecossistema de equilíbrio que precisa ser respeitado”. 

Contaminação nas profundezas

A descoberta de dois crustáceos – ambos em 2020 – reforça a gravidade da contaminação dos oceanos. Existe um crustáceo, que vive nas profundezas e foi batizado em homenagem à banda Metallica – Macrostylis metallicola –, que apresenta nódulos de manganês em seu corpo.

Não é pra menos! Ele foi descoberto no Pacífico Norte, entre o Havaí e o México, numa área conhecida como Zona Charion Clipperton – fica entre 4 e 5 mil metros de profundidades – que tem sido alvo de pesquisas e exploração já que é rica de metais como cobre, níquel, manganês e cobalto.

A música de estreia da Heavy Metals Band fala dele: “Nos mares mais profundos tem um tipo de animal / Metalicolla é é o seu vulgo / Seu habitat é mineral / Ele dorme e anda / Em cima de metais /
Mas chumbo, arsênio, cromo / Ele não come jamais […] Quem come o que o bicho não come? / Quem come o que o bicho não come? / O homem! / O homem!”.

Macrostylis metallicola: crustáceo batizado em homenagem à banda Metallica por apresentar nódulos de manganês em seu corpo / Foto: Wikimedia Commons

Outra espécie de crustáceo, encontrada a 6.900 metros de profundidade na Fossa das Marianas – que fica entre placas tectônicas, no Oceano Pacífico, e tem abismos profundos de até 11 mil metros -, não tem metais pesados em seu corpo, mas plástico, devido ao descarte irresponsável promovido pelos seres humanos (contei sobre ele, aqui).

Foi batizado como Eurythenes plasticus pelos cientistas como forma de alertar o mundo para esse tipo de contaminação química. Dentro dele foi encontrado resíduo de PET (polietileno tereftalato), substância que compõe garrafas de água e fibras de muitos tecidos usados em roupas.

Eurythenes plasticus: crustáceo recebeu nome de plástico devido a resíduos de PET encontrados em seu organismo / Foto: divulgação ANP/WWF

CICLO METAL (letra) – Heavy Metals Band

Nos mares mais profundos
Tem um tipo de animal
Metallicola é o seu vulgo
Seu habitat é mineral

Ele dorme e anda
Em cima de metais
Mas chumbo, arsênio, cromo
Ele não come jamais

Sacrebleu!
Aí já é demais
Sacrebleu!
Aí já é demais

Quem come o que o bicho não come?
Quem come o que o bicho não come?
O homem!
O homem!

Que joga no rio no lago e no mar
Tudo quanto é metal
Sem saber que isso tudo vai voltar
Num sushi, cação ou bacalhau

Quem come o que o bicho não come?
Quem come o que o bicho não come?
O homem!
O homem!
O homem!

Peixe é metal radiação estomacal
Deixa eles lá
Pro mar se ajeitar

Peixe é metal empanado ou à provençal
Deixa ele em paz
Você vive mais

Arsênio
Mercúrio
Cádmio
Chumbo
Alumínio
Níquel
Crômio
Zinco
Cobre
Ferro
Manganês
Estrôncio
Vanádio
Titânio

Peixe é metal radiação estomacal
Deixa eles lá
Pro mar se ajeitar

Peixe é metal empanado ou à provençal
Deixa ele em paz
Você vive mais
Não seja Não seja idiota!
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Fontes: Sea Shepherd Br\asil, G1, Bilboard (depoimentos foram extraídos de sua reportagem)

Foto: divulgação/Sea Shepherd

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Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.