‘Quero a paz da vida, da justiça, que faz efervescer a dignidade dos povos e da natureza’, dizia Dom Pedro Casaldáliga

Por Marcio Camilo e Maria Fernanda Ribeiro*

‘Quero a paz da vida, da justiça, que faz efervescer a dignidade dos povos e da natureza’, dizia Dom Pedro Casaldáliga

Dom Pedro Casaldáliga, o líder católico que teve sua trajetória marcada pelas causas indígenas, pela reforma agrária e por estar sempre ao lado dos mais pobres, morreu na manhã de 8 de agosto, aos 92 anos. O bispo emérito da prelazia de São Félix do Araguaia, do Mato Grosso, estava internado na Santa Casa de Misericórdia de Batatais, no interior de São Paulo, desde o dia 4. Ele havia sido transferido de um hospital no nordeste do Mato Grosso por problemas respiratórios e agravamento da doença de Parkinson. 

“Foi ele quem deu os primeiros passos para organizar o território, atuar em defesa das minorias e em questões como educação, saúde e saneamento básico para os mais pobres. Tinha uma enorme capacidade de não esquecer os últimos, principalmente os indígenas”, disse dom Adriano Ciocca, atual bispo de São Félix do Araguaia.

Muito emocionado, mas já sabendo da gravidade do quadro de saúde de Casaldáliga, dom Adriano afirma que foi pego de surpresa e acreditava que o bispo emérito poderia “ficar mais tempo conosco” pelos cuidados que estava recebendo da Santa Casa do Batatais. “Agora temos que continuar essa missão deixada por ele”.

O bispo emérito morreu devido a uma infecção respiratória que teria evoluído para embolia pulmonar. O comunicado do falecimento foi assinado, em conjunto, pela prelazia de São Félix do Araguaia, Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria (Claretianos) e Ordem de Santo Agostinho (Agostinianos). O velório aconteceu em Batatais, Ribeirão Cascalheira (MT) e São Félix do Araguaia, onde o corpo foi enterrado.

Em 5/8, Casaldáliga foi submetido a uma tomografia que identificou um quadro de pneumonia e muito líquido no pulmão esquerdo. No último boletim, divulgado em 7/8, o médico Antônio Marcos Barbosa da Silva disse que o quadro clínico era grave, com necessidade de suporte intensivo com alta concentração de oxigênio devido ao quadro infeccioso.

Dom Adriano lembra como o bispo emérito sofria com o problema no pulmão havia anos. “Quando o visitava eu ficava constrangido de ver aquela figura tão apaixonada, tão valente, imobilizada por causa da doença.”

Ainda jovem, dom Pedro Casaldáliga sofreu uma forte pneumonia que deixou sequelas permanentes em seu pulmão. Antes de ser transferido para o interior de São Paulo, ele fez três testes de Covid-19 que deram negativo, em São Félix do Araguaia. Já em Batatais foi feito um teste rápido que também deu negativo para a doença.

Para o bispo da Diocese de Xingu-Altamira, dom João Muniz Alves, Casaldáliga deixa um legado de doação e presença junto ao povo de sua igreja e é um dos maiores profetas da atualidade.

“Dom Casaldáliga é um ícone da Igreja do Brasil, uma voz profética em favor da vida e dos direitos dos indígenas e lavradores. Sofreu ameaças de morte e permaneceu firme na missão. Com 52 anos de presença na Amazônia, Casaldáliga enraizou-se na cultura de nosso povo e tornou-se um de nós. Deus seja louvado por este apóstolo da esperança e do amor que se doa até o fim”, disse dom João.

Em novembro do ano passado, a reportagem da Amazônia Real esteve com Dom Pedro Casaldáliga, na casa dele em São Félix do Araguaia. Ele já não andava e nem falava mais, mas a audição estava preservada e com acenos de cabeça mostrava que estava ali. Seis meses antes, uma queda contribuiu para que o estado de saúde já debilitado, devido à idade e ao Parkinson, se agravasse e toda a locomoção tinha de ser feita na cadeira de rodas e com a ajuda dos cuidadores. 

O enfrentamento da ditadura militar 

Dom Pedro Casaldáliga nasceu na Espanha em 1928 e foi um dos principais expoentes da Teologia da Libertação no Brasil. Ganhou projeção nacional e  internacional por denunciar os grandes latifúndios de São Félix do Araguaia que começaram a se estabelecer na década de 1970. 

