
Fundado em 1945 por Albert Einstein, J. Robert Oppenheimer e cientistas da Universidade de Chicago que ajudaram a desenvolver as primeiras armas atômicas no Projeto Manhattan, o Bulletin of the Atomic Scientists – BAS ((Boletim dos Cientistas Atômicos) criou o Relógio do Juízo Final (do Fim do Mundo ou do Apocalipse) dois anos depois, usando a imagem do apocalipse (meia-noite) e o idioma contemporâneo da explosão nuclear (contagem regressiva para zero) para transmitir ameaças à humanidade e ao planeta.
O Relógio é atualizado todos os anos pelo Conselho de Ciência e Segurança (SASB, na sigla em inglês) da organização, com o apoio de seu conselho de patrocinadores, que inclui nove ganhadores do Nobel. O Relógio se tornou um indicador universalmente reconhecido da vulnerabilidade do mundo à catástrofe global causada por tecnologias produzida pelo ser humano.
Lançado no período pós-guerra, em meio ao temor nuclear, na ocasião o relógio marcava sete minutos para a meia-noite. Desde então, ele é adiantado ou atrasado de acordo com o tamanho do risco de aniquilação da humanidade (representado pela meia-noite). Seja devido a uma possível guerra nuclear ou, mais recentemente, pelas ameaças combinadas entre guerra nuclear e mudanças climáticas.
Ontem (28), durante a apresentação do SASB à imprensa, ele foi ajustado: restam apenas 89 segundos para o fim do mundo. Este é o pior índice em 78 anos. Nosso tempo está se esgotando e estamos mais próximos de uma catástrofe global. Para os especialistas que compõem o SASB, nosso futuro nunca foi tão incerto quanto agora.

Foto: reprodução de vídeo
Ameaças globais
Para fazer o ajuste, os pesquisadores levaram em conta diversas ameaças globais, entre elas, a crise climática – 2024 foi o ano mais quente já registrado, marcado por furacões, queimadas, tempestades e enchentes avassaladores -; o risco nuclear (devido à guerra entre Rússia e Ucrânia); tensões geopolíticas tecnologias disruptivas como ainteligência artificial; a disseminação da desinformação e de teorias da conspiração; e ameaças biológicas.
“As tendências que preocuparam profundamente o Conselho de Ciência e Segurança continuaram e, apesar dos sinais inequívocos de perigo, os líderes nacionais e suas sociedades falharam em fazer o que é necessário para mudar de rumo. Consequentemente, agora movemos o Relógio do Juízo Final de 90 segundos para 89 segundos para a meia-noite – o mais próximo que já esteve de uma catástrofe. Nossa esperança fervorosa é que os líderes reconheçam a situação existencial do mundo e tomem medidas ousadas para reduzir as ameaças representadas pelas armas nucleares, mudanças climáticas e o potencial uso indevido da ciência biológica e uma variedade de tecnologias emergentes”, destaca a declaração do Boletim (leia o texto na íntegra, em inglês, aqui, e, em português, mais adiante).
Na verdade o relógio avisa o que os cientistas vêm dizendo há décadas: se quisermos sobreviver, precisamos agir já!
Pode soar exagerado, mas o alerta faz sentido porque, de fato, estamos vivendo crises simultâneas que ainda não causaram o fim da nossa espécie, mas constantemente provocam a morte de milhões de pessoas, em especial nas áreas mais pobres e vulneráveis do planeta.
O grupo de cientistas do BAS acredita que o relógio é uma ferramenta necessária para ampliar a conscientização e estimular a ação. “Os líderes nacionais devem iniciar discussões sobre esses riscos globais antes que seja tarde demais”, destacou Daniel Holz, PhD, Presidente do SASB, e professor da Universidade de Chicago, em nota. “Refletir sobre essas questões de vida ou morte e iniciar um diálogo são os primeiros passos para fazer o relógio retroceder e se afastar da meia-noite”.
E Juan Manuel Santos, presidente do The Elders, ex-presidente da Colômbia e ganhador do Prêmio Nobel da Paz, acrescenta: “Cada segundo conta”.
A atuação do comitê
Duas vezes ao ano, especialistas com profundo conhecimento em tecnologia nuclear e ciência climática, que integram o SASB, se reúnem para discutir sobre eventos mundiais e alterar o relógio. Mas, antes de tomarem uma decisão, consultam cientistas de disciplinas variadas e integrantes do Conselho de Patrocinadores do Boletim, que inclui nove ganhadores do Prêmio Nobel.
