Rachel Biderman: trajetória de sucesso pelo clima, pelo meio ambiente e pela inclusão social

Um ótimo inglês, fruto da filiação norte-americana por parte de pai e de ter estudado nos Estados Unidos, assim como muita obstinação, abriram portas para a advogada Rachel Biderman, que as escancarou em inúmeras frentes na área ambiental e na liderança de importantes iniciativas e organizações.

Além de ter passado por algumas das principais ONGs do país, como SOS Mata Atlântica e Instituto Socioambiental, foi a primeira secretária-executiva do Observatório do Clima, uma das mais significativas coalizões de entidades da sociedade civil na área de clima, e trouxe para o Brasil o GHG Protocol, ferramenta utilizada para entender, quantificar e gerenciar as emissões de gases de efeito estufa no setor empresarial – ambas iniciativas abrigadas no passado pela Fundação Getulio Vargas.

Rachel também dirigiu, por quase uma década, o WRI Brasil, instituto de pesquisa aplicada voltado a promover a proteção do meio ambiente, oportunidades econômicas e bem-estar humano.

No final de 2020, iniciou um novo desafio, ser vice-presidente sênior para a América Latina da ONG Conservação Internacional, cargo no qual espera atuar em uma de suas paixões: soluções baseadas na natureza pelo clima e o desenvolvimento socioeconômico sustentável, além dos direitos de populações indígenas e tradicionais.

Em mais de 30 anos de atuação, a ambientalista atuou, ainda, em conselhos de entidades como Greenpeace Brasil, WWF Brasil, Instituto de Defesa do Consumidor, Instituto Marina Silva, Black Jaguar Foundation e Fundación Futuro Latinoamericano. Rachel hoje é co-facilitadora da Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura, rede que conta com mais de 260 organizações não governamentais e empresas, que atua e prol de ações concretas por uma economia de baixo carbono.

Também dedica seu ativismo em prol da igualdade de gênero e inclusão nas organizações onde trabalhou e na área de meio ambiente em geral.

Como você desenvolveu seu lado ativista?

Trouxe da juventude, quando estudava no Colégio São Luís, em São Paulo, escola de padres jesuítas que estimulavam o trabalho social. Aderi aos programas do colégio, nos quais atuava em favelas, asilos e com pessoas com deficiências.

Também vivia em uma casa com pais professores universitários muito preocupados com questões sociais. Minha mãe, que trabalhava com educação e era ligada ao combate às injustiças foi minha maior inspiração. Meu pai foi um imigrante judeu norte-americano, apaixonado pela América Latina, que veio para o Brasil sem dinheiro e, em determinado momento, também viveu em kibutz em Israel.

Quando terminei o colegial, fiz alguns testes vocacionais e a área de justiça apareceu em todos. Fui parar na faculdade de Direito e continuei com os trabalhos sociais com os padres. Mas até os 22 anos, o que fazia era ensinar português e inglês e brincar com crianças.

Seis meses depois de formada, ganhei uma bolsa e fui fazer mestrado nos Estados Unidos e lá descobri o meio ambiente. Vivi em Washington entre 1991 e 1992, quando trabalhei no WWF e no Centro Internacional de Direito Ambiental (CIEL -Center for International Environmental Law) ajudando essas organizações a atuarem no Brasil e a se prepararem para a Rio-92.

Decidiu, aí, que esse seria seu foco de trabalho?

Sim. Fiz mestrado em direito internacional com enfoque em meio ambiente e conheci advogados ambientalistas de muitas partes do mundo. Queria abrir um centro de direito ambiental.

Quando volvei para o Brasil, aterrizei na SOS Mata Atlântica, que era a organização que acolhia pessoas perdidas que queriam trabalhar com meio ambiente. Ia a reuniões de voluntários, eventos, palestras, e fui me enturmando, conheci as pessoas da área, como a Marcia Hirota, o João Paulo Capobianco e o Bellô (Beloyanis Monteiro).

Fiz trabalho voluntário também para a OAB e para o Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) até conseguir um trabalho remunerado na SOS Mata Atlântica, para cuidar da área de denúncias.

Depois disso, abri um instituto de Direito Ambiental com a Rachel Feldmann e a Eldis Camargo (um escritório para assessorar ONGs ambientalistas), trabalhei com o Fabio Feldman, na Secretaria Estadual de Meio Ambiente de São Paulo, e no Instituto Socioambiental (ISA).

