Rachel Añón: “Esperava trabalhar na construção social, mas este momento delicado me trouxe para a trincheira”

Sócia-fundadora da ponteAponte, empresa social cujo objetivo é fazer a conexão entre o setor privado e organizações de empreendedorismo socioambiental, a jornalista Rachel Añón conta, nesta entrevista, como a situação de caos político instalado no país – que tem provocado um desmonte nos ecossistemas socioambientais que vinham sendo estruturados – a levou a uma atuação ainda mais ativista.

Guiada por uma busca por encontrar qual o seu papel no mundo, Rachel foi repórter do jornal Folha de S. Paulo por mais de dez anos, aliando o trabalho formal ao voluntário, como na Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental e jornal espírita O Trevo. A partir de seu envolvimento com o Prêmio Empreendedor Social, direcionou sua atuação para potencializar iniciativas sociais de impacto.

Com a chegada da pandemia, a equipe da ponteAponte decidiu começar a mapear iniciativas de combate a Covid-19 e a conectá-las com quem precisava de ajuda na ponta. A partir daí, foram convidados pelo Pacto Global da ONU para fazer a ligação entre demanda e oferta para a plataforma Covid Radar, coletivo de empresas e organizações que juntam esforços para enfrentar a pandemia no Brasil.

“A coisa mais bonita que tenho presenciado são pessoas que não conversavam antes, como empresários, organizações sociais e pessoas de contextos periféricos, sentadas juntas para encontrar soluções”, declarou.

O que motivou a criação da ponteAponte e qual é o seu objetivo?

Desde muito cedo busquei uma vida espiritual que me levou a pensar sobre minha missão no mundo. Para que eu sirvo? Há nove anos, quando eu e meus sócios criamos a ponteAponte, escolhi que estaria neste lugar. Nossa missão é conectar pessoas para transformar a sociedade em um lugar mais justo, integrado e sustentável. Trabalhamos com a qualificação do investimento social privado. Aprendemos, nessa jornada, que o recurso não é só financeiro, há outros potenciais que precisam ser ativados e reverberados para todos os lados envolvidos na relação de apoio. Por isso, nossa atuação é junto com quem faz empresas, institutos e organizações da sociedade civil acontecerem. São as pessoas que fazem os locais se transformarem, ninguém faz nada sozinho.

Essa postura nos permite criar pontes entre grandes empresas e organizações e coletivos que estão atuando na ponta. Como no Movimento Coletivo, que cocriamos com uma empresa da área de bebidas açucaradas, cujo resultado foi, entre outras frentes, um edital que contemplou seis organizações que trabalham com alimentação e nutrição, selecionadas entre mais de 360 projetos de todo o país. No processo, houve um interesse genuíno do financiador de acompanhar e aprender com as iniciativas, abordando, inclusive, questões como a natureza do negócio da empresa e empreendedorismo social. Acreditamos que as relações sempre acontecem de diferentes formas e podem se tornar parcerias.

Qual a origem de sua busca espiritual?

Sou a mais velha de cinco filhos de pais que se casaram muito cedo – minha mãe grávida aos 17 e meu pai aos 20, entrando na faculdade de Medicina – e se separaram quando eu tinha nove anos. Fui criada bem solta, em Mogi das Cruzes, sempre com alguém que me acolhia para boas conversas. Não venho de família católica, mas, aos 11 anos, fui para a igreja porque queria fazer primeira comunhão e essa foi a origem do meu olhar para o social.

Passei a participar de um grupo de jovens, que me mostrou a importância de fazer o bem e me preocupar com o próximo. Visitávamos asilos e vivenciávamos as comunidades, as músicas engajadas, as Campanhas da Fraternidade. Tenho grandes amigos de lá até hoje. Aos 17 anos, cursando o segundo grau, conheci uma menina de Itaquera que me chamou para a Mocidade Espírita. Não tenho experiência do espiritismo de fenômeno, mas o de olhar interior da Aliança Espírita, convivendo com pessoas que criaram diversas entidades assistenciais e trabalhos como o Centro de Valorização Vida (CVV). Era um lugar de autoconhecimento, com a filosofia de que, sem caridade, não há salvação.

Essa experiência direcionou suas escolhas?