Este ano, a apresentação da atualização do relógio à imprensa (foto de destaque), em 28/1, coube a:
– Juan Manuel Santos (ao lado esquerdo do relógio, na foto), presidente do The Elders, ex-presidente da Colômbia e ganhador do Prêmio Nobel da Paz;
– Daniel Holz (à esquerda, na foto), professor da Universidade de Chicago e presidente do SASB;
– Manpreet Sethi, PhD, bolsista ilustre do Centro de Estudos de Energia Aérea em Nova Delhi, na Índia, e membro do SASB (por videoconferência);
– Herb Lin, pesquisador sênior em política e segurança cibernética no Centro de Segurança e Cooperação Internacional e membro do SASB;
– Hank J. Holland, fellow em Política e Segurança Cibernética na Hoover Institution da Universidade Stanford;
– Suzet McKinney (única mulher da foto), membro do SASB e diretora de Ciências Biológicas da Sterling Bay; e
– Robert Socolow (ao lado direito do relógio na foto), professor emérito do Departamento de Mecânica e membro do SASB.
Declaração do Boletim, na íntegra
Mais perto do que nunca: agora faltam 89 segundos para a meia-noite
“Em 2024, a humanidade se aproximou cada vez mais da catástrofe. As tendências que preocupavam profundamente o Conselho de Ciência e Segurança continuaram e, apesar dos sinais inconfundíveis de perigo, os líderes nacionais e suas sociedades falharam em fazer o que era necessário para mudar o curso. Consequentemente, agora movemos o Relógio do Juízo Final de 90 segundos para 89 segundos para a meia-noite — o mais próximo que já esteve da catástrofe.
Nossa esperança fervorosa é que os líderes reconheçam a situação existencial do mundo e tomem medidas ousadas para reduzir as ameaças representadas por armas nucleares, mudanças climáticas e o potencial uso indevido da ciência biológica e de uma variedade de tecnologias emergentes.
Ao ajustar o Relógio um segundo mais perto da meia-noite, enviamos um sinal claro: como o mundo já está perigosamente perto do precipício, um movimento de até mesmo um único segundo deve ser tomado como uma indicação de perigo extremo e um aviso inconfundível de que cada segundo de atraso na reversão do curso aumenta a probabilidade de desastre global.
Em relação ao risco nuclear, a guerra na Ucrânia, agora em seu terceiro ano, paira sobre o mundo; o conflito pode se tornar nuclear a qualquer momento por causa de uma decisão precipitada ou por acidente ou erro de cálculo. O conflito no Oriente Médio ameaça sair do controle e se transformar em uma guerra maior sem aviso. Os países que possuem armas nucleares estão aumentando o tamanho e o papel de seus arsenais, investindo centenas de bilhões de dólares em armas que podem destruir a civilização.
O processo de controle de armas nucleares está entrando em colapso, e os contatos de alto nível entre as potências nucleares são totalmente inadequados, dado o perigo em questão. Alarmantemente, não é mais incomum que países sem armas nucleares considerem desenvolver seus próprios arsenais — ações que prejudicariam os esforços de não proliferação de longa data e aumentariam as maneiras pelas quais a guerra nuclear poderia começar.
Os impactos das mudanças climáticas aumentaram no último ano, pois uma miríade de indicadores, incluindo o aumento do nível do mar e a temperatura da superfície global, superaram recordes anteriores. As emissões globais de gases de efeito estufa que impulsionam as mudanças climáticas continuaram a aumentar. Eventos climáticos extremos e outros eventos influenciados pelas mudanças climáticas — inundações, ciclones tropicais, ondas de calor, secas e incêndios florestais — afetaram todos os continentes.
O prognóstico de longo prazo para as tentativas do mundo de lidar com as mudanças climáticas continua ruim, pois a maioria dos governos não consegue promulgar as iniciativas de financiamento e políticas necessárias para deter o aquecimento global. O crescimento da energia solar e eólica tem sido impressionante, mas continua insuficiente para estabilizar o clima.
A julgar pelas recentes campanhas eleitorais, as mudanças climáticas são vistas como baixa prioridade nos Estados Unidos e em muitos outros países.
Na área biológica, doenças emergentes e reemergentes continuam a ameaçar a economia, a sociedade e a segurança do mundo. O aparecimento fora de temporada e a continuidade na temporada da gripe aviária altamente patogênica (HPAI), sua disseminação para animais de fazenda e laticínios e a ocorrência de casos humanos se combinaram para criar a possibilidade de uma pandemia humana devastadora.
Supostamente, laboratórios biológicos de alta contenção continuam a ser construídos em todo o mundo, mas os regimes de supervisão para eles não estão acompanhando o ritmo, aumentando a possibilidade de que patógenos com potencial pandêmico possam escapar.
