Sabores e saberes da Amazônia estão disponíveis para todo o Brasil, mas, para a bioeconomia crescer, é urgente estancar o desmatamento

Ontem foi o Dia da Amazônia, mas ela está em nossas mentes todos os dias, não só devido a tudo de bom que oferece, mas também, aos abusos que tem sofrido. Penso em tudo isso enquanto saboreio um café agroflorestal cultivado por agricultores familiares em Apuí, no sul do estado do Amazonas. Me lembro que essa região é uma das que mais sofre com queimadas e desmatamento, por estar na fronteira com Mato Grosso.

Segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), os focos de queimada na Amazônia registrados em agosto deste ano – mais de 3.500! – representam o maior valor para o mês desde 2002. No estado do Amazonas, o município de Apuí está entre os quatro com mais queimadas.

Não é de hoje que a Amazônia registra níveis recorde de desmatamento e queimadas, que notadamente se ampliaram nos últimos anos. O cientista Carlos Nobre, autor do projeto Amazônia 4.0 (saiba mais sobre ele no final deste post) já há muito aponta que o aumento do desmatamento pode levar à savanização da Amazônia, chegando a um ponto de não recuperação da floresta.

A bioeconomia, ou economia da floresta, é um novo caminho para gerar valor mantendo a floresta em pé. Há muitas iniciativas em andamento para tornar o uso do bioma mais virtuoso, explorando seus ativos (de forma sustentável) em indústrias de alimentos, cosméticos e medicamentos, além de toda arte e artesanato e conhecimento de seus povos. E

Além disso, o mercado de carbono voluntário se mostra promissor também para manter a floresta em pé.

Produtos que conservam a floresta

Sou uma consumidora de produtos sustentáveis da Amazônia. Tucupis, geleias, pimentas, molhos, óleos, guaranás, café, café de açaí, chocolates, cachaça de jambu, biocosméticos, biojóias fazem parte do meu dia a dia. É a minha contribuição para que negócios e iniciativas que têm como propósito também manter a floresta em pé prosperem.

O programa Amazônia em Casa, Floresta em Pé, sobre o qual já escrevi aqui, no Conexão Planeta, segue firme no propósito de abrir novos mercados para os produtos da sociobiodiversidade amazônica. Aqueles que conservam a biodiversidade e geram renda para as populações que lá habitam.

Iniciado em 2020, em plena pandemia, com o objetivo de ajudar empreendedores, isolados, a escoar e comercializar sua produção, vem crescendo e ajudando a trazer soluções para um dos grandes gargalos para a comercialização de produtos amazônicos: a logística e o transporte.

Hoje é possível comprar online uma grande quantidade de produtos de marcas amazônicas que geram impactos positivos para a floresta. A lista inclui cada vez mais marcas e produtos inovadores. Além dos itens que já citei acima, provei este ano, por exemplo, geleia de vitória-régia e manteiga de cupuaçu com cacau.

O Amazônia em Casa, Floresta em Pé conta, hoje, com 34 marcas, e a tendência é que esse movimento se expanda, encontrando, do lado de cá, consumidores preocupados em manter a floresta em pé e contribuindo com o consumo desses produtos.

Para quem vive na capital paulista, vale conhecer alguns desses produtos de perto no Instituto Chão, que terá uma gôndola especial só com eles em setembro, também considerado o mês da Amazônia.

E o Mercado Livre, parceiro do Amazônia em Casa, Floresta em Pé, traz também a iniciativa Biomas a um clique, que, além de produtos sustentáveis da Amazônia, oferece também itens da Caatinga, do Cerrado e da Mata Atlântica.

Bioeconomia precisa de tempo

A bioeconomia se estrutura cada vez mais na floresta, mas precisa de tempo. E por tempo, quero dizer que é preciso estancar o desmatamento e as queimadas na Amazônia.

A destruição da floresta, cujo potencial biodiverso mal conhecemos, contribui para o aquecimento do planeta e pode estar levando embora espécies e microorganismos sequer conhecidos.

Na Amazônia, por exemplo, temos o jaborandi, do qual uma substância em especial, a pilocarpina, é utilizada para produção de medicamentos de tratamento de glaucoma e também no tratamento de ‘boca seca’ – falta de saliva que ocorre em pessoas que usam medicação controlada e que passam por radioterapia, por exemplo.

Quem me contou isso foi a presidente da COEX Carajás (Cooperativa dos Extrativistas da Floresta Nacional de Carajás), Ana Paula Nascimento. A COEX, localizada no estado do Pará, coleta folhas de jaborandi e venda para a indústria farmacêutica, e também trabalha com coleta de sementes para reflorestamento.

Da floresta vem também a sabedoria dos povos originários, que nos deram, por exemplo, o tucupi, líquido extraído da mandioca que é típico da culinária paraense. Que hoje não falta em casa e que vem diretamente para a minha mesa, produzido por um desses negócios que geram impacto positivo para a floresta, a Manioca. Além da pimenta produzida pelos Baniwa.

Eleições e Amazônia

E aí eu te pergunto: em quem é que você vai votar neste ano? Para presidente, senador, deputado? A Amazônia pode colocar o Brasil na vanguarda ambiental do mundo – posição que já ocupou e, lamentavelmente, hoje, é um pária mundial nesse quesito.

Escolher bem nossos governantes e parlamentares é fundamental para que a conservação e a preservação da Amazônia, e de todos os outros biomas, esteja na pauta do dia. Precisamos da floresta em pé para sobrevivermos à emergência climática. Precisamos da floresta em pé porque ela tem muito a nos ensinar com toda a sua biodiversidade e sabedoria ancestral de seus povos.

Não só pela Amazônia, mas todos os outros biomas, que também sofrem, em maior ou menor grau, com a devastação. O cerrado por exemplo, berço de nossas águas, registrou crescimento de quase 30% entre janeiro e desmatamento de quase 30%, segundo o INPE.

Vote bem.

Edição: Mônica Nunes

Foto: TNeto/Pixabay

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Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, governos locais, políticas públicas, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para potencializar modos mais sustentáveis e diversos de estar no mundo.