Rede Produtos da Terra, no Paraná, conecta agricultores a consumidores, oferecendo cestas agroecológicas, há cinco anos

Rede Produtos da Terra, no Paraná, conecta agricultores a consumidores, oferecendo cestas agroecológicas, há cinco anos

Em setembro, completaram-se cinco anos de atuação da rede Produtos da Terra, em Curitiba e região, no Paraná. Criada com a intenção de encurtar a distância entre o consumidor e os produtores, conectando quem produz coletivamente com quem consome de modo consciente, a Produtos da Terra tem como grande destaque a entrega de cestas semanais: as Cestas Agroecológicas Campo Cidade do Produtos da Terra PR.

Cerca de 170 produtos, beneficiados e in natura, são oferecidos para a composição da cesta. As pessoas escolhem entre os itens semanalmente disponíveis. A demanda por entregas em domicílio aumentou por causa da pandemia, o que fez com que a rede passasse a oferecer também um formato ‘fechado’ de cesta, com produtos pré-determinados.

A marca Produtos da Terra é gerida de modo coletivo pela Cooperativa Central da Reforma Agrária do Paraná e pelo empreendimento Sinergia Alimentos Saudáveis, e é um projeto apoiado pela Rede Mandala (Rede Paraense Campo-Cidade de Economia Solidária), sobre a qual escrevi aqui, no Conexão Planeta, em setembro de 2018.

Os produtos são provenientes de cooperativas da Reforma Agrária, agricultura familiar e coletivos de economia solidária. Todos os itens in natura têm certificação da Rede Ecovida, sobre a qual contei em setembro de 2016.

O mapeamento do número de pedidos de cestas semanais, divulgado no site da rede, demonstra que, em quase todas as semanas, são pedidas mais de 100 cestas, sendo que, em 2020, no auge da pandemia, chegaram a entregar 200 cestas semanais.

Além disso, a iniciativa oferece a possibilidade de compra de cestas para doação, beneficiando famílias em situação de vulnerabilidade. E tem realizado mutirões de entrega de comida e cargas de gás por meio da União Solidária, que reúne diversos atores ligados à questão alimentar no estado.

Esse movimento, como tantos outros que têm surgido nos últimos anos, demonstra a força da mobilização coletiva e do consumo consciente para garantir sistemas alimentares mais justos, saudáveis e seguros.

Comprar alimentos agroecológicos diretamente do produtor familiar, para o consumidor consciente que tem poder de escolha, é realmente uma experiência transformadora. E a mobilização em torno das doações de alimentos para famílias em situação de vulnerabilidade quase sempre está casada com essa estratégia.

Além da participação do consumidor nesse processo, frequentemente os produtores agrícolas, em especial das cooperativas da Reforma Agrária e do MST, doam parte de sua produção para as famílias.

O coletivo é a força

Esse trabalho realizado pela rede Produtos da Terra, como tantos outros que se desenham pelo Brasil, é resultado, claro, de ação e atuação coletivas.

Ao pesquisar a história da rede, vemos que as cestas são resultado de uma articulação inicial envolvendo a Cooperativa Terra Livre (Lapa – PR), a Incubadora Trilhas de Economia Solidária (PUC-PR), o Centro Comunitário e de Proteção Alimentar Padre Miguel (Cecopam), o Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo (Cefuria), a Sinergia Alimentos Saudáveis, entre outras organizações.

Uma fase experimental foi ‘incubada’ pela PUC-PR, e logo a iniciativa foi ampliada para outros públicos da cidade e vendo crescer o número de consumidores semanais para os produtos, que naquele momento eram consumidos em feiras.

Os próprios consumidores demandaram a criação de um grupo de whatsapp, facilitando os pedidos dos produtos que vinham do campo para a cidade a cada semana.

A logística das cestas foi se tornando complexa, e a Cooperativa Terra Livre se juntou à Cooperativa Central da Reforma Agrária do Paraná, que reúne 19 cooperativas de diversas regiões do estado.

E logo se juntaram à Rede Paranaense de Economia Solidária Campo Cidade (Rede Mandala), potencializando a iniciativa. Por fim, o empreendimento de comercialização Sinergia Alimentos se integrou ao grupo, cuidando da gestão compartilhada das cestas.

É assim, no coletivo e na autogestão, que esses arranjos se mostram potentes e transformam realidades. Dos produtores, dos consumidores, das famílias. Alteram dinâmicas de mercado e fazem uma outra economia girar.

Reconexão com a terra e com quem produz o alimento

Quem me lê aqui, no Conexão Planeta, sabe que sou fascinada pelo universo da produção cooperativa de alimentos agroecológicos. Antes da pandemia, quando viajar era mais presente em minha vida, ao visitar uma cidade sempre perguntava aos amigos ou parceiros de trabalho, a depender da motivação da viagem, sobre produção da agricultura familiar e cooperativa na região.

Quero sempre conhecer, visitar, entender os arranjos coletivos, ouvir os agricultores e agricultoras. Ganhar histórias e sabores. Provar. Um processo muito mais rico e estruturante de uma nova realidade do que a compra em gôndola de supermercado, que quase sempre resulta em valores muito baixos para o produtor.

Na infância, o quintal de casa tinha um pomar e uma horta. Crescer no meio daquela riqueza plantada e cuidada pelos meus pais, subir em árvores para colher frutas, tirar mandioca da terra, isso com certeza tem influência sobre o meu interesse nesse universo.

A nossa reconexão com a terra e com os agricultores e agricultoras que produzem os alimentos que consumimos é um processo cada vez mais presente num mundo que nos impele a essa reconexão. Em que a biodiversidade segue ameaçada e, junto com emergência climática, coloca em risco a produção alimentar e a sobrevivência da humanidade. E não custa nada lembrar que a agricultura familiar agroecológica é responsável em boa parte por manter a biodiversidade alimentar.

Nossas escolhas importam. Não são as únicas coisas que precisamos fazer para mudar o mundo na escala necessária, claro. Temos muito a fazer em relação a escolher governantes e parlamentares melhores, a pressionar os eleitos para avançar em políticas públicas. A pressionar a iniciativa privada por novos modos de produção.

Mas já consigo ver iniciativas de governos locais reconhecendo a importância de apoiar esse modelo e avançar (leia Mapa interativo reúne iniciativas de agroecologia pelo país). Hoje, a partir da celebração dos cinco anos da iniciativa da rede Produtos da Terra, consigo olhar para as associações e arranjos produtivos e de consumo aos quais tive acesso e ver o copo meio cheio.

Mesmo com o governo federal negando auxílio emergencial, suporte e apoio aos produtores que levam a maior parte dos alimentos para a mesa dos brasileiros e brasileiras. A mobilização pelo apoio a eles segue, também, cooperativamente, como contei aqui, na semana passada.

São também muitas as organizações da sociedade civil que levantam suas vozes e agem para apoiar esses arranjos produtivos, buscando fomentar políticas públicas, apoio e subsídio a esses produtores que fazem chegar às nossas casas alimentos limpos, saudáveis e frutos da luta diária.

Seguimos. Coletivamente.

Edição: Mônica Nunes

Fotos: Produtos da Terra/divulgação

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22 e com a AMAZ aceleradora de impacto. Atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

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