Atuava na defesa de direitos, promovendo conhecimento sobre legislação ambiental. Fabio foi grande inspiração, o maior legislador em matéria ambiental que o Brasil já teve e grande articulador de atores em prol do meio ambiente.

Naquela época, promotores, juízes e legisladores não tinham direito ambiental em suas formações. Eu pegava livros do Paulo Affonso Leme Machado e do Édis Milaré e produzia material de educação ambiental para a área jurídica e para os militantes, que precisavam conhecer as normas ambientais do país e os tratados internacionais.

No ISA, também atuei em processos, apoiando o time de advogados de primeira linha que eles tinham. Percebi ali, porém, que esse não era o meu foco, pois me identifico mais com a área de conjuntura.

Fui, então, caminhando para a linha de estratégia do direito ambiental e florestas e acabei me dedicando à área de clima.

Como foi sua experiência no Observatório do Clima e com o GHG Protocol?

Havia trabalhado com o Fabio Feldman na época em que ele passou a se dedicar mais ao tema climático e essa se tornou minha bandeira. Ajudei o Fabio na criação do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, mandato que ele recebeu do então presidente Fernando Henrique Cardoso.

Ambos mobilizaram grandes lideranças do Brasil em prol do tema, para formulação e implementação de políticas públicas.

Lembro-me que o presidente sentava durante horas para liderar reuniões com ministros de Estado, governadores, cientistas, empresários, ativistas das áreas social e ambiental, para construir um caminho para o Brasil ser líder no tema climático. E, por bastante tempo, o foi.

Logo em seguida, fui para o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (GVces), a convite dos professores Rubens Mazon e Mauro Monzoni.

Ali aprendi muito, estava muito animada em poder atuar junto a empresas, associações empresariais e professores da área de administração de empresas com os desafios da sustentabilidade.

Meu primeiro projeto foi ajudar a liderar a construção do Índice de Sustentabilidade da Bovespa (Bolsa de Valores do Brasil, hoje, BVMF3).

Durante mais de sete anos, também me dediquei a trazer o GHG Protocol para o Brasil, um projeto de apoio às empresas para mapeamento de suas emissões de gases de efeito estufa e construção de políticas e metas para sua redução.

Também apoiamos o Observatório do Clima na construção da Política Nacional de Mudanças do Clima. O rascunho que construímos na FGV (GVces) com o Observatório do Clima, tornou-se a base para a atual lei que instituiu essa política no Brasil em 2009.

O conhecimento do ativismo foi muito útil para isso, pois sabia o que a sociedade cobrava das empresas e incorporamos tudo isso no trabalho.

Você foi diretora-executiva do WRI e, agora, começa um novo desafio na Conservação Internacional. Conte sobre estas experiências?

Fui para o WRI – World Resources Institute em 2011, um instituto de pesquisa onde a militância não é a marca. Mergulhei em pesquisa e ciência, algo de que sempre gostei.

O WRI é uma think thank, uma organização que quer falar de ciência com todos os tomadores de decisão, de qualquer linha. Sua proposta é digerir a boa ciência e transformar em narrativas para serem usadas em políticas públicas e por empresas.

Percebi o quão importantes esses conteúdos são para empresas, governos e para a militância, que bebem nessa fonte altamente qualificada. No WRI, lidei com muitos temas, como políticas climáticas, economia, cidades sustentáveis, transportes, restauração florestal. Mas, depois de nove anos e meio, achei que precisava dar espaço para os mais jovens e procurar o que mais faz bater meu coração agora.

Gosto do ambiente internacional para ajudar a fazer pontes entre acordos, como os de Clima e Biodiversidade. Alguém precisa ser “tradutor” para contextos nacionais e regionais.

Desde criança fui “tradutora” entre os meus pais, um judeu americano e uma brasileira católica. Ficava no meio das discussões sobre nacionalidade e religião, mediando, aprendendo e me divertindo.

Por isso, me candidatei à essa posição de vice-presidente para as Américas da Conservação Internacional (CI). É um lugar em que posso aportar mais sobre temas como mudanças climáticas, restauração e proteção das florestas.

A CI está muito envolvida no que é importante hoje: soluções baseadas na natureza para o desafio climático, com aporte relevante para o combate à pobreza e o desenvolvimento econômico.

É uma oportunidade dupla – nunca tinha tido uma posição internacional e o Brasil vive de costas para a América Latina, o que precisamos mudar. Faz apenas dois meses que estou lá, e estou amando.

Além da sua militância e trajetória na área ambiental, você é casada com Fernando Furriela, advogado também militante. Como é isso?

