“Se não restabelecermos equilíbrio entre natureza e homem, pandemias como essa se tornarão mais comuns”, alertam cientistas

Uma “doença zoonótica” ou “zoonose” é uma doença que passou para o ser humano a partir de uma fonte animal. Suspeitas apontam que o SARS-CoV-2, o novo coronavírus, transmissor da COVID-19, é proveniente do morcego ou do pangolim. Da mesma maneira, animais estão na origem de outras pandemias que já tiraram a vida de milhares de pessoas, como Ebola, Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), febre do Nilo Ocidental e a gripe aviária.

Só até este momento, a COVID-19 já contaminou mais de 11 milhões de pessoas no mundo inteiro e foi responsável pela morte de mais de 535 mil.

“As pessoas olham para a pandemia da gripe espanhola no começo do século passado e pensam que esses surtos de doenças ocorrem apenas uma vez em cada século”, diz Maarten Kappelle, chefe de avaliações científicas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). “Mas isso não é mais verdade. Se não restabelecermos o equilíbrio entre o mundo natural e o humano, esses surtos se tornarão cada vez mais prevalentes”, alerta.

Um novo relatório divulgado hoje pela entidade, em parceria com o Instituto Internacional de Pesquisa Pecuária (ILRI) – Prevenir a Próxima Pandemia: Doenças Zoonóticas e Como Quebrar a Cadeia de Transmissão -, ressalta que 60% de todos os micróbios conhecidos por afetar os seres humanos são oriundos de animais.

“A ciência é clara ao dizer que, se continuarmos explorando a vida selvagem e destruindo os ecossistemas, podemos esperar um fluxo constante de doenças transmitidas de animais para seres humanos nos próximos anos”, afirma Inger Andersen, diretora do PNUMA. “As pandemias são devastadoras para nossas vidas e nossas economias e, como vimos nos últimos meses, as populações mais pobres e vulneráveis são as mais impactadas. Para evitar futuros surtos, precisamos ser mais conscientes sobre a proteção do meio ambiente”.

Se não mudarmos nossa relação com o meio ambiente e a vida selvagem, haverá surtos cada vez mais frequentes

Degradação ambiental, mudanças climáticas e consumo de carne

Números do novo estudo revelam que dois milhões de pessoas morrem, todos os anos, devido a doenças zoonóticas e nos últimos 20 anos elas provocaram perdas econômicas no valor de mais de 100 bilhões de dólares, sem contar a pandemia de COVID-19, que poderá custar 9 trilhões de dólares nos próximos anos.

Para os pesquisadores, entre as principais causas desse crescimento sem precedentes de zoonoses no mundo estão a degradação ambiental, incluindo aí o desmatamento, a exploração e o tráfico de animais silvestres e também, de recursos naturais -, além das alterações no clima do planeta e o aumento do consumo global de proteína animal e como consequência, a expansão agrícola intensiva e não sustentável.

“À medida que exploramos áreas mais marginais, estamos criando novas oportunidades de transmissão”, destaca Eric Fèvre, professor de doenças infecciosas veterinárias na Universidade de Liverpool e pesquisador do ILRI.

“Os vírus não precisam de passaporte. Você não pode lidar com essas questões nação por nação. Precisamos integrar nossas respostas para que a saúde humana, a saúde animal e a saúde do ecossistema sejam eficazes”, complementa Delia Grace, outra epidemiologista veterinária no ILRI e principal autora do relatório.

"Se não restabelecermos equilíbrio entre natureza e homem, pandemias como essa se tornarão mais comuns", alertam cientistas

Venda de carne de porco em um mercado no Vietnã

União de esforços e colaboração internacional

Para evitar futuras pandemias, os cientistas envolvidos no estudo recomendam que governos implementem medidas que aliem a proteção das saúdes humana, animal e ambiental, como frisou Delia Grace.

Abaixo algumas recomendações listadas pelos especialistas:

  • Incentivar pesquisas científicas sobre doenças zoonóticas;
  • Melhorar as análises de custo-benefício das intervenções para incluir o custo total dos impactos sociais gerados pelas doenças;
  • Aumentar a sensibilização sobre as doenças zoonóticas;
  • Fortalecer o monitoramento e a regulamentação de práticas associadas às doenças zoonóticas, inclusive de sistemas alimentares;
  • Incentivar práticas ​​de gestão sustentável da terra e desenvolver alternativas para garantir a segurança alimentar e meios de subsistência que não dependam da destruição dos habitats e da biodiversidade;
  • Melhorar a biossegurança, identificando os principais vetores das doenças nos rebanhos e incentivando medidas comprovadas de manejo e controle de doenças zoonóticas;
  • Apoiar o gerenciamento sustentável de paisagens terrestres e marinhas a fim de ampliar a coexistência sustentável entre agricultura e vida selvagem;
  • Fortalecer a capacidade dos atores do setor de saúde em todos os países

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Fotos: divulgação/ ILRI/HUPH/Ngan Tran (mercado Vietnã)/Stevie Mann (gado e olho do boi) e Andrew Nguyen (porco)

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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