Se nada for feito para conter a crise climática, 98% das colônias de pinguim-imperador podem ser extintas

Se nada for feito para conter a crise climática, 98% das colônias de pinguim-imperador podem ser extintas

Dentre as dezoito espécies de pinguins do mundo, o imperador (Aptenodytes forsteri) é a maior de todas. Pode pesar até 40 kg e viver 20 anos. Suas mais marcantes características são as orelhas e o peito amarelados. Depois de encontrarem um parceiro, em geral macho e fêmea ficam juntos para o resto da vida. O pinguim-imperador tem o mergulho mais profundo e longo que qualquer ave, frequentemente atingindo profundidades de mais de 200 metros.

A espécie consegue sobreviver perfeitamente às intempéries do clima da Antártica. Para manter o calor do corpo, o imperador possui uma camada dupla de penas e consegue ter grandes reservas de gordura. Seu bico e nadadeiras menores em comparação com outros pinguins também o ajudam a prevenir a perda de calor. Outra estratégia é estar sempre junto de seus pares para se aquecer, em grandes grupos, movendo-se em círculos de modo que cada um tenha espaço no centro aquecido.

Apesar de tudo isso, esta ave majestosa e única, tão admirada pelos seres humanos, está perdendo a batalha para a crise climática. Nas últimas décadas, as populações da espécie diminuíram em até 50% em alguns lugares e uma colônia na Península Antártica desapareceu completamente. E isso tem relação direta com o degelo no continente. Nos últimos 30 anos, houve uma redução de 60% na camada de gelo da região.

E um estudo divulgado recentemente alerta que, se realmente a temperatura do planeta aumentar 1,5oC até o final do século, como temem cientistas do clima – e o novo relatório do Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU traz um cenário sombrio sobre o tema -, 98% das colônias de pinguins-imperadores estarão praticamente extintas. Os poucos que sobrariam não seriam suficientes para ter o crescimento de uma população geneticamente segura para se reproduzir e garantir a sobrevivência da espécie.

“Os pinguins-imperadores são especialmente vulneráveis ​​às mudanças climáticas porque, como os ursos polares no Ártico, eles dependem do gelo marinho para atividades vitais como procriação, alimentação e muda. E não qualquer condição de gelo serve para os pinguins. A estabilidade é crucial”, ressalta Stephanie Jenouvrier, cientista e ecologista de aves do Instituto de Oceanografia Woods Hole, nos Estados Unidos, e principal autora do estudo publicado na Global Change Biology.

A especialista explica que a razão pela qual é importante ter uma plataforma espessa e estável de gelo marinho é que os filhotes dos pinguins, que são criados durante a temporada de reprodução no inverno, têm essa plumagem felpuda, mas precisam adquirir plumagem à prova d’água para poder sobreviver no mar em água fria. “Se o gelo marinho se romper muito cedo na temporada, eles não terão adquirido sua plumagem à prova d’água e se afogarão e morrerão nas águas da Antártica, portanto, será um fracasso total na reprodução”.

Baseado na atual situação em que os pinguins-imperadores se encontram de extremo risco para a extinção, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos propôs listar a espécie como ameaçada no “Endangered Species Act”, uma lista do governo americano que estabelece quais animais devem receber o status de proteção. O que torna a proposta diferente é que os pinguins não vivem em território americano, todavia, os cientistas acreditam que, como sua principal ameaça é a crise climática, é de responsabilidade dos Estados Unidos também fazer de tudo para evitar seu desaparecimento.

“Esta proposta é um passo importante para aumentar a conscientização sobre o impacto das mudanças climáticas”, destaca Stephanie. “Os pinguins-imperadores, como muitas espécies na Terra, enfrentam um futuro climático muito difícil”.

E ela enfatiza:

“Embora sejam encontrados na Antártica, longe da civilização humana, os pinguins-imperadores vivem em delicado equilíbrio com o meio ambiente, que hoje está mudando rapidamente. Se o mundo tomar ações agressivas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa agora, e os objetivos do Acordo de Paris sobre o Clima forem alcançados, os declínios serão muito menos severos”.

*Com informações adicionais do WWF

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Foto: Peter Kimball © Woods Hole Oceanographic Institution (abertura) e Paul Carroll on unsplash

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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