São Paulo para crianças e adolescentes

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As crianças e os adolescentes veem a cidade de São Paulo de uma forma mais positiva do que adultos. Este é um dos resultados que mais chamam a atenção no levantamento inédito realizado pela Rede Nossa São Paulo, pelo Instituto Alanapor meio de seu Projeto Prioridade Absoluta -, Instituto C&A e Ibope, em julho de 2015, que ouviu 805 paulistanos de 10 a 17 anos.

Com o objetivo de aferir o grau de satisfação de crianças e adolescentes com o município, a pesquisa identificou sua percepção a respeito de temas como saúde, educação, mobilidade, meio ambiente, esporte e lazer e segurança pública (É importante destacar que esta foi a primeira versão dos Indicadores de Referência de Bem Estar do Município (Irbem) – Criança e Adolescente. O levantamento já é realizado anualmente com o público adulto desde 2009).

Por isso, é possível fazer comparações como esta: enquanto, em 2014, os adultos atribuíram a nota 6,6 à metrópole, crianças e adolescentes deram-lhe 7,1 como revela o levantamento concluído em julho de 2015. Dentro do recorte da pesquisa (10 a 17 anos), quanto maior a idade do entrevistado, maior é o seu grau de insatisfação com a cidade.

O atributo com pior avaliação é a segurança pública, o que coincide com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) de 2014, que apontam a violência e a segurança como as maiores preocupações do brasileiro.

Nesse bloco, os entrevistados deram a nota mais baixa para o modo como as pessoas são tratadas pelos policiais: 4,2 em média. Entre as crianças e adolescentes de menor renda, a avaliação foi de 3,9. Este é um dado alarmante, pois a péssima imagem que se tem dos agentes de segurança pública contribui para a criação de um caldo de cultura baseado no medo e na desconfiança das instituições, que só fortalece o ciclo de violência.

Também impressiona a má avaliação sobre meio ambiente na cidade de São Paulo. O modelo de desenvolvimento urbano que aterrou, descaracterizou e poluiu seus três grandes rios (Tamanduateí, Tietê e Pinheiros) parece não ser condizente com o que as crianças e os adolescentes paulistanos almejam. Não à toa, em meio à grave crise de abastecimento no estado, a pior nota de todo o levantamento foi dada justamente ao item preservação de rios, lagos e represas: 4,1.

A mobilidade, tema urgente na agenda da capital paulista e das metrópoles brasileiras, sobretudo após os protestos de junho de 2013, também tem má avaliação entre crianças e adolescentes, principalmente nos itens que mais dizem respeito a esta faixa etária. A nota de satisfação com o respeito ao pedestre é de 5, 1; para o preço da tarifa, 4. Assim, o índice geral para o bloco modalidade foi de 5,8.

Na educação, setor que contou com protestos protagonizados por estudantes em todo o estado de São Paulo em 2015, a satisfação dos estudantes, sobretudo com o ambiente escolar, era maior do que a média de satisfação geral. A média atribuída ao conteúdo dos professores foi a mais alta do bloco: 8. O dia a dia na escola recebeu 7,5.

Talvez, aqui, haja indícios do quão grave é a ingerência sobre esse espaço de sociabilidade dos estudantes, tal como foi a tentativa da chamada reorganização escolar, suspensa pelo governo do Estado após a ocupação de cerca de 200 escolas estaduais.

Outra inferência que pode ser feita é que, no bloco educação, as piores notas atribuídas pelos adolescentes são destinadas às questões estruturais da escola: 6,4 para a limpeza e a conservação da escola e 6,8 às atividade culturais e artísticas nas escolas.

Não deixa de ser curioso que, durante as ocupações das escolas, estudantes se organizaram em mutirões para realizar faxinas e “reorganizar” materiais escolares abandonados em depósitos. Assim, transformaram as instituições de ensino em polos de efervescência cultural e educacional.

Claro que, em uma metrópole ainda tão desigual e repleta de desafios como São Paulo, os itens negativos tendem a ser realçados. No entanto, iniciativas como o Irbem – Criança e Adolescente fomentam o debate sobre o modelo de cidade que queremos. A defesa de uma cidade que respeita o meio ambiente, os direitos humanos e o bem estar de sua população passa, necessariamente, pela construção de um espaço público que se encaixa nas demandas das crianças e dos adolescentes desse município.

Uma cidade que atende necessidades e demandas de crianças e adolescentes tende a ser um espaço com maior respeito à diversidade, à acessibilidade e a todo o rol dos direitos humanos.

É importante que iniciativas como o Irbem – Criança e Adolescente sejam vistas como uma maneira de mapear as críticas e os desejos desses cidadãos e sirvam como guia para a implementação de políticas públicas voltadas para a construção de uma cidade mais justa. E justa será a cidade que contempla os anseios de crianças e adolescentes.

A pesquisa pode ser conferida, na íntegra, no site da Rede Nossa São Paulo.

Foto: Rovena Rosa/Fotos Públicas/Agência Brasil

Renato Godoy

Renato Godoy é pesquisador do Instituto Alana há dois anos e trata de temas relacionados a direitos da infância. É cientista social graduado pela Universidade de São Paulo e jornalista pela Faculdade Cásper Líbero.

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