Restaurar 30% das áreas degradadas pode salvar 70% das espécies em risco de extinção e absorver quase metade do carbono da atmosfera

Esta é a conclusão do estudo realizado sob a liderança do pesquisador brasileiro Bernardo Strassburg, diretor executivo do Instituto Internacional para a Sustentabilidade (IIS) e professor no Departamento de Geografia e Meio Ambiente da PUC-Rio. A pesquisa ganhou repercussão mundial na semana passada, quando a revista científica Nature publicou, em 14 de outubro, o artigo Global Priority Areas for Ecosystem Restoration (Áreas de Prioridade Global para Restauração de Ecossistemas) assinado por Strassburg e a equipe de 27 cientistas de 12 países, que liderou.

O estudo encomendado pela Convenção da Diversidade Biológica (CBD), da Organização das Nações Unidas (ONU), indica que 30% das áreas de vegetação natural devastadas no mundo – , para dar lugar a atividades agropecuárias, podem ser restauradas com dois resultados bastante positivos e importantes para a vida no planeta:

Eles identificaram mais de 29 milhões de quilômetros quadrados de áreas restauráveis em todos os continentes e em todos os tipos de biomas, como florestas e desertos

  • salvar 72% das espécies ameaçadas de extinçãoquase 400 mil espécies terrestres, mas estão considerados mamíferos, anfíbios e pássaros – e
  • absorver quase metade do carbono da atmosferaou mais de 465 bilhões de toneladas de dióxido de carbono -, emitido desde a Revolução Industrial, ou seja, nos últimos dois séculos, e que é responsável pelo aquecimento global.

Com mais um detalhe: sem prejudicar a produtividade do setor invasor.

“Fomentar os planos de restauração de ecossistemas para seu estado natural é fundamental para evitar que as presentes crises climáticas e as ameaças à biodiversidade saiam do controle”, declara Strassburg no site do IIS. “As urgências mundiais relacionadas ao clima, à biodiversidade e às questões orçamentárias exigem soluções que possam lidar com todos esses aspectos, e nosso trabalho as oferece”.

A identificação de áreas prioritárias

Para chegar a esses números, os pesquisadores identificaram as áreas prioritárias para a revegetação. “A localização é o fator mais importante para os esforços de restauração que almejem resultados profundos em prol das metas de biodiversidade, clima e segurança alimentar. De acordo com o estudo, a restauração pode ser treze vezes mais eficaz quando feita em locais de maior prioridade”, relata o site do ISS.

Os pesquisadores também cruzaram mapas mundiais da agropecuária com dados de espécies ameaçadas da lista da IUCN – União Internacional para Conservação da Natureza.

Em seguida, eles compararam o resultado com o custo de restauração de cada bioma, que varia de acordo com a região. E, assim, os pesquisadores identificaram terras nas quais a revegetação custa menos e traz mais benefícios.

As áreas prioritárias globais se concentram em países de clima tropical, como o Brasil, que aparece, na pesquisa, como “uma potência da restauração de ecossistemas“.

Para chegar às áreas identificadas, eles fizeram uma comparação importante entre o resultado em 30% de áreas prioritárias no mundo, sem levar em conta o país em que ficam, e em 30% de áreas prioritárias dentro de cada país – como se cada um fosse restaurar 30% de suas áreas convertidas pela agropecuária.

O custo-benefício da primeira proposta é melhor do que o da segunda. Isto implica em negociações diplomáticas que compensem países tropicais pela recomposição vegetação natural que beneficiaria todo o mundo.

Muito além das florestas

Poconé, no Mato Grosso – Foto: Flávio André/Embratur

Strassburg destaca que estudos anteriores que focam na recuperação vegetal dão destaque às florestas e à reflorestação, praticamente ignorando o papel da “restauração de pastagens nativas e de outros ecossistemas, cuja destruição seria extremamente  prejudicial para a biodiversidade e deve ser evitada”. E acrescenta:

“A restauração de florestas gera benefícios extremamente importantes e comprovados, porém, nosso estudo mostra que restaurar uma variedade maior de ecossistemas – pântanos, ecossistemas áridos, estepes… – pode beneficiar ainda mais a biodiversidade e contribuir mais para os objetivos climáticos”.

Aliás, as zonas úmidas (wetlands), como o Pantanal, a maior área alagável do planeta, têm papel importantíssimo nesse estudo, que é de 2017, quando esse bioma ainda não queimava como hoje.

Por isso, a publicação do artigo é como uma benção neste momento em que quase 30% do Pantanal já foi destruída. O estudo é mais uma prova de que sua proteção – com a prevenção de incêndios a partir da criação de brigadas permanentes – e sua restauração precisam ser feitas com urgência.

Estudo deve pautar negociações sobre biodiversidade e clima

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Mico leão-dourado – Foto: Art G./Creative Commons/Flickr

Em quanto tempo os pesquisadores acreditam que seria possível fazer a recomposição de 860 milhões de hectares – quase um Brasil! -, objetivando os resultados indicados? Trata-se de uma tarefa difícil, claro, mas eles acreditam que seria possível finalizá-la até 2050.

E como isso pode se tornar viável? A partir do compromisso de todas as nações e da definição de mecanismos internacionais de compensação àquelas que fizerem investimentos mais vultuosos em programas de restauração.

Por isso, o resultado do estudo liderado por Bernardo Strassburg deve subsidiar as negociações no próximo encontro da Convenção da Diversidade Biológica (CBD), em 2021, em Kunming, na China, que resultarão na definição (e adoção) de metas para 2030 (médio prazo) e 2050 (longo prazo).

O estudo tem David Cooper, secretário executivo da CBD, como coautor. A expectativa é de que um tratado mundial de proteção à natureza seja assinado nesse encontro.

No mês passado, a ONU publicou o quinto relatório do Panorama Global da Biodiversidade (Global Biodiversity Outlook 5 ou GBO-5) e alertou que estamos prestes a perder um milhão de espécies nas próximas décadas e que 193 países, incluindo o Brasil, não cumpriram as 20 metas definidas em 2010 para deter a perda da biodiversidade até 2020, batizadas de Metas de Aichi. Entre elas, está a meta de restaurar 15% dos ecossistemas do planeta (ela embasou o estudo de Strassburg e sua equipe).

O estudo também deve pautar as negociações sobre clima para redução da emissão de gases do efeito estufa da COP26, que seria realizada em novembro, mas foi adiada para 2021 devido à pandemia.

Foto: Flávio André, Embratur (Boca da Onça, na Serra da Bodoquena)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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