Refugiado cria game em que jogadores podem ajudar refugiados da vida real

Refugiado cria game em que jogadores podem ajudar refugiados da vida real

Lual Mayen era ainda um bebê, nos braços de seus pais, quando percorreu mais de 350 km entre a cidade de Bor, no Sudão do Sul, até um campo de refugiados no norte da Uganda. A família fugia de uma guerra civil em seu país natal. Ao longo do caminho, suas duas irmãs mais velhas morreram doentes.

Nos primeiros anos de sua vida, Lual passou o tempo como outros garotos da sua idade em um campo de refugiados. Jogava futebol, buscava doações de comida e durante a noite, tentava se proteger das bombas jogadas pelo governo sudanês.

Aos 12 anos, o menino viu um computador pela primeira vez. Era utilizado por funcionários do campo para fazer o registro dos moradores. Fascinado com a tecnologia, Lual pediu à mãe um igual. Daruka, que mal tinha dinheiro para comprar comida para os filhos, trabalhou durante três anos, costurando roupas, para juntar 300 dólares e presenteá-lo com um laptop. Ela conta que o garoto chorou de alegria.

Como não tinha como carregar o computador, Lual caminhava três horas até um café perto para isso. Autodidata, aprendeu por conta própria inglês e programação. Tinha certeza que nas mãos dele estava uma importante ferramenta para mudar o seu futuro e de muitos outros refugiados.

Foi a eles que mostrou o jogo que desenvolveu, em 2016, que deu o nome de Salaam, uma saudação usada para desejar paz em árabe. “Meu foco principal era fazer um videogame para dar aos refugiados para que eles tivessem algo para se divertir, algo onde eles pudessem se reunir e aprender ou jogar”, contou em entrevista ao jornal The Washington Post.

Refugiado cria game em que jogadores podem ajudar refugiados da vida real

Uma das personagens do game

Depois de divulgar o jogo em diversas comunidades de “gamers” nas redes sociais, Lual acabou chamando a atenção internacional e foi convidado para palestrar em outros países da África.

Graças ao esforço de sua mãe durante aqueles três anos, o laptop que Daruka deu ao filho fez com que ele voasse muito além da tela do computador.

Há três anos, o refugiado africano foi convidado a trabalhar como consultor no Banco Mundial, em Washington D.C., capital dos Estados Unidos, além disso, começou a receber mentoria do WeWork Labs para poder lançar Salaam comercialmente.

Ao jogar, as pessoas enfrentarão as dificuldades vividas por refugiados

Salaam: uma batalha pela vida e pela paz

O game desenvolvido por Lual, hoje com 24 anos, faz com que o jogador assuma o papel de um refugiado, tentando escapar de uma zona de guerra.

“O jogo começa com uma caravana de refugiados caminhando pela selva em busca de segurança. O cenário é pacífico, mas terrível, dadas as circunstâncias. Os pais que carregam seus filhos lutam para acompanhar o ritmo do resto do grupo. Seu personagem desaparece à vista. De repente, tiros são disparados à distância! Sua família se agacha para evitar o perigo. Há uma breve pausa e silêncio. Mais tiros são disparados e a caravana começa a correr. O pânico se instala e, eventualmente, seu personagem abre caminho para a frente do grupo. Um veículo militar aparece à frente e os soldados disparam em sua direção. Agora sozinho, seu personagem desce o caminho mais próximo. Assim, o jogo começa”, descreve o criador de Salaam.

Refugiado cria game em que jogadores podem ajudar refugiados da vida real

A ideia é que se possa fazer doações aos refugiados através do jogo

Lual acredita que seu game pode criar mais empatia ainda com a causa dos refugiados. E não é só isso. Em parceria com organizações não-governamentais, será possível ajudar, financeiramente, essas pessoas. Ao comprar mais energia ou comida na realidade virtual de Salaam, o jogador estará doando dinheiro, de verdade, para essas comunidades.

Refugiado cria game em que jogadores podem ajudar refugiados da vida real

Lual Mayen: um jovem cheio de determinação

No ano passado, o menino que viveu sua infância em um campo de refugiados se tornou o CEO da Junub Games. Com seus jogos, pretende disseminar a paz pelo mundo.

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Fotos: reprodução vídeos Salaam e Facebook Junub Games

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

3 comentários em “Refugiado cria game em que jogadores podem ajudar refugiados da vida real

  • 3 de outubro de 2020 em 9:38 AM
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    Lual acertou na mosca ao mobilizar pessoas para ajudar outras, além de se divertirem. É justamente o que está faltando nos programas televisivos de entretenimento, onde as futilidades beiram as raias do absurdo dos sorrisos forçados por causa de uma felicidade e euforia deslocadas de lugar nessa época de incêndios, pandemias e catástrofes naturais exacerbadas. Nitidamente falsa a expressão de alegria de alguns apresentadores sem noção da realidade planetaria que funestamente atinge animais e pessoas, florestas e cidades. Essa fuga da verdade, na tentativa de driblar o luto e o sofrimento que atingem o mundo inteiro, passa aos expectadores uma imagem mascarada da verdade que esses profissionais não querem ver, mas existem. No entanto poderiam, à exemplo de Lual, mobilizar centenas de pessoas para a imprescindível ajuda humanitária, inadiável e verdadeira, por exemplo, minimizando, com essa mobilização, a desgraça de pessoas que perderam parentes, perderam empregos, perderam a casa onde moravam e perderam a fé em Deus porque não encontraram ninguém no caminho que, ao menos, chorasse junto com elas.

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  • 6 de outubro de 2020 em 4:36 PM
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    não é sul do Sudão, e sim Sudão do Sul

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    • 6 de outubro de 2020 em 4:51 PM
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      Obrigada pela mensagem.
      Nome já foi corrigido.
      Abraço,
      Suzana

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