Na ditadura militar, não se calou diante dos desmandos que começou a perceber assim que chegou a São Félix do Araguaia, em 1968. Publicou uma série de cartas abertas à população relatando as desigualdades na região, agravadas pela grande concentração de terras nas mãos de poucos. Pagou um preço alto por isso, sendo preso pelos militares: “Como é bom ser perseguido pela causa do Evangelho, da Justiça e da total libertação”, escreveu na ocasião em que foi detido. 

Na histórica carta intitulada “Uma igreja na Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social”, ainda na década de 1970, foi capaz de mobilizar importantes teólogos, como Frei Betto e Leonardo Boff. Casaldáliga conseguiu levá-los à pequena São Félix do Araguaia para debaterem sobre a importância da reforma agrária e das lutas sociais, além de reforçar, dentro da Igreja católica, o movimento da Teologia da Libertação.

“Na década de 70, a percepção da dimensão da figura do Pedro era outra. Ele teve uma projeção nacional e internacional muito grande”, disse a escritora Ana Helena Tavares, em entrevista à revista CartaCapital, em maio do ano passado. Na oportunidade a autora lançou a biografia “Um bispo contra todas as cercas”.  

No ano de 2013, o bispo emérito teve de sair escoltado pela Polícia Federal de São Félix por causa de ameaças de mortes de fazendeiros da região, inconformados com o processo de desintrusão da Terra Indígena Marãiwatsédé, do povo Xavante.

À época, os produtores rurais disseram que as declarações do bispo a favor dos indígenas pela retomada do território fizeram com que o governo de Dilma Rousseff acelerasse ainda mais o processo de desintrusão.

Em julho passado, dom Pedro Casaldáliga assinou uma carta, em conjunto com outros 154 bispos da Igreja católica, tecendo duras críticas ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). No documento, foi destacado que o governo federal “é apático”, “omisso” e demonstra uma grande falta de interesse em atender aos mais pobres, além “de incapacidade para enfrentar crises”. 

“Não quero a paz do cemitério, mas a paz da justiça”

O pastor Teobaldo Witter, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, dialogou por muitos anos com Casaldáliga na luta pelos direitos humanos. Ele o definiu como o “grande profeta”, que “permanecerá vivo em nossa memória por muito tempo, por sua luta pelo povo, pela paz e por justiça e direitos”.

Witter lembra que o bispo emérito foi uma figura obstinada, incansável por justiça social. “Ele costumava dizer: ‘Não quero a paz do cemitério, mas a paz da vida, da justiça, que é aquela que faz efervescer a dignidade dos povos e da natureza’”.

O pastor se recorda, com afeição, de um encontro realizado pelo Conselho Indigenista Missionário, em Mato Grosso. “O jeito simples, de almoçar, pegar o prato, e ir ajudar a lavar louça. Eu pensava ‘que coisa fantástica, temos um bispo com aquele conhecimento da terra e do céu, que não se deixa dominar pelos esforços da morte, mas sim pela libertação’”.

A diretora de imprensa da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Mato Grosso (Adufmat), Lelica Lacerda, também entende que agora é continuar o legado de dom Pedro. “Nas fileiras de lutas é uma perda irreparável, mas precisamos fazer jus a esse legado. Precisaremos assumir essas tarefas históricas, para que sua imagem e luta não morram.”

Marilza Schuina, amiga de longa data de Casaldáliga e secretária da 15° Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base do Brasil (CEBs), afirma que o “pastor e profeta caminhará sempre conosco e continuará com seu ardor missionário junto à causa dos empobrecidos nesta grande América Latina sofrida e esperançada.”  “Louvemos a Deus pela vida de Pedro. Vida vivida pelo Reino. Descanse na paz rebelde, Pedro”. 

sertanista Sydney Possuelo, ex-presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), prestou homenagens ao amigo de muitas lutas em defesa dos povos indígenas, Dom Pedro Casaldáliga.

“Fazia algum tempo que não pensava nele e, hoje fui surpreendido com a notícia do seu falecimento. Dom Pedro Casaldáliga e eu éramos vizinhos, ele na Prelazia, eu como diretor da Ilha do Bananal. Muitas vezes nos encontramos. Falávamos sempre sobre os povos indígenas e os ribeirinhos que compunham a maior parte da sua freguesia. Sua retórica socialista era mansa e dentro do espirito cristão. Minha lembrança recorda um homem incansável em acreditar no que o ser humano possa ter de melhor e de divino. Casaldáliga nos deixou hoje mas, em mim, para sempre, de forma indelével permanece sua imagem carregada de amor ao próximo e de profunda compaixão pelos humanos, para sempre. Consternado e triste exponho meu pesar”.

*texto publicado originalmente no site da Amazônia Real, em 8/8/2020

Foto: Joan Guerrero/CTB

Amazônia Real

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