Rebeca Andrade é a primeira brasileira a conquistar uma medalha na ginástica artística nos Jogos Olímpicos

Rebeca Andrade é a primeira brasileira a conquistar uma medalha na ginástica artística nos Jogos Olímpicos

Por seu talento incomum, Rebeca Andrade já foi chamada de “Daianinha de Guarulhos” em alusão à Daiane dos Santos, ginasta vencedora de nove medalhas de ouro em campeonatos mundiais no solo, de 2003 a 2006, e ao local onde as duas treinavam.

Hoje, 29 de julho, ela escreveu certamente uma das páginas mais vibrantes de sua carreira ao conquistar a medalha de prata na ginástica artística, nos Jogos Olímpicos de Tóquio, com a segunda melhor nota da competição: 57.298 pontos.

No domingo, 1º de agosto, ela ainda disputa a medalha de ouro na decisão do salto e, no dia seguinte, na do solo. A torcida continua!

“Essa prata vale ouro!”

Rebeca é a primeira mulher brasileira a se tornar medalhista nessa categoria. Mais do que isso, como bem destacou Daiane, muito emocionada, logo após a classificação da ginasta, na Globo. Ela integra a equipe de comentaristas da emissora.

“Agora a gente tem a primeira medalha do Brasil na ginástica artística com uma negra. Até pouco tempo, os negros não podiam competir em alguns esportes. Tem uma representatividade muito grande nisso! É uma menina negra, que veio de origem humilde, criada por uma mãe solo. Quando ela estava em Guarulhos, com 7 anos, a primeira vez que a gente viu a Rebeca a gente falou ‘vai ser ela’, sabe?”.

E finalizou: “Chegar até aqui depois de três rompimentos do ligamento cruzado, e ser a segunda melhor atleta do mundo…. Essa prata vale ouro pra gente!”.

Lembremos que além de negra e brasileira, Rebeca é latino-americana. Num cenário político como o que vivemos atualmente, não só no Brasil, mas neste continente, isso representa muito também.

História de superação

Ao conhecer detalhes da história de Rebeca, parece mesmo incrível que ela tenha chegado até Tóquio, este ano.

Rebeca nasceu em Guarulhos, na Grande São Paulo, há 22 anos. Foi criada sem pai, pela mãe que ainda tem outros sete filhos, e descobriu a paixão pela ginástica olímpica ainda bem pequena.

Começou a treinar aos 4 anos no projeto social Iniciação Esportiva, mantido pela prefeitura para crianças e jovens de 7 a 17 anos. Treinou por cinco anos ali, até 2010. Nesse período foi amealhando algumas conquistas e participou de um torneio interclubes em Cuba.

Quando não tinha dinheiro, ia treinar a pé: caminhava por cerca de duas horas para chegar ao ginásio. Para driblar essa situação, contou com a ajuda do irmão, que comprou uma bicicleta reciclada para lhe dar carona, dos treinadores, que fizeram um esquema de rodízio para levá-la aos treinos, e até um motorista de ônibus, que dava carona para Rebeca e o irmão sempre que os encontrava no caminho de ida ou de volta do treino.

No meio tempo, aos nove anos, foi morar em Curitiba, sozinha, para treinar no Centro de Excelência de Ginástica do Paraná, mantido pela prefeitura. Era uma chance então para a pequena ginasta: lá foi criada a primeira seleção brasileira permanente de ginástica olímpica.

Em entrevista ao G1, Rosa, a mãe de Rebeca, contou que, na época, todos a chamavam de doida por deixar a filha viajar sozinha. Pensei o mesmo, confesso. “Mas ainda bem que tive a sabedoria e a mente aberta para deixá-la seguir seus sonhos. Deixei que ela voasse atrás de um objetivo. E deixei claro que, se não desse certo, as portas de casa sempre estariam abertas para ela. Hoje eu vejo que agi certo, por ter ouvido o meu coração”.

Em 2011, Rebeca recebeu convite do Flamengo para fazer parte de sua equipe juvenil. É atleta do clube.

Depois de quatro cirurgias, as Olimpíadas

Rebeca Andrade é a primeira brasileira a conquistar uma medalha na ginástica artística nos Jogos Olímpicos
Foto: Ricardo Bufolin / CBG, Fotos Públicas

Aos 15 anos, rompeu o ligamento anterior do joelho anterior e, por isso, não participou dos Jogos da Juventude de Nanquim, nem dos Jogos Pan-Americanos de Toronto, ambos em 2015. Passou pela primeira cirurgia e se recuperou a tempo de participar dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, em 2016, com muita cautela. E, assim, aos 17 nos, conquistou o 11º lugar no individual e 8º na competição de equipes.

Os anos seguintes seriam muito difíceis para Rebeca também. Foi novamente operada – em 2017 e 2019, ficando de fora dos Jogos Pan-Americanos de Lima e do Mundial de Stuttgart, ambos em 2019. Neste ano ela ainda tentou se classificar para as Olimpíadas de Tóquio, que aconteceriam em 2020, mas passou por nova intervenção cirúrgica.

Recuperada, participou do Pan-Americano de Ginástica Artística, que aconteceu no Rio de Janeiro em junho último. Na competição, conquistou o primeiro lugar individual geral e uma das duas vagas para os Jogos Olímpicos de Tóquio, onde está encantando o mundo com suas apresentações emocionantes e diferenciadas, ao som do funk Baile de Favela, de MC João, misturado a Tocata e Fuga, de Johann Sebastian Bach (saiba mais sobre esta trilha, num dos links indicados abaixo). 

Foto (destaque): Ricardo Bufolin / CBG, Fotos Públicas

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Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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