Avanços rápidos em inteligência artificial aumentaram o risco de que terroristas ou países possam atingir a capacidade de projetar armas biológicas para as quais não existem contramedidas.
Uma série de outras tecnologias disruptivas avançaram no ano passado de maneiras que tornam o mundo mais perigoso. Sistemas que incorporam inteligência artificial em alvos militares foram usados na Ucrânia e no Oriente Médio, e vários países estão se movendo para integrar inteligência artificial em seus militares. Tais esforços levantam questões sobre até que ponto as máquinas poderão tomar decisões militares — mesmo decisões que podem matar em grande escala, incluindo aquelas relacionadas ao uso de armas nucleares.
As tensões entre as principais potências são cada vez mais refletidas na competição no espaço, onde a China e a Rússia estão desenvolvendo ativamente capacidades antissatélite; os Estados Unidos alegaram que a Rússia testou um satélite com uma ogiva fictícia, sugerindo planos para colocar armas nucleares em órbita.
Os perigos que acabamos de listar são grandemente exacerbados por um potente multiplicador de ameaças: a disseminação de desinformação, desinformação e teorias da conspiração que degradam o ecossistema de comunicação e cada vez mais confundem a linha entre a verdade e a falsidade. Os avanços na IA estão tornando mais fácil espalhar informações falsas ou inautênticas pela internet — e mais difícil detectá-las.
Ao mesmo tempo, as nações estão se engajando em esforços transfronteiriços para usar desinformação e outras formas de propaganda para subverter eleições, enquanto algumas tecnologias, mídia e líderes políticos ajudam a espalhar mentiras e teorias da conspiração. Essa corrupção do ecossistema de informações prejudica o discurso público e o debate honesto dos quais a democracia depende.
O cenário de informações maltratado também está produzindo líderes que desconsideram a ciência e se esforçam para suprimir a liberdade de expressão e os direitos humanos, comprometendo as discussões públicas baseadas em fatos que são necessárias para combater as enormes ameaças que o mundo enfrenta.
Continuar cegamente no caminho atual é uma forma de loucura. Os Estados Unidos, a China e a Rússia têm o poder coletivo de destruir a civilização. Esses três países têm a responsabilidade principal de tirar o mundo do abismo, e podem fazer isso se seus líderes iniciarem seriamente discussões de boa-fé sobre as ameaças globais descritas aqui. Apesar de suas profundas divergências, eles devem dar o primeiro passo sem demora. O mundo depende de ação imediata.
Faltam 89 segundos para a meia-noite”.
A aproximação do fim do mundo desde 1947

Foto: divulgação
Veja o movimento dos ponteiros ao longo dos anos:
– 1947: o relógio foi lançado com 7 minutos para a meia-noite;
– 1953: os ponteiros chegaram a 2 minutos para a meia-noite após os testes de bombas de hidrogênio feitos pelos EUA e pela URSS;
– 1991: este foi o ano em que os ponteiros ficaram mais distantes da meia-noite (17 minutos): após o fim da Guerra Fria e a assinatura do Tratado de Redução de Armas Estratégicas (START). E o relógio manteve-se assim até 1994;
– 1995 a 1997: 14 minutos para meia noite;
– 1998 a 2001: 9 minutos para meia noite;
– 2002 a 2006: 7 minutos para meia noite;
– 2007 e 2009: 5 minutos para meia noite;
– 2010 e 2011: os ponteiros retrocederam, marcando 6 minutos para a meia noite;
– 2012 a 2014: voltaram aos 5 minutos para meia noite;
– 2015 e 2016: 4 minutos para a meia noite;
– 2017: 2,5 minutos para a meia noite;
– 2018 e 2019: 2 minutos para meia noite;
– 2020-2021-2022: o ano de 2020 marcou 100 segundos (1 minuto e 40 segundos minuto, foto abaixo) para a meia-noite e esta foi a primeira vez em que o resultado foi apresentado em segundos, em vez de minutos, mantendo-se assim nos dois anos seguintes, certamente devido à pandemia da covid-19;
– 2023-2024: Ajustados para 90 segundos (1,5 minuto) em 2023, refletiu o aumento do risco de ameaças nucleares, das mudanças climáticas e da IA, e os ponteiros mantiveram-se assim em 2024.
A seguir, assista ao vídeo produzido pelo Boletim de Cientistas Atômicos sobre o novo índice:
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Foto: divulgação
Com informações do Boletim dos Cientistas Atômicos




