Quando números passam a ser histórias

menino refugiado sírio

As amigas Beatriz e Monique, estudantes do 4º. ano do Curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, em SP, escolheram os refugiados sírios como tema de seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Orgulhosa de suas alunas, a professora Bianca Santana, orientadora neste trabalho, comentou sobre elas no Facebook (leia no final deste post). Me encantei com tudo que contou e, por isso, convidei as meninas para escreverem artigo para o Conexão Planeta. Prepare seu coração! Aqui está seu relato singelo que conta a experiência com refugiados que vivem em São Paulo e revela sua visão a respeito deste desafio global.
Obrigada Bianca, Beatriz e Monique!
Mônica Nunes, editora 

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Quantas mulheres como Ghazal vão demorar três meses para descobrir que seu marido foi preso, porque teve seu nome confundido? Quantas crianças e adolescentes como Riad, Yara, Laith e Mirel vão ter que ver uma guerra tão de perto e crescerem longe de suas origens? Quantos homens como Ahmad, Talal, Abdulbaset, Salim, Nasr, Thaer, Tarik, Victorios ainda vão ter que ficar com a Síria apenas na memória?

O sentimento que parece mais escondido nas pessoas mais velhas, pulsa de maneira intensa nos mais novos: a esperança. Eles querem voltar, mesmo que esse dia ainda seja só um sonho, para poder retomar a vida que lhes foi tirada.

De 2011 até agosto deste ano chegaram 2.077 refugiados sírios no Brasil. Eles fogem de uma guerra que já assassinou 240 mil pessoas, causada por conflitos entre o governo e a oposição. E estes dados frios, lidos como números tão distantes daqui, se humanizam na proximidade com refugiadas e refugiados sírios que vivem no Brasil.

Nossa aproximação com essas pessoas começou em 2014. Estávamos no terceiro ano de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero e o temido TCC, trabalho de conclusão de curso, já começava a pautar algumas aulas. Precisávamos de um tema, um grupo. Sentamos e descobrimos duas coisas em comum: queríamos fazer uma reportagem multimídia sobre um tema relacionado aos direitos humanos. Além de tudo, já tínhamos trabalhado juntas e éramos amigas. Eram os ganchos ideais para fazermos juntas.

Passamos algumas semanas pensando em um tema até que vimos uma reportagem sobre o aumento do número de mortes na Síria desde o começo da guerra. Conversando, caímos nesse assunto. Aquilo mexia e incomodava as duas. Era o lugar que despertava a curiosidade de ambas: o Oriente Médio. Mas tínhamos algumas dúvidas: como fazer o TCC a respeito de uma região tão longe sem precisar ir até lá? Como falar de uma guerra sem nunca ter vivenciado essa realidade?

Pensamos em todos os conflitos que estão acontecendo no Oriente Médio e notamos que a guerra da Síria, por ser muito recente, não tinha muito estudo a respeito. Mesmo assim, ainda continuava longe. Precisávamos de um recorte que estivesse dentro da nossa realidade, para que pudesse ser objeto de pesquisa. De repente, quase como um clique pensamos: e as pessoas que saem da Síria e vêm para o Brasil? Então, finalmente tínhamos um tema: os refugiados sírios em São Paulo.

Depois do pré-projeto pronto e aprovado, ainda teríamos 2015 inteiro pela frente. O antigo estágio de Beatriz fez com que tivéssemos contato com uma mesquita no Brás que recebia refugiados. Era um começo. Fomos lá: a primeira vez, pelo TCC, em março. Até então, sabíamos que ouviríamos relatos fortes sobre a guerra, mas não sabíamos se seria fácil para convencer essas pessoas a contarem traumas tão grandes.

Quando entramos na mesquita, vimos uma mulher de véu fazendo o cadastro de alguns refugiados. Era a Chrys, uma brasileira feminista que não seguia o islamismo, casada com Ahmad, um sírio que saiu do país de origem porque não queria entrar para o exército e se ver obrigado a atirar em alguém. Era uma grande e incrível história para a primeira semana.

As primeiras conversas nos fizeram compreender que aquelas pessoas não saem de seu país porque querem, mas porque buscam sobreviver, viver. Foi um relato forte. Ahmad teve que lidar com muitas perdas e transformações para poder tocar sua vida.

Depois dele, conhecemos muitos outros sírios que vieram para o Brasil. A guerra tão distante de nós passou a ter nome, sobrenome, idade, sonhos, medos. Histórias. O que antes parecia só números avassaladores, ficou ainda mais triste. E humano. É importante ressaltar que essas pessoas foram obrigadas a deixar o seu país com a roupa do corpo, talvez algum documento e pouco dinheiro.

Com o trabalho, descobrimos o poder da comunicação. O processo foi extremamente rico e fez com que conhecêssemos pessoas maravilhosas, com o coração aberto, sem posses materiais, mas transbordavam carinho, abraços e sorrisos.

Além de nos contar suas histórias, nos davam outra de suas maiores riquezas: a comida árabe. Quando recusávamos por falta de fome, insistiam. Acabávamos cedendo e era sempre a melhor decisão. Muitas vezes nos perguntávamos a razão de tanta bondade, já que não tínhamos nada a oferecer além de nossa total atenção.

Às vezes, dava vontade de abraçá-los como demonstração de gratidão, mas em alguns casos a religião não nos permitia: homens muçulmanos não podem tocar em mulheres que não sejam de seu parentesco. E para quem pensa que as histórias tristes eram o que predominava, se engana. Alguns de seus gestos nos comoveram como quando um deles veio nos agradecer por contarmos sua história.

Uma situação muito singular foi quando fomos visitar a Escola Islâmica do Brasil. Lidar com crianças é sempre diferente e mais emocionante. Todas elas muito acanhadas a princípio, algumas ficaram mais à vontade no decorrer da conversa, outras continuaram reservadas. Ganhamos mais abraços, mais sorrisos e ainda mais vontade de continuar nosso trabalho.

Diante de tanta tragédia, tantas atrocidades, essas pessoas renovaram nossa fé na humanidade. Mais do que um Trabalho de Conclusão de Curso, essas são as histórias de pessoas que buscam um recomeço, como tantas outras que precisam deixar tudo para trás.
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O que disse a professora Bianca Santana sobre Beatriz e Monique, em 3/9/2015, no Facebook:
E nessa tristeza indignada que nos afoga especialmente alguns dias, é muito bonito ver o desabrochar de gente comprometida, corajosa, conectada à dor do outro, que no fundo é a dor de todas nós.

Beatriz Atihe e Monique Alves estão fazendo um TCC belíssimo sobre refugiados sírios no Brasil e tiveram um dia muito difícil. Viram na fotografia da criança morta todas as crianças sírias que conheceram aqui no Brasil, expulsas de suas vidas pela destruição da guerra.

O que essas meninas têm visto e ouvido é para gente forte, que acredita no poder da comunicação para nos aproximar das outras pessoas, para combater injustiças, para transformar tanto horror.

Ler o que elas têm escrito me faz sentir mais conectada ao todo. E confio que o trabalho das duas nos ajude a acolher quem chegar por aqui.

Sinto muito orgulho de vocês, meninas! E uma gratidão enorme por estar perto de jornalistas sensíveis, competentes e comprometidas com os direitos humanos.
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Foto: Freedom House/Creative Commons/Flickr

Monique Alves e Beatriz Atihe

Elas têm 22 anos, são estudantes do 4o. ano de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero e acreditam que toda pessoa tem alguma história a ser contada. Para elas, os direitos humanos precisam ter mais destaque dentro do jornalismo para que pessoas deixem de ser estatística e possam ter uma identidade.

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