‘Retalhar’ faz a logística reversa de uniformes e gera trabalho e renda para cooperativas de costura

'Retalhar' faz a logística reversa de uniformes e gera trabalho e renda para cooperativas de costura

A logística reversa ainda é um capítulo mal resolvido na Política Nacional de Resíduos Sólidos, em especial em sua parte social, que destaca o envolvimento de cooperativas de catadores de materiais e de reciclagem em seu ciclo.  

Aqui entra o trabalho de empresas como a Retalhar que, além de dar destinação adequada e reciclar uniformes usados de grandes empresas, produz a partir deles, em parceria com cooperativas da economia solidária, acessórios e cobertores.

Uniformes que já vestiram trabalhadores e trabalhadoras de diferentes áreas de atuação se convertem em cobertores que são distribuídos para populações em situação de vulnerabilidade depois de higienizados e desfibrados.

O tecido desfibrado é também utilizado em materiais agregados na construção civil e na indústria automotiva.

Assim, o que não é transformado pela Retalhar em novos itens tem outros destinos traçados. O trabalho, diz Jonas Lessa, um dos fundadores da empresa, é ‘aterro zero’.

'Retalhar' faz a logística reversa de uniformes e gera trabalho e renda para cooperativas de costura
Jonas, na cabeça da mesa, participa de workshop da rede ‘Fabric of Change’,
no Canadá, em 2017 – Foto: Divulgação

Trabalho movimenta cooperativas solidárias

O trabalho de cooperativas de costura que sofreram bastante com os efeitos da pandemia – na transformação de materiais que teriam como destino os aterros sanitários é fascinante.

Em São Paulo, acompanho o trabalho de duas das cooperativas que trabalham com a Retalhar há alguns anos: a Charlottesobre a qual já escrevi aqui, no Conexão Planeta, em 2017 – e a Cardume de Mães.

São grupos produtivos da economia solidária, compostos por mulheres que muitas vezes trabalham em suas próprias casas, na produção de acessórios a partir de matérias primas reutilizáveis como os uniformes, tecido de estofamento de carros e banners, por exemplo.

Essas mulheres, em sua maioria na faixa dos 50 anos, com pouco espaço no mercado de trabalho formal, dominam as técnicas da costura e transformam tudo isso, pelo processo conhecido como Upcycling (que transforma um produto em outro completamente diferente) em mochilas, pastas, necessaires, bolsas, sacolas, pochetes, jogos americanos, enfim, um mundo de possibilidades.

'Retalhar' faz a logística reversa de uniformes e gera trabalho e renda para cooperativas de costura
Foto: Sharon Mccutch/Unsplash

Os itens são feitos sob encomenda, geralmente por empresas que querem distribuir brindes entre seus funcionários e parceiros, ou mesmo em eventos em que bolsas customizadas são distribuídas entre os participantes (coisa mais rara nesses tempos de covid-19).

Uma mochila que é praticamente um banco de carro, com os cintos de segurança como alças, criada por uma dessas cooperativas, a Tecoste, segue comigo há alguns anos, e é muito companheira em todas as ocasiões, além de ser extremamente bem costurada e resistente.

Em parceria com o Design Possívelsobre o qual já escrevi aqui, quando trabalhei na Secretaria do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, também encomendamos sacolas de algodão reciclável de cooperativas de costura para a campanha Eu não sou de plástico.

Nessa época, o debate sobre trocar sacolas de plástico por outro tipo de material, retornável e/ou permanente, ainda engatinhava em São Paulo e no país e gerava acalorados debates.

Impactos positivos

As encomendas que chegam pela Retalhar para esses grupos produtivos normalmente são de empresas com as quais o serviço principal é promover a logística reversa dos uniformes.

Jonas destaca que o valor pago às cooperativas pela Retalhar costuma ser de duas a três vezes maior do que o que é remunerado por outros clientes, e que a empresa ajudou a gerar mais de meio milhão de reais para trabalhadores e trabalhadoras em situação de vulnerabilidade.

Dependendo do volume e do prazo de entrega dos itens encomendados por outras empresas à Retalhar, é preciso agregar mais cooperativas para dar conta da entrega.

Para garantir que os grupos produtivos que trabalham com a empresa deem condição de trabalho justas a seus integrantes, a Retalhar fechou uma parceria com o Instituto Alinha, plataforma que assessora empreendedores de pequenas oficinas a regularizarem seus negócios e os conecta com marcas e estilistas interessados em contratar uma oficina, garantindo preços e prazos justos.

O impacto socioambiental positivo está presente em todo o trabalho. A empresa, que começou o trabalho com reaproveitamento de sobras de tecido de uma fábrica de uniformes, logo percebeu que ainda mais importante do que isso era a atuação no pós-consumo.

Indústria têxtil e pós-consumo

'Retalhar' faz a logística reversa de uniformes e gera trabalho e renda para cooperativas de costura
Foto: Sharon Mccutch/Unsplas

A indústria têxtil é uma das mais poluentes do mundo e, no Brasil, sua logística reversa não está plenamente resolvida. As fibras mais comumente utilizadas são o algodão – que demanda muita água em sua produção e muitas vezes pesticidas – e o poliéster – que é uma espécie de plástico de difícil degradação.

No caso dos uniformes, trocados em bases anuais ou em períodos ainda menores, o desafio das empresas é dar a destinação adequada, atendendo à legislação e também evitando problemas de segurança com reuso desses uniformes em golpes e outras malfeitorias.

A Retalhar recolhe esse material, dá a destinação adequada, promove o reuso de boa parte dele e, como já dito acima, encaminha os resíduos não usados para as indústrias da construção civil e automotiva.

Mais recentemente, a empresa deu um ‘passo atrás’, no sentido de oferecer o serviço de pensar a cadeia de vida desses uniformes desde seu desenho e escolha de materiais mais amigáveis ao meio ambiente e passíveis de reutilização para confecção, até a destinação final.

Ela é uma consultoria de soluções integradas e preventivas, que pensa todo o ciclo de vida dessas peças – processos, produtos e resíduos têxteis, facilitando a efetivação da economia circular.

A empresa, que acaba de se recertificar pelo Sistema B (organização que busca redefinir o conceito de sucesso nos negócios: sucesso não é mais ser a melhor empresa DO mundo, e sim a melhor empresa PARA o mundo), ganhou o prêmio Empreendedor Social em 2016, além de vários outros reconhecimentos, o mais recente este ano, no ChangemakerXchange, uma comunidade global de jovens inovadores sociais.

Edição: Mônica Nunes

Foto (destaque): Cottonbro/Pexels

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

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