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Relatório do IPCC não é mais um alerta, mas uma mensagem final: questão de sobrevivência!

Por Roberto Kaz e Leila Salim*

Não se trata mais de um alerta da comunidade científica para evitar uma possível tragédia – trata-se do princípio mais básico, comum a qualquer ser vivo: sobrevivência. Ou mudamos a rota agora, ou nos restará a catástrofe. A emergência climática deu lugar a uma situação de emergência humanitária.

O alerta – mais um, só que ainda mais enfático – está no relatório síntese do IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, da ONU), publicado na manhã de hoje, 20/3, após uma semana de intensa negociação entre governos e cientistas.

Os dois “polos” debatem para garantir que o texto tenha força científica e relevância governamental.

Duas cientistas brasileiras – a vice-presidente do IPCC, Thelma Krug, e a revisora Mercedes Bustamante – participaram do grupo que redigiu o relatório síntese, que tem 93 autores. O documento foi finalizado na tarde de ontem em Interlaken, na Suíça, frustrando a expectativa de que ficasse pronto na última sexta-feira.

Thelma Krug e Mercedes Bustamanete, cientistas brasileiras no IPCC / Fotos: divulgação

O teor das 37 páginas não chega a ser inédito, já que se trata de um apanhado dos últimos seis relatórios publicados pelo IPCC, mas funciona como a mensagem final dos cientistas nesta década crítica, visto que o próximo ciclo de análise só deve começar a ter resultados por volta de 2028. 

Para quem achava que a mudança climática era uma fantasia, o texto mostra que a realidade bateu à porta: em 2019, a concentração atmosférica de CO2 (410 partes por milhão) foi a maior em pelo menos 2 milhões de anos, e as de metano (1.866 partes por bilhão) e óxido nitroso (332 partes por bilhão), as maiores em 800 mil anos. Setenta e nove por cento  das emissões globais de gases de efeito estufa vieram dos setores de energia, indústria e transporte e 22% da agricultura, silvicultura e de outras formas de uso da terra.

Desde 2018, o IPCC vem estudando o aumento da temperatura mundial até 1,5 ºC. Quase todos os cenários apontam que esse limite será ultrapassado entre 2030 e 2035, ainda que temporariamente (no momento já são 1,1ºC acima da era pré-industrial). Os cientistas projetaram diversos cenários para o futuro, e apenas naqueles em que há ações mais ambiciosas de redução de gases de efeito estufa (GEE), o mundo consegue voltar à temperatura abaixo desse limiar antes do fim do século.

Quanto maior a magnitude e maior a duração do overshoot (quando a temperatura da Terra ultrapassa um determinado limite por algum tempo e depois retorna), mais exposto estará o planeta, aumentando os riscos para sistemas naturais e humanos.

Apesar de temporário, o dano causado será permanente e irreversível em alguns ecossistemas de resiliência baixa, como os polos, as montanhas e as costas impactadas por degelo ou por aumento do nível do mar – e claro, lembrando que o aumento de 1,5ºC em si já é um péssimo cenário. 

Alerta para o Brasil

Segundo Stela Herschmann, especialista em política climática do Observatório do Clima, 1,5ºC é uma meta de sobrevivência necessária para garantir um futuro climático mais seguro para todos nós.

“A mensagem que fica, por parte dos cientistas, é de que precisamos garantir que não haja overshoot ou que ele seja o menor possível, pelo menor tempo possível. Cada fração de um grau de aquecimento importa. Não estamos preparados para a devastação climática que significa ultrapassar 1,5ºC. Vai nos custar mais vidas, tanto humanas quanto de inúmeras outras espécies”.

Hoje, de 3,3 a 3,6 bilhões de pessoas – quase metade da população da Terra, sobretudo do hemisfério sul –  já vivem em condição de vulnerabilidade devido às mudanças do clima. Essas pessoas têm 15 vezes mais chances de serem mortas num desastre climático.

Futuro distópico: gráfico do IPCC sugere uma velhice hostil para os nascidos nesta década

Para evitar ou atenuar o overshoot, o documento toma como parâmetro as emissões de GEE projetadas de 2019 e traça metas bem específicas para os próximos anos.