Queria fazer Medicina, como meu pai, mas não entrei. E, como havia prestado também Jornalismo, resolvi cursar. Fiquei triste na primeira semana, mas um mês depois sabia que estava no lugar certo. Depois de seis meses, entrei também em História e fiz os dois cursos simultaneamente, ambos com bolsa de estudo, pois passava por um momento difícil financeiramente. Foi um período de descobertas, focada em estudar a história do presente e o jornalismo do passado. Sempre lembro de uma professora de história medieval que tive, que foi militante política na ditadura e falava sobre mentalidade, imaginação e contava sua experiência e como a solidariedade ao outro era fundamental. Ir a asilos, falar de política, isso tudo me forjou.

Como começou sua vida profissional?

Por meio do meu ex-marido Luíz Carlos, que comecei a namorar ainda na faculdade, conheci o repórter policial Hélio Santos, do Notícias Populares, que me indicou para o editor do jornal. Em 2000, com 24 anos e muito insegura, iniciei na editoria de polícia. Foi quando descobri o mundo, a partir da periferia de São Paulo. Entrava às 7 horas da manhã e fazia o rescaldo dos crimes da madrugada. Ia muito ao Jardim Ângela, na época o lugar com o maior número de homicídios do mundo, onde tive a oportunidade de conhecer a dor do ser humano frente a violência.

Em agosto daquele ano, passei a trabalhar também, como freelancer, para a Folha de S. Paulo, jornal da mesma empresa. No início de 2001, o Notícias Populares foi fechado e, logo depois, fui contratada como repórter na Agência Folha, para trabalhar das 22h às 5h da manhã. Fazia cobertura de Brasil. Como não tinha muita visão de carreira, estar na Folha, na madrugada, era um prêmio. Com isso, comecei a ter autonomia, vim morar em São Paulo e comecei a reportar o mundo que via.

Quando surgiu a ativista?

Trabalhando na madrugada, comecei a fazer outras coisas, como pós-graduação em Relações Internacionais e a editar voluntariamente o jornal espírita O Trevo, no qual colaborei por quase 12 anos. Enquanto procurava pautas para a Folha, conheci a Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental e passei a colaborar com encontros de jornalismo ambiental. Em 2004, fizemos o primeiro Congresso de Jornalismo Ambiental no país. Funcionava 24 horas por dia. Mas tudo tem um preço. Entre 2007 e 2008, o excesso de atividade começou a pesar e fiquei doente. Tinha refluxo e ninguém descobria a razão. No íntimo, queria juntar tudo o que fazia e ser uma pessoa só e fazer algo que fizesse diferença no mundo.

Em 2008, conheci a Brahma Kumaris e o grupo Imagens e Vozes de Esperança (IVE), criado pela comunicadora norte-americana Judy Rogers. O grupo ficou famoso depois do atentado de 11 de setembro de 2001 pelo acolhimento que deu para os jornalistas que estavam à frente da cobertura. Ainda em 2008, Judy veio ao Brasil e fiz um retiro com ela. Lá, conheci uma pessoa que havia estado na Findhorn, a primeira ecovila do mundo, no norte da Escócia, e decidi ir para lá.

O que foi procurar?

Estava doente, queria aperfeiçoar o inglês e nunca tinha ido para a Europa. Consegui um período sabático na Folha. Desejava cuidar da terra, do corpo e do espírito. A experiência me abriu para o mundo. Foi minha Jornada do Herói nos moldes do Joseph Campbell. Trabalhei como auxiliar de jardim e fui muito acolhida. Também viajei para a Espanha (meu pai é espanhol) e conheci a família com a qual só tinha tido contato por cartas. Fui ainda à Irlanda, quando tive a ideia de que queria ser uma ponte no mundo, ligar pessoas. Voltei da Escócia em janeiro de 2010, mas já não queria mais fazer apenas reportagens.

O que você fez, então?

Antes de viajar já colaborava com o Prêmio Empreendedor Social, da Folha e da Fundação Schwab, e quando cheguei voltei a trabalhar lá. Foi quando a ponteAponte começou a ser gestada a partir do convite do Cássio Aoqui, amigo da Folha, que reuniu algumas pessoas com a ideia de que precisávamos ajudar os empreendedores sociais a salvar o mundo.

Fizemos vários encontros pra conversar sobre como iríamos fazer isso até chegar ao conceito de um negócio social com o qual pudéssemos ser remunerados e ter um propósito. Começamos com oito pessoas fundadoras e, no final de 2010, já estávamos trabalhando em algumas iniciativas. Ainda estava na Folha e recebi a minha demissão no dia em que criamos a Rede Folha de Empreendedores, uma de nossas primeiras ações – antes da criação oficial da ponteAponte -, com a ideia de conectar e aproveitar a força desses premiados.

