Rabanada vista da janela

Rabanadas vistas da janela

Essa memória não é minha. A história que eu vou contar eu vi da janela. Vi mãe e filha em tempos de Natal preparando rabanadas. Ora no Rio de Janeiro, ora em Curitiba. Pra onde a família se mudava, a tradição de servir rabanadas no Natal acompanhava.

A menina cortava o pão amanhecido enquanto a mãe separava duas tigelas. Numa delas, derramava leite, misturava açúcar. A menina pedia leite condensado na mistura. Mais docinho. Era o jeito preferido dela. Na outra tigela, a mãe batia os ovos.

Então, as fatias de pão mergulhavam no leite,  passavam pelos ovos e, amarelos, iam pra frigideira quente, com um fio de óleo pra uma quase fritura.

O cuidado era muito pra não escurecer as rabanadas. De porção em porção, limpavam a frigideira com papel toalha, renovavam a gordura, esperavam aquecer e aí, sim, traziam mais fatias. Tudo para que o resíduo não ofuscasse o trabalho. Afinal, o bonito estava  no dourado crocante.

Era um processo entre silêncios e breves falas:  Tá bom assim? Tá bom. Deixa escorrer um pouquinho do leite, filha. Não come ainda… E sorriam, cúmplices. Sem pressa.

No fim, o pão ganhava cor e doçura e ainda tinha o acabamento. Essa  missão a menina adorava cumprir: açúcar e canela, uma peneirinha e a chuva da mistura sobre os pães fritos. De vez em quando, empanava  o dedo e lambia.

Nunca teve Natal sem o ritual, sem que as duas fossem pra cozinha, sem que a rabanada fosse tão previsível quanto presente, pisca-pisca e presépio.

O cheiro doce arrematava a ceia, acordava a família pro café da manhã. Ficava melhor ainda mais tarde, quando os sabores se acomodavam na massa do pão, completamente incorporados.

Aqui da janela, aprendo um macete da receita: a mãe ensina que, se no dia seguinte a rabanada amanhecer ressecada,  basta molhar com um pouco de leite e açúcar. Nova chuva de açúcar e canela, mais uma rodada de sabor.

Tem alguns natais que eu olho da janela e a menina, agora mulher, faz as rabanadas sozinha. Já fez na Europa, de novo no Rio de Janeiro, em Curitiba e nos Estados Unidos. Carrega o ritual pra família que tem. Olhando assim, mais demorado, vejo que ela repete a receita do jeitinho que aprendeu, sem tirar nem pôr. Às vezes sussurra, às vezes sorri. E chora um pouco também.

Receita de rabanadas

INGREDIENTES
3 pães franceses
2 xícaras de leite
água de flor de laranjeira ou essência de baunilha
3 colheres de sopa de açúcar ou meia lata de leite condensado
2 ovos batidos
óleo pra fritar
açúcar e canela para polvilhar

MODO DE PREPARO

Comece preparando a mistura de leite fresco e açúcar ou leite fresco e leite condensado. Junte num prato fundo, misture bem e acrescente umas gotas de essência de baunilha ou uma colherinha de chá de água de flor de laranjeira pra aromatizar e destacar o sabor.

Noutro prato fundo, bata os ovos ligeiramente.

As fatias de pão, amanhecidas ou dormidas, devem, de preferência, ser cortadas em diagonal. Encharque cada fatia na mistura de leite. Importante que o líquido penetre em todo miolo. O pão amanhecido deixa a massa mais durinha. Se fizer com pão fresco, vai desmanchar.

Dê uma apertadinha na fatia com a ponta dos dedos pra retirar o excesso de líquido. Em seguida, lambuze o pão nos ovos batidos, erga cada fatia pra escorrer e leve imediatamente à frigideira que já deve estar com óleo quente.

Deixe dourar um minutinho de cada lado. Retire da frigideira, coloque sobre uma grade ou papel toalha.

Depois, polvilhe a mistura de açúcar e canela e sirva.

Fica bom também servida com sorvete ou creme inglês ou geleia de fruta sem açúcar.

Feliz Natal onde estiver, minha amiga Suzana!

Obrigada pela parceria, cuidado e incentivo.

Beijo,

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Cássia Miguel

Mulher de marido, mãe de filho, madrasta de enteados. Começou a carreira profissional vendendo pinga e pão com mortadela na venda dos pais, em Minas. Foi bancária, revisora de jornal, rádio escuta, repórter, editora e apresentadora de TV. Hoje é especializada em media training, com foco para entrevistas em TV e vídeo. Fez jornalismo na PUCCAMP, pós graduação em Gestão Estratégica em Comunicação Organizacional e Relações Públicas na USP e Análise do Discurso na PUC SP. Tudo isto sem tirar o pé da cozinha

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