A primeira delas: reduzir a emissão em 43 [34-60]% até 2030. Em seguida:

  • Redução de 60 [49-77]% até 2035;
  • 69 [58-90]% até 2040;
  • 84 [73-98]% até 2050.

Isso significa agir desde já. Significa também que a indústria fóssil poderá ter “ativos encalhados”, ou seja, investimentos que não chegarão ao mercado, como já foi mencionado no relatório anterior do IPCC, publicado em 2022. O texto apontava que, para haver uma estabilização do aumento da temperatura global em 1,5ºC, o uso de carvão mineral precisa cair 95%, o de petróleo 60% e o de gás natural 45% até 2050.

Isso é um alerta para o Brasil, que ampliou investimentos no pré-sal e sancionou uma lei permitindo a construção de novas termelétricas a carvão até 2040.

É preciso promover uma mudança radical no setor de energia. Para atingir as emissões líquidas zero de CO2 e GEE, será necessária a transição de combustíveis fósseis sem captura e armazenamento de carbono (CCS) para fontes de energia de muito baixo ou zero carbono, como as renováveis.

Fontes solar e eólica são de longe as opções de menor custo com o maior potencial para reduzir as emissões até 2030. O preço da energia renovável tem caído. Entre 2010 e 2019, houve uma queda de 85% no preço da energia solar e 55% na energia eólica. Também houve uma queda de 85% no preço das baterias de lítio, usadas em carros elétricos. 

“Estamos caminhando quando deveríamos estar correndo”

Durante a coletiva de imprensa sobre o relatório síntese, realizada na manhã de hoje (assista no final deste post), António Guterres, secretário-geral da ONU, propôs uma “agenda de aceleração” para o Pacto de Solidariedade Climática que apresentou aos países do G20.

O pacto prevê que os grandes emissores façam esforços extras para cortar emissões de gases-estufa, e que os países mais ricos disponibilizem recursos financeiros e técnicos para países em desenvolvimento. “A humanidade está vivendo sobre uma fina camada de gelo — e esse gelo está derretendo rapidamente”, disse Guterres, enfatizando a urgência da ação climática

O plano proposto pelo secretário-geral da ONU segue o princípio de “responsabilidade comuns, mas diferenciadas” e sugere, entre outras medidas, a aceleração das metas para emissão líquida zero de carbono até 2050.

“Os líderes dos países desenvolvidos devem se comprometer a zerar as emissões líquidas o mais próximo possível de 2040. Isto pode ser feito”, afirmou. Os países em desenvolvimento devem se comprometer a zerar as emissões líquidas o mais próximo possível de 2050. 

Hoesen Lee, presidente do IPCC, destacou que, em relação ao AR-5, o quinto relatório umas das principais novidades do relatório síntese lançado hoje é a ênfase dada à participação humana na crise climática. Lee reforçou, ainda, a centralidade da justiça climática, afirmando que “as perdas e danos são parte de nosso futuro” e que as ações de mitigação precisam ser coordenadas às de adaptação.

O presidente do IPCC lembrou, ainda, que há opções disponíveis e soluções apontadas pela ciência, e que vontade política e apoio da sociedade são decisivos para que a ação climática ocorra com a urgência que a crise exige: “Estamos caminhando quando deveríamos estar correndo”, criticou.

Quando o próximo relatório do IPCC sair, o do 7º ciclo, o mundo já estará bastante mudado. Daí a urgência da mensagem – e, sobretudo, a urgência de que a humanidade implemente as metas estabelecidas.

