
Há cinco anos, pelo menos, é discutida a transferência do elefante Sandro do Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, em Sorocaba (SP), para o Santuário dos Elefantes Brasil (SEB), na Chapada dos Guimaraes, no Mato Grosso. Ele é mantido no local desde 1982.
Em novembro de 2020, Sandro perdeu a companheira, Haisa – ela tinha mais de 60 anos e sofria de artrose; eles viviam juntos desde 1995 –, e ficou visivelmente triste e isolado. Como se não bastasse o comportamento depressivo, continuou vivendo num recinto insalubre e impróprio para um animal de seu porte.
Segundo a ANDA (Agência de Notícias de Direitos Animais), diversos laudos técnicos independentes, incluindo pareceres de veterinários, biólogos e especialistas em fauna silvestre, apontaram o estresse crônico, problemas físicos e psicológicos enfrentados por Sandro na época.

Foto: Zoológico de Sorocaba / divulgação
Ao G1, Jorge Marum, Promotor de Justiça do Meio Ambiente, alertou recentemente que Sandro precisa de um espaço maior para ter mais qualidade de vida. “O problema é o espaço que, para um animal daquele porte, é pequeno. O estilo de vida do animal precisa de um espaço grande para caminhar e formar grupos, e não viver solitário como está hoje”.

escuro e cheio de inflitrações – do Zoo de Sorobaca
Foto: Zoológico de Sorocaba / divulgação
Perdas e ganhos
Finalmente, em abril deste ano – a partir de uma ação civil pública movida pelo Ministério Público de São Paulo em parceria com a ANDA e o apoio da ONG Animais Importam –, a Justiça Federal ordenou a transferência de Sandro para o SEB, em 45 dias.
Mas a celebração durou pouco. Sob a gestão do tiktoker Rodrigo Manga, a prefeitura fez de tudo para atrasar o processo: enviou representantes para averiguar as condições do santuário no MT (imagina!) e entrou com recurso para adiar a transferência do elefante.
Na semana passada, a Justiça acatou o pedido e lhe deu mais 47 dias, o que gerou grande revolta na comunidade de defensores da causa animal.
Vitória emblemática
Ontem (25), finalmente, a Justiça Federal confirmou a libertação de Sandro. A decisão, que já transitou em julgado e não permite mais recursos, obriga a prefeitura a transferi-lo para o SEB, em até 30 dias.
Esta é, sem dúvida, “uma das vitórias mais emblemáticas da história recente da luta pelos direitos animais no Brasil”, destaca a ANDA em seu site.

“Esta não é apenas a libertação de um elefante, é a condenação de um modelo ultrapassado de exploração animal”, salienta Silvana Andrade, fundadora e presidente da organização.
“Sandro sobreviveu por décadas ao isolamento e a falta de bem-estar, agora a justiça brasileira reconhece, com firmeza, que nenhum ser senciente deve ser condenado ao cativeiro por conveniência humana”, completa a ativista.
E Letícia Filpi, diretora jurídica da ANDA, acrescenta: “É uma emoção muito grande ler a decisão do juiz. Agora, o cumprimento da ordem judicial de libertação de Sandro não depende da vontade da prefeitura, significa dizer que não há mais chance de recurso e a liberdade de Sandro está prestes a acontecer”.
E ela finaliza: “Esperamos que o município de Sorocaba cumpra com sua obrigação moral, civil e judicial, permitindo que este elefante, que já sofreu tantas atrocidades, finalmente conheça a liberdade que é seu direito fundamental”.
Agora, a expectativa se volta para a execução da sentença pela prefeitura de Sorocaba, que já deveria ter sido iniciada hoje. Caso o órgão administrativo não cumpra o que determinou a justiça, deverá pagar multa diária (R$ 2 mil) e ser responsabilizada judicialmente.
“A sociedade civil e organizações de proteção animal acompanharão de perto cada etapa do processo, garantindo que Sandro finalmente possa pisar em solo livre — um território de dignidade que há décadas lhe foi negado”, informa a ANDA.
O efeito Tamy
No início desta semana, na segunda-feira (23), o elefante Tamy – que há três meses era preparado pela equipe do SEB para ser transferido, em breve, do Bioparque de Mendoza, na Argentina, para o santuário do MT – morreu (contei aqui).

e certamente seria o companheiro de Sandro no santuário, no MT
Foto: SEB / divulgação
Ele ia tão bem na relação de confiança com os treinadores do SEB e já entrava espontaneamente na caixa de transporte. Quis o destino que ele morresse ali, onde tanto sofreu, e não pudesse usufruir do paraíso que acolheu sua filha Guillermina e sua companheira Pocha (que faleceu cinco meses depois de sua chegada), em maio de 2022.
A notícia da morte de Tamy – que certamente viveria no mesmo espaço de Sandro (apenas dois anos mais novo) no SEB porque os dois eram asiáticos – intensificou a atmosfera de urgência para sua libertação.
Como o elefante do zoológico de Sorocaba, o de Mendoza carregava as marcas de décadas de confinamento e sofrimento, revelando os impactos devastadores do cativeiro prolongado, como bem definiu a ANDA.
Agora, Sandro está a poucos dias do início de uma nova vida, que poderá ser desfrutada com dignidade, liberdade, bem-estar, respeito e amor.
Que ele ainda possa usufruir, nos últimos anos de sua jornada, do santuário fundado há nove anos numa área de mais de 40 mil metros quadrados (quase seis campos de futebol) da Chapada dos Guimarães, por especialistas superexperientes – que já fizeram mais de cem resgates ao redor do mundo. Não é à toa que o local se tornou reconhecido internacionalmente como referência no acolhimento de paquidermes resgatados de circos e zoológicos.
E pensar que Rodrigo Manga enviou representantes para verificar as condições do santuário…

Foto: divulgação
Pupy, um exemplo de recuperação
O Santuário de Elefantes Brasil já acolheu nove elefantas asiáticas (quatro delas falecidas) e a africana Pupy, que chegou em abril, vinda do Bioparque de Mendonza, o mesmo de Tamy.
Em poucas semanas, era visível sua recuperação em seu semblante e em seu ânimo para explorar as terras à volta de seu recinto. Seu andar mudou – às vezes, ela parece dançar – e a fraqueza de sua tromba diminuiu. Quase todos os dias, quem segue as redes sociais do SEB pode acompanhar as peripécias de Pupy. Impossível não se emocionar.

e caminhando em direção aos tratadores, agora sob a luz do sol lateral
Fotos: SEB / divulgação
Em breve, Pupy vai ganhar uma companheira: a africana Kenya (contei sobre as duas, aqui) que deixará o mesmo bioparque, na Argentina, a caminho do santuário.
Símbolo de uma nova era dos direitos animais
Para a ANDA, o caso de Sandro é um “símbolo da resistência do poder público em reconhecer os direitos dos animais como direitos legítimos e protegidos por lei”.
A organização, que liderou a ação contra a prefeitura de Sorocaba, reforça que “sua libertação também é um precedente fundamental para casos semelhantes no Brasil”, já que “rompe com séculos de normalização da exploração animal”.
“A decisão da Justiça é um divisor de águas: afirma que a liberdade, o respeito e a dignidade não são privilégios humanos, mas direitos de todos os seres sencientes. É a justiça finalmente dizendo que não há mais espaço para jaulas para animais em uma sociedade que se pretende civilizada”, finaliza a dirigente da ONG, Silvana Andrade.
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Foto: Zoológico de Sorocaba / divulgacão





Que notícia maravilhosa!!!
Não estava sabendo dessa decisão final.
Coração transbordando de felicidade!