Quando o Greenpeace chegou ao Brasil, em 1990, o Fernando, que atua na área societária, fez os estatutos da organização. Eu não o conhecia, mas ele precisava de alguém que falasse bem inglês e fui ajudá-lo com as traduções. Descobrimos que éramos também voluntários da Anistia Internacional. Começamos a namorar.

Fiz trabalho voluntário muitos anos para o Greenpeace até que cheguei a ser presidente do conselho no Brasil. A denúncia qualificada que fazem é importante para tirar-nos do lugar de conforto e agirmos. Minhas filhas sabem que não existiriam se não fossem os “guerreiros do arco-íris”!

Minhas filhas cresceram nesse ambiente. A mais velha já é advogada, mas não quer direito ambiental, tem veia comercial. Fez muito trabalho social na escola, também na esfera de educação. A outra é mais sensível à militância, quer fazer medicina e quem sabe um dia atuar junto aos Médicos Sem Fronteiras.

Mas sempre houve uma dose de sacrifício da família pelo nosso perfil. Viajamos e trabalhamos muito. Errei na dose, exagerei. Hoje, com a pandemia, percebi que perdi momentos preciosos das meninas porque queria salvar o planeta.

Não cheguei a comprometer a família, mas fui além do razoável. Acredito que, para as coisas valerem a pena, a família e a saúde precisam estar bem.

Questões como essas fazem parte da sua militância feminista?

A entrada de minhas filhas na adolescência trouxe várias perguntas que eu não sabia responder. Elas me questionavam, diziam até que eu era machista

Por outro caminho, comecei a fazer parte de alguns grupos de mulheres que estavam se organizando. Um deles foi o Mulheres pela Sustentabilidade, organizado pela Izabella Teixeira e pela Samyra Crespo, quando estavam no Ministério do Meio Ambiente.

Fazíamos reuniões presenciais que, em algum momento, migraram para o WhatsApp e reuniam umas 50 mulheres – hoje somos cerca de 20 – e juntam duas militâncias, ambientalismo com feminismo, ao discorrer sobre os desafios das mulheres subirem na carreira no mundo das florestas e ambiental, povoado por muitos homens, como engenheiros florestais e agrônomos.

Discutimos como encontrar mulheres para cargos de liderança e nos apoiamos nos desafios. Como minha mãe era uma mulher forte e líder, sempre admirei mulheres assim. São minha fonte de inspiração.

Como essas discussões influenciaram no seu dia-a-dia profissional?

Na medida que me tornei gestora, tanto na FGV quanto no WRI, percebi que as mulheres do meu time buscavam um tipo de mentoria comigo. Colegas falavam sobre carreira e possibilidade de ascensão das mulheres, o que me estimulou a ser mais proativa.

Comecei a provocar as que não me procuravam com questões como: Qual a sua ambição? Onde quer estar? Está feliz? Onde quer chegar? Creio que as mulheres precisam ter mais ambição, convocando-se para exercer papel em lugares de decisão. Senão, outros vão decidir por elas.

Quando cheguei ao WRI fui radical, montei equipe de mulheres na liderança: dois homens para seis mulheres. Mas percebi que criar equilíbrio é importante. Precisamos dar oportunidade para todos crescerem. Os homens começaram a reclamar e dei razão a eles. Assim como uma maioria de homens intimida as mulheres, o contrário tem o mesmo efeito.

Ainda no WRI, incluímos também a discussão de gênero e de raça, criamos um grupo de diversidade onde discutíamos temas de racismo, LGBTQI+ e inclusão. Aprendi demais com aqueles jovens incríveis. Estamos muito atrasados nessa discussão.

Também precisamos trazer a igualdade racial no Brasil, onde se permite jovens negros morrerem em massa e não se dá oportunidades para a maioria da população, descendente de africanos, historicamente oprimida. Feminismo é uma das coisas para se considerar, mas não a única. Na luta das inclusões, precisamos estar com os olhos super abertos e coordenar todas as bandeiras.

Edição: Mônica Nunes

Foto: arquivo pessoal

Maura Campanili

Jornalista e geógrafa, foi repórter e editora de cidades e meio ambiente na Agência Estado e na revista Terra da Gente. Trabalhou em ONGs como a SOS Mata Atlântica, Instituto Socioambiental e Rede de ONGs da Mata Atlântica. É autora e editora de livros e publicações socioambientais e autora do blog ‘Paulistanasp’ no qual fala de temas que lhe são caros: meio ambiente, a metrópole paulistana, literatura e feminismo.

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