Alguns pontos de destaque do relatório

  • É preciso frear com urgência tanto a produção de combustível fóssil, como os subsídios para a indústria causadora do problema. O carbono emitido pela infraestrutura já existente, acrescido do carbono que virá das construções ainda planejadas, já é suficiente para superar o orçamento de carbono (a quantidade de gases de efeito estufa que pode ser emitida até a atmosfera esquentar 1,5°C). 
  • O investimento anual em mitigação para 2020 a 2030 em cenários que limitam o aquecimento a 1,5°C ou 2ºC precisa ser de três a seis vezes maior do que o aplicado hoje. Mas há um problema: os fluxos financeiros públicos e privados de combustíveis fósseis ainda são maiores do que os de adaptação e mitigação do clima. Em suma: não falta dinheiro, falta vontade política e econômica, além de inteligência, já que investe-se  mais na causa do que na solução do problema. O benefício econômico com corte de gastos em saúde que decorreria da melhora da qualidade do ar seria aproximadamente o mesmo, ou possivelmente ainda maior do que os custos de reduzir ou evitar emissões.
  • Políticas públicas de redução precisam focar em transporte público e em mobilidade ativa, como o uso de bicicleta. É importante haver também campanhas de conscientização dos efeitos do consumo exagerado, para que as pessoas adotem modelos de vida de baixo carbono. Em números: os 10% mais ricos contribuem com 34 a 45% das emissões domésticas globais de GEE, enquanto os 50% mais pobres contribuem com 13 a 15%. Mas são exatamente esses os que estão em risco.
  • Cada aumento acima de 1,5º C pode ter consequência para a biodiversidade, ampliando o risco de extinção de espécies ou perda irreversível em ecossistemas de florestas, recifes de coral e do Ártico. Aumenta também o risco de atingir pontos de não retorno, com mudanças abruptas e/ou irreversíveis no sistema climático.
  • As mudanças climáticas causadas pelo homem já estão causando impactos adversos generalizados e perdas e danos relacionados à natureza e às pessoas. As comunidades vulneráveis que historicamente menos contribuíram para as mudanças climáticas são desproporcionalmente afetadas. 
  • Existem lacunas de adaptação, que continuarão a crescer com os atuais ritmos de implementação. Os atuais fluxos financeiros globais para adaptação são insuficientes e limitam a implementação das opções de adaptação, especialmente nos países em desenvolvimento.
  • Mesmo quando eficaz, a adaptação não impede todas as perdas e danos. 
  • Os riscos e impactos adversos projetados e as perdas e danos relacionados à mudança climática aumentam a cada incremento do aquecimento global, sendo mais altos para o aquecimento global de 1,5°C do que atualmente, e ainda mais altos a 2°C.
  • Com o aumento do aquecimento, cada região deve experimentar cada vez mais mudanças simultâneas e múltiplas. Um exemplo: a subida relativa do nível do mar e os consequentes eventos extremos. Atualmente, estes eventos ocorrem uma vez a cada século, mas são projetados para ocorrer pelo menos anualmente em mais da metade dos locais até 2100. Outras mudanças regionais projetadas incluem a intensificação de ciclones tropicais e/ou tempestades extratropicais, e o aumento da aridez e da temporada de incêndio.
  • As políticas implementadas até o fim de 2020 deverão resultar em emissões globais de GEE mais elevadas em 2030 do que as NDCs (da sigla em inglês para Contribuições Nacionalmente Determinadas, o compromisso de ação climática de cada país) indicariam. Ou seja, sem um fortalecimento das políticas climáticas ao redor do mundo, o aquecimento global projetado até 2100 é de 3,2ºC. As metas anunciadas antes da COP 26 são igualmente insuficientes, mesmo se implementadas na íntegra. Com ela, o mundo poderá chegar a um aquecimento de 2,8ºC até 2100. Em suma: além da “lacuna de emissões”, há também uma “lacuna de implementação”.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Foto: ParallelVision/Pixabay

O que é o IPCC? 

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas foi criado em dezembro de 1988 pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Ele é um comitê composto de centenas de cientistas do mundo inteiro escolhidos pelos governos com a missão de avaliar periodicamente o estado da arte do conhecimento científico sobre as mudanças do clima. Essas avaliações são publicadas periodicamente, na forma dos chamados Relatórios de Avaliação.

Os cientistas e os relatórios se distribuem em três grupos de trabalho: o Grupo 1 (WG1), que trata da base física (as causas) das mudanças do clima, o Grupo 2 (WG2), que trata de impactos, vulnerabilidades (as consequências) e adaptação, e o Grupo 3 (WG3), que lida com a mitigação (as soluções). 

