‘Sampa + Rural’: selos identificam quem produz, comercializa e utiliza produção agrícola local

A cidade de São Paulo é surpreendente em muitos aspectos. Um deles, que me chama a atenção desde que atuei na Secretaria do Verde da Prefeitura, é como, em especial nas periferias, se produz alimento. Muita gente sequer sabe que isso acontece.

Seja em pequenas ou grandes propriedades, terrenos públicos ociosos, praças, hortas comunitárias e outros espaços, uma cidade ‘comestível’ se desenvolve pelas muitas São Paulo que compõem a capital paulista.

Sempre com bastante dificuldade, por muitas vezes sem o apoio de políticas públicas e a devida valorização da atividade de cultivar o alimento.

Selos colaborativos, lançados pelo projeto Ligue os Pontos – desenvolvido pela Prefeitura de São Paulo com apoio da Fundação Bloomberg – buscam ajudar justamente na valorização de quem produz alimento e também dos estabelecimentos que compram os alimentos desses agricultores e agricultoras, revelando uma São Paulo mais rural.

Valorizando quem produz e quem consome

São dois tipos de selos físicos. Um deles é entregue a iniciativas e produtores que integram a plataforma Sampa + Rural, que mapeia essa produção agrícola na cidade, e também organizações de apoio. É um reconhecimento a esses locais e iniciativas. Que sinaliza para os paulistanos, por exemplo, que um terreno ocioso ou uma praça são, muitas vezes, lugares de produção de alimento.

Neste selo há um QRCode, que uma vez acessado direciona os interessados ao perfil do local em questão na plataforma Sampa + Rural, com todas as informações sobre ele. Ao todo, 96 agricultores com contato estão integrados, sendo possível conhecer suas histórias e onde comprar seus produtos.

O segundo selo tem uma dinâmica ainda mais interessante. Voltado a estabelecimentos que comercializam ou consomem produtos de agricultores e agricultoras da cidade, é entregue pelos próprios produtores a quem compra seus produtos, ou ainda diretamente para estabelecimentos que apoiam a produção local.

Nesse segundo caso, a equipe da Sampa + Rural confirma com os agricultores se de fato o local é comprador de seus produtos.

Mercados, restaurantes, empórios, cafés, feiras, mercados e outras iniciativas se encontram nesta categoria. Este selo, além de valorizar a produção da cidade, destaca estabelecimentos que valorizam o comércio local e praticam o comércio justo.

E traz o nome do agricultor, sítio ou cooperativa cujos produtos são comercializados no local ou utilizados no preparo de alimentos.

Prato do agricultor

Uma das grandes defensoras da produção agrícola familiar local é a chef Paola Carosella, cujo restaurante, Arturito, é um dos estabelecimentos que possui o selo.

Em 2020, com a pandemia da covid-19 e o fechamento dos estabelecimentos ao público, uma das maiores preocupações da chef foi justamente não interromper a compra de produtos dos agricultores.

Consumidora dos produtos da Cooperapas, no extremo sul de São Paulo, ela conseguiu na verdade aumentar o volume de compra, e para dar visibilidade e bom uso a eles, criou no cardápio de delivery diário de seu restaurante, o Arturito, o Prato dos Agricultores.

O Prato dos Agricultores do dia era postado diariamente no perfil do restaurante no instagram, dando ainda mais visibilidade aos produtos e agricultores.

Mercados, feitas, outros restaurantes, grupos de consumo responsável e de entrega de orgânicos integram também a plataforma Sampa + Rural, promovendo a valorização dessa produção e praticando o comércio justo, remunerando adequadamente o produtor.

Acesso direto a mercados é um ponto fundamental para esses agricultores, pois a venda por meio de atravessadores desvaloriza o trabalho, não dá a devida visibilidade ao agricultor familiar e promove uma remuneração muito baixa pelos produtos.

Comprar diretamente dos produtores familiares e de quem utiliza seus produtos é apoiar um outro modelo de alimentação, de segurança alimentar, de acesso a produtos saudáveis. De valorização desses agricultores e agricultoras. De um outro modelo de cidade, mais sustentável, saudável e inclusiva.

Visibilidade é o começo da conversa

Como consumidora de produtos da agricultura familiar do sul da cidade de São Paulo, conheço e acompanho os desafios dos produtores rurais.

Embora 25% do território da cidade seja área rural, o Plano Diretor de São Paulo por muito tempo não considerou a existência dessa área, o que significa que todas as políticas públicas eram focadas em áreas urbanizadas, quando áreas rurais têm necessidades muito diversas da mancha urbana.

A revisão do Plano Diretor em 2013 valorizou e incluiu a zona rural, possibilitando pensar políticas públicas mais coerentes. Na esteira dessa revisão, ainda na gestão de Fernando Haddad, a Prefeitura de São Paulo ganhou um prêmio da Fundação Bloomberg com o Projeto Ligue os Pontos.

Os desafios dos produtores agrícolas são muitos. No extremo sul, por exemplo, área remanescente de Mata Atlântica que abriga grandes mamíferos como a onça parda e a anta, as propriedades onde são cultivados os alimentos formam uma espécie de ‘fronteira’ da cidade, ajudando a conservar a mata.

No entanto, não é de hoje que a especulação imobiliária vem comendo a mata. Por questões econômicas, muitas vezes os agricultores vendem suas propriedades e desistem de continuar a produzir.

A fiscalização dos órgãos públicos tem se mostrado ineficiente nesse processo e incapaz de conter sua expansão. O ex-vereador Gilberto Natalini denunciou reiteradamente o processo de devastação da mata a partir de um amplo dossiê demonstrativo.

Incentivos, apoio e políticas públicas fortes são fundamentais para que os agricultores e agricultoras permaneçam no cuidado da terra. Como também para engajar as novas gerações nesse cultivo.

O êxodo de jovens do campo tem relação com a questão financeira e também com a pouca valorização do trabalho do agricultor.

Dar visibilidade, valorizar, incentivar outro modelo de produção de alimentos, comprar diretamente de quem produz, tudo isso é muito importante.

Mas há uma série de problemas que políticas públicas e fiscalização precisam dar conta para de fato termos produção de alimento saudável, inclusão e cuidado com os remanescentes da Mata Atlântica da cidade.

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Edição: Mônica Nunes

Fotos: Mônica Ribeiro e divulgação Ligue os Pontos, respectivamente

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22 e com a AMAZ aceleradora de impacto. Atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

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