A Folha foi nosso primeiro cliente e começamos a fazer a avaliação dos projetos selecionados para o Prêmio. Também fomos contratados pelo empreendedor social Roberto Kikawa, vencedor de 2010 do Prêmio Folha e criador do Centro de Integração de Educação e Saúde (CIES), que fazia caravanas de atendimento médico pelo Brasil, para ajudá-lo no planejamento estratégico da organização. Com o tempo, nos tornamos especialistas na avaliação de projetos sociais – já avaliamos mais de 5 mil organizações no Brasil e no México. Sabemos fazer prêmios e editais, e descobrimos o potencial que esses processos têm para a formação de redes de apoio e impacto coletivo. Atualmente, somos quatro sócios, minhas amadas Vanessa Prata e Camila Shiguematsu, além de mim e do Cássio.

A ponteAponte tem também uma vertente mais ativista?

Começamos a nos posicionar nos últimos dois anos, a partir da mudança de cenário no país. Como ativista, vi que as relações estavam ficando doentes e que, por conta das questões políticas, o país estava entrando em colapso, com o desmonte de muito do que havia sido construído no campo socioambiental. Foi um processo de sofrimento, pois também me separei nesse período. Achei que meu propósito era direcionado à vertente de construção e aprimoramento, mas percebi que era importante passar a fazer papel de trincheira para que as conquistas desse ecossistema socioambiental não se percam.

Quando o atual presidente foi eleito, trabalhávamos na criação de um prêmio de acesso à Justiça, para o escritório Mattos Filho Advogados, justamente para incentivar Direitos Humanos. Começamos a nos questionar o que colocar na frente: o negócio ou o propósito? Nunca pensei que seria uma pandemia que mostraria a desestrutura que estamos vendo, mas todo o processo era esperado. Veio a certeza de que era o momento de ampliar a nossa missão para uma sociedade mais justa, integrada e sustentável. Já na primeira semana do isolamento, percebemos que havia muitos problemas e muita gente com iniciativas emergindo.

O que resolveram fazer a partir do início da pandemia?

Cássio e eu sentamos para analisar o que estava acontecendo e concordamos que precisávamos colaborar. Havia excesso de informação e resolvemos organizar e articulá-las para ajudar nas tomadas de decisão de quem estava à frente. Criamos o mapeamento Covid-19, uma planilha com todas as iniciativas que conseguimos reunir, para juntar ideias, e colocamos na rua.

Paralelamente, o pessoal do Pacto Global da ONU também estava criando uma plataforma, a Covid Radar, e nos convidou para fazer a parte de conexão, uma parte de serviço que conecta demanda e oferta de ajuda. Passamos a atuar com um coletivo de empresas e organizações que trabalham juntas no enfrentamento da pandemia. Abraçamos esse projeto para ajudar as pessoas mais vulneráveis nesse momento crítico.

Qual sua visão sobre o momento atual no Brasil?

Vejo pessoas com muitas dores e um mundo interno com feridas de todos os lados. Cada um faz o que pode. Alguns conseguem lidar fazendo algo para melhorar o mundo e a vida do próximo, a maior parte paralisa, e outros precisam destruir e acabar com tudo.

Ainda estamos buscando respostas, mas o que tenho mesmo são muitas perguntas: Qual o meu papel agora para tornar esse mundo melhor? Quem são as pessoas que quero comigo na hora de enfrentar a batalha? A única certeza que tenho é continuar buscando ser uma pessoa melhor. E que, mesmo diante das dores, não podemos perder a alegria de ver as oportunidades que temos de fazer transformações.

Edição: Mônica Nunes

Foto: arquivo pessoal

Maura Campanili

Jornalista e geógrafa, foi repórter e editora de cidades e meio ambiente na Agência Estado e na revista Terra da Gente. Trabalhou em ONGs como a SOS Mata Atlântica, Instituto Socioambiental e Rede de ONGs da Mata Atlântica. É autora e editora de livros e publicações socioambientais e autora do blog ‘Paulistanasp’ no qual fala de temas que lhe são caros: meio ambiente, a metrópole paulistana, literatura e feminismo.

2 comentários em “Rachel Añón: “Esperava trabalhar na construção social, mas este momento delicado me trouxe para a trincheira”

  • 29 de junho de 2020 em 10:29 PM
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    Obrigada pela oportunidade de contar a minha história e a da @ponteAponte ao lado de mulheres incríveis!

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  • 9 de julho de 2020 em 11:04 AM
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    Estamos juntas nas trincheiras, na luta e nos avanços por um mundo melhor! Sua força me inspira @rachelañón!

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