‘Relógio do Fim do Mundo’ indica que mudanças climáticas e risco de uma guerra nos aproximam do apocalipse. Amazônia é citada

O simbólico Relógio do Fim do Mundo ou do Dia do Juízo Final está mais mais perto da meia-noite do que em qualquer momento desde que foi criado por cientistas, em 1947. Isso significa que a humanidade está passando por um dos períodos mais graves e perigosos e a ação urgente é vital.

Agora, ele está sendo expresso em segundos e não mais em minutos, como até o ano passados quando apontava dois minutos. Foi o que se viu ontem, em Washington DC, no encontro organizado pelo Boletim do Conselho de Ciência e Segurança dos Cientistas Atômicos, que conta com o apoio de um conselho de 13 ganhadores do Prêmio Nobel. Desde ontem, no Relógio do Dia do Juízo Final faltam apenas 100 segundos para meia-noite.

Guerra nuclear e mudanças climáticas

“O mundo precisa acordar! Nosso planeta enfrenta duas ameaças existenciais simultâneas”, alertou Mary Robinson, presidente do grupo independente The Elders (formado por líderes globais em 2007), ex-presidente da Irlanda e ex-alto comissário da ONU em direitos humanos, em entrevista coletiva para a imprensa, na companhia de Ban Ki-moon, ex-secretário geral da ONU.

Para o boletim dos cientistas atômicos, os dois grandes perigos são a eminência de uma guerra nuclear e a falta de ação contra as mudanças climáticas. Ambos são agravados pelo surgimento de campanhas de desinformação, ativadas por novas tecnologias. “A situação da segurança internacional é terrível, não apenas porque essas ameaças existem, mas porque os líderes mundiais deixaram a infraestrutura política internacional para gerencia-las”. Na verdade, em 2019, esses já eram os temas preocupantes, que se intensificaram em níveis assustadores. O documento divulgado pelo grupo este ano, ainda cita o Brasil e a Amazônia.

Robinson destacou que a maioria dos países não se dispõe a reduzir (ou eliminar) as emissões de gases de efeito estufa, que provocam o aquecimento do planeta, nem de parar de usar combustíveis fósseis, portanto, está assinando “uma sentença de morte“. Ela lembrou que, embora, hoje, exista um grande movimento de luta pelo clima, não há qualquer pressão sobre líderes poderosos para que evitem as ameaças nucleares. “Enquanto houver armas nucleares, é inevitável que, um dia, elas sejam usadas, seja por acidente, erro de cálculo ou com intenção de matar”.

Para a chefe do boletim, Rachel Bronson, “Encaramos agora uma emergência real — um estado inaceitável para o mundo que elimina qualquer margem para erro ou para mais atrasos”. Outro diretor do grupo, o ex-governador da Flórida Jerry Brown acrescentou: “Rivalidades e hostilidades perigosas entre as superpotências aumentam a possibilidade de uma catástrofe nuclear”.

Embora a guerra nuclear seja uma forte ameaça, a crise climática continua se intensificando, à medida que o governo dos EUA, sob a direção de Donald Trump, se retira dos esforços internacionais para frear o aquecimento global: abandonou o Acordo de Paris.

2019 foi o segundo mais quente já registrado. A temperatura média foi de 1,1 ° C mais quente que a média entre 1850 e 1900, antes do aumento do uso de combustíveis fósseis. As emissões de gases de efeito estufa provocadas por atividades humanas estao nos levando para a catástrofe: o aquecimento do planeta entre 3 e 4 graus. As interrupções estão intensificando o clima extremo e devem exacerbar a pobreza global, como bem revelou o novo relatório da Oxfam, esta semana.

O boletim ainda citou o fracasso da conferência da ONU em Madri, o aumento das emissões de gases do efeito estufa e uma série de eventos extremos, como os incêndios de grandes proporções na Austrália, na Califórnia e no Brasil.

Com a ascensão da direita e da extrema-direita no mundo, os negacionistas do clima parecem ter se multiplicado. Hoje, Trump não está sozinho. E, pra nossa infelicidade, o presidente do Brasil o apoia.

O Brasil e a Amazônia no cenário apocalíptico

O governo Bolsonaro é uma vergonha para nossa história, ainda mais num momento como este e com uma trajetória ambiental que não era perfeita, mas teve grandes momentos de protagonismo, também na luta pelo clima. Graças a essa performance de devastação, o Brasil e a Amazônia tiveram destaque na análise dos cientistas atômicos e influência no movimento do ponteiro do Relógio do Fim do Mundo.

O documento divulgado pelos cientistas diz que “no ano passado, alguns países agiram para combater as mudanças climáticas enquanto outros – incluindo os Estados Unidos, que deixaram o Acordo de Paris, e o Brasil, que desmantelou políticas de proteção à floresta amazônica – deram vários passos para trás”.

A imagem do Brasil no mundo só tem piorado, desde que Bolsonaro assumiu o governo. Basta citar algumas de suas ações, coerentes com seu plano desenvolvimentista: as ameaças constantes às reservas e aos povos indígenas, o incentivo à exploração econômica por mineradoras e pelo agronegócio, o desmantelamento dos órgãos de fiscalização e controle do desmatamento, a inação diante dos incêndios na Amazônia e outros biomas e do vazamento de óleo no litoral nordestino (que desceu até o Rio de Janeiro), a destruição do Fundo Amazônia, além de seu comportamento em encontros internacionais como a conferência das Nações Unidas sobre o clima: na última edição, em Madri, o governo fez de tudo para atrapalhar iniciativas conservacionistas.

A história do relógio

Relógio do Fim do Mundo em 2017

O Relógio do Fim do Mundo foi criado no início da Guerra Fria por alguns dos cientistas que desenvolveram a bomba atômica – e que entenderam, antes de todo mundo, o tamanho da ameaça que essa arma representava. Desde então, ele é adiantado ou atrasado de acordo com o tamanho do risco de aniquilação da humanidade (representado pela meia-noite). Seja devido a uma possível guerra nuclear ou, mais recentemente, pelas ameaças combinadas entre guerra nuclear e mudanças climáticas.

O ponto mais distante da meia-noite que este relógio simbólico registrou foi 17 minutos, no final da Guerra Fria. O mais próximo da catástrofe anunciada foi marcado esta semana.

O movimento do ponteiro

No GIF abaixo, veja a progressão desse cenário desde 1953, com base na alteração do ponteiro em apenas nove anos: 1953 (ano em que EUA e União Soviética testavam a bomba de hidrogênio), 1968, 1969, 1980, 1995, 2007, 2015, 2018 e 2020.

Doomsday Clock GIF by The University of Chicago - Find & Share on GIPHY

Fotos: Divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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