O que é o documento publicado hoje? 

Em seus 34 anos de existência o IPCC já publicou seis grandes Relatórios de Avaliação:
– o FAR (First Assessment Report), em 1990;
– o SAR (Second Assessment Report), em 1995;
– o TAR (Third Assessment Report), em 2001;
– o AR4 (Fourth Assessment Report), em 2007,
– o AR5 (Fifth Assessment Report), entre 2013 e 2014, além de uma série de relatórios especiais e outros documentos;
– o AR6 (sexto relatório) teve três tomos, lançados entre 2021 e 2022.

O documento que saiu hoje é o relatório-síntese (Synthesis Report), que amarra as conclusões dos três grupos de trabalho, além de três Relatórios Especiais anteriores (o relatório especial sobre o Aquecimento Global de 1,5 ºC, o relatório especial sobre Mudança Climática e a Terra, e o relatório especial sobre o Oceano e a Criosfera em um clima em mudança).

Como o objetivo principal do IPCC é informar políticas públicas para combater a mudança do clima, o relatório-síntese tem um sumário executivo para tomadores de decisão, conhecidos pela sigla SPM (Summary for Policymakers). Os sumários são documentos dirigidos para políticos e tomadores de decisões, que resumem as principais conclusões técnicas dos relatórios. 

Os governos interferem no IPCC? 

Sim e não. A linguagem dos SPM é negociada nas assembleias do IPCC, das quais participam representantes de governos do mundo inteiro. Por isso os sumários tendem a ser conservadores, porque é preciso ajustar a escrita aos caprichos da diplomacia e às suscetibilidades de cada governo. No entanto, os sumários técnicos e os relatórios não são submetidos aos governos. E, o mais importante, os governos não mudam os dados nem as conclusões do painel – quem dá as cartas é a ciência.  

O IPCC é alarmista? 

Ao contrário: como reflete o consenso científico e os estudos mais aceitos da literatura, o IPCC tende a ser bastante conservador em seus relatórios, e mais conservador ainda em seus sumários para tomadores de decisão.

Um exemplo clássico dessa cautela aconteceu em 2007, no AR4, com os dados sobre nível do mar: embora já houvesse estudos mostrando que o degelo da Antártida e da Groenlândia podia ser mais rápido do que o imaginado e que o mar poderia subir mais de 1 metro até o fim do século, o relatório ficou com uma estimativa mais baixa, 88 cm. 

O que significa a linguagem estatística do IPCC? 

Como trata de ciência e de cenários para o futuro, o IPCC não pode fazer previsões. Pode, no máximo, dizer qual é a probabilidade de um determinado fato, observação ou fenômeno. Em outras palavras, o painel precisa comunicar as incertezas inerentes a qualquer ciência. Para isso, lança mão de uma classificação estatística onde: 

  • Virtualmente certo: 99% a 100% de probabilidade 
  • Extremamente provável: 95% a 99% de probabilidade 
  • Muito provável: 90% a 95% de probabilidade 
  • Provável: 66% a 90% de probabilidade 
  • Mais provável que improvável: mais de 50% de probabilidade 
  • Tão provável quanto improvável: 33% a 66% de probabilidade 
  • Improvável: menos de 33% de probabilidade 
  • Muito improvável: menos de 10% de probabilidade 
  • Extremamente improvável: menos de 5% de probabilidade.

O painel também expressa intervalos de confiança no entendimento científico de uma questão. Pense na probabilidade de um mesmo resultado caso um evento se repita dez vezes, por exemplo. Assim: 

  • Muito alta confiança: 9 em 10 chances 
  • Alta confiança: 8 em 10 chances 
  • Média confiança: 5 em 10 chances 
  • Baixa confiança: 2 em 10 chances 
  • Muito baixa confiança: 1 em 10 chance.

A seguir, assista à coletiva de imprensa com o IPCC:

*Este texto foi publicado originalmente no site do Observatório do Clima (OC) em 20/3/2023

Foto: Nasa (furacão Florence sobre o Oceano Atlântico, fotografado da Estação Espacial Internacional em 2018)

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